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América Latina

Socialismo do século 21 mostra sinais de declínio

Ideologia criada por Hugo Chávez dá sinais de desgaste depois da morte do líder venezuelano. Especialistas ressaltam que ela não deve sobreviver por muito tempo fora da Venezuela e sem a China como financiadora.

A vitória apertada do herdeiro político de Hugo Chávez, Nicolás Maduro, sobre o candidato da oposição, Henrique Capriles, nas últimas eleições presidenciais da Venezuela mostra que o socialismo do século 21 – termo ideológico utilizado por Chávez e colocado em prática principalmente na Venezuela, na Bolívia e no Equador – está em decadência na América Latina.

De acordo com o pesquisador Thiago Gehre Galvão, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), as três grandes ideologias cunhadas ao longo dos últimos 200 anos – o liberalismo, o conservadorismo e o socialismo – estão em declínio. Ele usa como referência as ideias de Immanuel Wallerstein, um dos grandes pensadores contemporâneos de relações internacionais

"Nesse sentido, se existe algo como 'socialismo do século 21 em declínio', é porque as ideias e os ideais socialistas no mundo todo estão se desgastando e desvanecendo", afirmou. Galvão afirma, ainda, que o termo socialismo do século 21 pode ser visto como uma tradição inventada por Chávez para diferenciar o modelo venezuelano de outros modelos socialistas em vigência no mundo, como o de Cuba.

"Ao criar uma identidade própria, Chávez exercitaria uma dupla proposta: interna, de consolidação do socialismo como projeto político e de governo; e externa, exportando as ideias chavistas embutidas num modelo imaginado por ele e rotulado de socialismo do século 21", frisa o pesquisador.

Exportação duvidosa

Entretanto, a exportação desse modelo político para outros países como Equador e Bolívia esbarra num aspecto simples: o de que ideias podem ser absorvidas, modificadas ou até mesmo rechaçadas de acordo com a vontade do governante. Ou seja, os presidentes Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador, podem ter ideias e concepções de mundo muito diferentes das de Chávez. "Por esta razão, não vejo que o socialismo do século 21 vá perdurar fora da Venezuela, por ser um fenômeno essencialmente venezuelano da era Chávez", argumenta Galvão.

Nicolas Maduro Präsident Venezuela Vereidigung

Maduro, escolhido por Chávez como herdeiro político, foi empossado em abril

Para Virgílio Arraes, professor de história contemporânea da UnB, encontrar um caminho alternativo ao neoliberalismo que vigorou nas décadas de 1980 e 1990 é uma tentativa válida, mas ele questiona se faz sentido lançar mão de uma herança da Guerra Fria.

"O socialismo do século 21 nasceu, de certa forma, anacrônico, porque não conseguiu se adaptar aos problemas do século 21, como a questão ambiental e o desemprego em massa. Faltou aos governos desses três países [Venezuela, Bolívia e Equador] maior ousadia. Não é fácil trilhar um caminho novo. Por isso, o desgaste e a persistência das dificuldades", acrescenta Arraes.

Petróleo e nacionalização da economia

As três nações, altamente dependentes do petróleo e de seu preço no mercado internacional, estatizam suas economias e rejeitam o capital estrangeiro. Em consequência, até mesmo os benefícios sociais pagos às famílias mais pobres deverão ficar comprometidos com um Estado cada vez mais fraco.

Das três nações, a Bolívia é a que tem melhor situação econômica. Seu presidente, Evo Morales, deverá disputar um terceiro mandato. Já o presidente equatoriano, Rafael Correa, reelegeu-se com ampla maioria em fevereiro, mas o país passa por uma situação extremamente delicada.

"É um declínio lento. Isso porque se você comparar as situações de Venezuela, Equador e Bolívia com o Peru, a taxa de crescimento deste último é superior ao índice desses três países. Isso mostra que existem alternativas", destaca Antonio Carlos dos Santos, professor de Economia e Comércio Internacional da PUC-SP.

Blick auf Rohrleitungen auf dem Werksgelände der Punta Cardon-Raffinerie

China é um dos grandes consumidores do petróleo produzido por Venezuela, Equador e Bolívia

Galvão, da UnB, aponta que o controle do Estado sobre a economia não tem relação com abraçar ou não as ideias do socialismo do século 21, mas com a instalação de um modelo de desenvolvimento que permita ao Estado prover à sua população o básico para a manutenção e sobrevivência próprias.

Dessa forma, as estatizações e o domínio do setor energético foram maneiras encontradas para recuperar as condições econômicas de governabilidade política, ou seja, de dar ao Estado condições de propor mudanças em outros ramos, como o social.

"É óbvio que tal modelo rentista tem um limite ou um alcance limitado, que tem haver com a elasticidade das commodities energéticas no mercado mundial, mas também com a estrutura interna de produção, que no caso de Bolívia, Equador e Venezuela, é praticamente inexistente", argumenta Galvão. Ele lembra que os ganhos com o petróleo não têm sido utilizados para criar uma estrutura produtiva básica para fortalecer a indústria e outros setores-chaves nesses países.

Financiamento indireto da China

A China é um dos grandes consumidores dos recursos primários dos países latino-americanos e, de maneira indireta, um dos países que apoiam os regimes socialistas na Venezuela, Bolívia e Equador. Os Estados Unidos, que compram aproximadamente 40% do petróleo venezuelano, por exemplo, também são outro elemento financiador.

"A diferença, que se traduz em apoio indireto da China ao governo chavista, é a troca de petróleo por canais de crédito e a venda de petróleo pelos próximos 20 anos, já pagos pelos chineses. Dessa forma, o país tem sido em grande parte financiador dos programas sociais na Venezuela, através da venda futura de petróleo", diz Ana Soliz Landivar, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), em Hamburgo.

O interesse da China pela região não é somente ideológico, mas principalmente econômico. "A partir do momento que esses regimes não proporcionarem mais os ganhos esperados, a China teria o pragmatismo de colocar de lado o apoio destinado a esses países, condicionado não apenas à ideologia, mas também à economia", conclui Arraes, da UnB.

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