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Mundo

Sociedades civis em diálogo

Encontro bilateral reúne diversos setores da sociedade, em busca de um diálogo que ultrapasse as fronteiras oficiais. A idéia é envolver novas gerações na criação de uma rede interdisciplinar teuto-brasileira.

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O encontro que se encerra neste sábado (02/07), em Fortaleza, "é uma iniciativa que ainda busca seu formato, busca definir seu espaço no conjunto das inúmeras relações entre Brasil e Alemanha", diz em entrevista à DW-WORLD o professor Abílio Baeta Neves, que coordena o evento do lado brasileiro.

A idéia original, segundo Neves, foi a de "provocar um diálogo transversal", ou seja, mobilizar os segmentos da sociedade brasileira que já se encontram em contato com a Alemanha e vice-versa. E fazer com que estes se interessem por assuntos de outras áreas. Isso significa construir uma ponte entre movimentos sociais e empresários, entre acadêmicos e movimentos sociais e assim por diante.

Criando denominadores comuns

Partindo do princípio de que as relações acadêmicas entre os dois países já são consideravelmente sólidas, a criação do encontro das sociedades civis – lançado no último ano, em Stuttgart – tem por objetivo "transversalizar o debate, cruzar os discursos e tentar provocar novos denominadores comuns nessa relação Brasil-Alemanha", observa Neves.

Sendo que o grande mérito do encontro, na opinião de Theodor Berchem, presidente do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) e coordenador do evento, em entrevista à DW-WORLD, é "o espaço aberto" para o debate. Através da diversidade dos participantes, cria-se a oportunidade de um diálogo real, "sem que interesses individuais de determinados grupos tomem a posição de frente", completa Berchem.

Mobilização de novas gerações

Outra meta do encontro é fazer com que o diálogo bilateral Brasil-Alemanha deixe os espaços viciados de "velhos amigos" e consiga chegar às novas gerações. "A questão da incorporação dos jovens começa a acontecer, mas ainda é um desafio. Temos a intenção de dirigir cada vez mais a divulgação desse diálogo entre o contingente de estudantes alemães e brasileiros que participam de programas de cooperação, mas também chegar a novos estudantes, de outros setores e não necessariamente do meio acadêmico", descreve Neves.

Vários ex-bolsistas do DAAD, por exemplo, participam do encontro. Além disso, há projetos que visam o envolvimento tanto de pesquisadores brasileiros quanto alemães em fóruns de discussão. O alemão Fabian Zuber, por exemplo, conta o coordenador Berchem, "vai acompanhar durante três anos o desenvolvimento do Diálogo, em todas as suas esferas, para elaborar seu doutorado sobre as relações teuto-brasileiras".

Pluralidade da representação

A meta do encontro, que segundo os organizadores pôde ser atingida em partes nesta segunda versão em Fortaleza, é conseguir reunir representantes de diversos segmentos da sociedade dos dois países: políticos, ativistas de movimentos sociais, ONGs, Igrejas, acadêmicos, jornalistas, empresários.

"Eu, pessoalmente, gostaria de ter tido mais representantes do meio cultural e artístico nesse evento. Não apenas porque há aí um campo de interação entre Brasil e Alemanha muito rico, produtivo, fértil, mas também porque é bom ouvir o que essas pessoas têm a dizer. As relações não podem ser só relações formalizadas naqueles canais da economia ou mesmo da academia. É bom ter outros atores, ter uma pluralidade de representação", afirma Neves. Sendo que a diversidade dos participantes é, via de regra, refletida na multiplicidade de temas tratados.

Independência das relações oficiais

A peculiaridade de uma tentativa de diálogo como essa é tentar criar uma rede de intercâmbio que se diferencie das relações institucionalizadas. Uma forma de "incentivar o contato entre as duas sociedades abaixo das esferas governamentais", diz Berchem. Mantendo a preocupação para que o diálogo não se posicione "na contramão das políticas oficiais", como observa Neves, mas que por outro lado também "não fique simplesmente repetindo o que é a agenda das relações bilaterais oficiais".

O lema da versão 2005 em Fortaleza – Brasil-Alemanha: Sociedades em Transformação – é uma referência direta às mudanças pelas quais os dois países passam em vários aspectos: no que diz respeito à atual situação política, a seus papéis no cenário internacional, nas transformações no âmbito da cultura, na cooperação acadêmica e na visão dos dois países como sociedades multiculturais. Além disso, os participantes do Diálogo debatem ainda a imagem que os alemães têm do Brasil e a que os brasileiros têm da Alemanha.

"Simetria nas relações"

Não se pode esquecer que sempre paira um perigo, quando quando sociedades ditas "desenvolvidas" se sentam à mesa com aquelas tidas como "aprendizes", ou seja, mais pobres e geralmente forçadas a aprender a linguagem eurocêntrica dominante. Trata-se do perigo de que se propague como diálogo uma relação que se baseia em princípios unilaterais, da superioridade de um modus vivendi sobre o outro.

Algo que, segundo os dois organizadores do evento que se encerra em Fortaleza, se procura evitar neste diálogo das sociedades civis. "O aprendizado mútuo não deve ser superestimado no sentido de uma relação professor-aluno", diz o alemão Berchem.

Defendendo uma postura semelhante à do brasileiro Baeta Neves, quando este também confirma que "o clima do diálogo não é um clima de afirmação unilateral de um parceiro, mas o de troca real de experiências e de aprendizado mútuo. Não há aqui uma assimetria nas relações. Estamos convictos de que o Brasil pode, sempre tem aprendido muito com a Alemanha, mas a Alemanha já reconhece que ela também pode aprender com o Brasil. Ou seja, trata-se de entender antes de mais nada a realidade, a cultura, as percepções do parceiro e realmente construir aí uma plataforma de intercâmbio criativo, produtivo".

Isso implica inclusive em controvérsia e polêmica nos debates: "O atrito possibilita justamente que se submeta o próprio ponto de vista a uma revisão", afirma Berchem. E promete para a terceira edição do encontro, que deverá acontecer na Alemanha no ano que vem, a continuação desse tipo de abordagem e a ampliação da base para o intercâmbio ativo entre as duas sociedades. A idéia é realizá-lo numa cidade que tenha uma comunidade brasileira numerosa, que por meio de sua participação contribua para enriquecer o debate.

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