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Cultura

Silêncio dos monges vira sucesso de bilheteria

Um filme sobre a Ordem Cartusiana dos Alpes franceses encontrou o caminho para o as grandes salas alemãs. Um sucesso surpreendente: em lugar de ação ou grandes emoções, apenas a calma contemplação da vida monástica.

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Cena de 'Die grosse Stille'

A impaciência certamente não é um defeito do cineasta alemão Philip Gröning. Há quase 20 anos, ele pediu aos monges da Ordem Cartusiana a permissão de rodar um documentário sobre suas vidas. A resposta foi: para alguns monges, ainda há pouco tempo na ordem, era cedo demais; eles precisariam de cerca de dez anos, até se acostumarem à vida no convento.

Gröning não se deixou intimidar e manteve contato com o prior. Em 2002, finalmente reuniu-se aos religiosos em seu retiro nos Alpes franceses, por vários meses, e captou impressões da vida monástica. A ordem consta como a mais rigorosa da Igreja católica romana.

O filme resultante, com cerca de três horas de duração, recebeu uma chuva de críticas positivas, sendo por fim exibido em circuito comercial. Para surpresa generalizada, Die grosse Stille (O grande silêncio) é sucesso de público, já havendo ultrapassado a marca dos 100 mil espectadores.

DW-WORLD: Você está surpreso pelo sucesso de seu filme?

Philip Gröning - Regisseur

Diretor Philip Gröning

Philip Gröning: Nem tanto quanto os distribuidores, eles estão mais surpresos. Eu sabia que os espectadores se alegrariam com essa experiência, essa estrutura temporal especial e essa forma de vida meditativa. Eu acreditava que, uma vez que o filme chegasse às salas, entrando em contato com o público, as pessoas começariam a recomendá-lo. E foi justamente o que ocorreu.

Por que fez esse filme?

A idéia original me veio em 1984, quando estava na escola de cinema. Havia terminado meu primeiro curta-metragem e estava sob a impressão do caos e dos jogos de poder durante os trabalhos de filmagem. Queria fazer algo que me trouxesse de volta àquilo que considero trabalho artístico. Para mim, isso significa trabalhar com verdade, e tentar criar algo bastante absoluto. Assim cheguei à idéia do convento do silêncio. E aí tudo levou muito tempo.

Demorou 17 anos!

Em 1986 visitei uma pequena cartuxa, na companhia de um amigo com quem pensava fazer o filme. Eles disseram que o projeto era bonito, mas que ainda era cedo demais. Alguns monges haviam sido aceitos há pouco e precisavam de uns dez anos até se acostumarem, me explicaram. Pensávamos que o projeto estivesse morto. Mas continuei em contato, e em 1999 me ligaram, perguntando se ainda tinha interesse. Demorou um pouco até eu conseguir a permissão para filmar e o dinheiro. Começamos a rodar em 2002.

Alguns críticos reclamaram que o filme não tem estrutura narrativa. Por que você decidiu fazer o filme dessa maneira?

Vivemos num tempo em que as informações estão disponíveis em todo lugar e a vivências são cada vez mais raras. Um filme sobre um mosteiro que dê todas as informações sobre ele – quando os monges se levantam, quando a ordem foi fundada – seria perda de tempo para o espectador, pois ele fica sabendo isso em dois minutos, no site da ordem ou no meu. Como diretor, decidi-me por realizar um filme que forneça espaço para experiências, e que deixe o espectador vivenciá-las. Claro, tem gente que diz que o filme não conta muito sobre o mosteiro, mas isso é falso. O filme cria o mosteiro para o espectador.

Para propiciar essa vivência na tela, você teve que viver entre os monges, durante a rodagem. Como foi isso?

Foi uma boa experiência. Esse foi o principal motivo para eu haver feito esse filme. No princípio, estava muito triste e solitário. Quando não se fala, a pessoa começa a refletir sobre o que faz e vem um vazio. Então a coisa mudou, pouco a pouco a percepção ficou bem mais clara, e tive uma sensação tranqüilizadora. Tudo o que você vê ou ouve o faz feliz como ser humano. É uma coisa curiosa: quando você consegue não ficar pensando no próximo momento, nem fazer muitos planos – é uma espécie de pura felicidade. Você fica simplesmente feliz.

Foi difícil retornar à sua antiga vida, após deixar o mosteiro?

Acima de tudo tomei consciência – após conviver com essas pessoas bastante livres de medos – de quanto a nossa sociedade é dirigida pelo medo. Costumamos dizer que ela é impulsionada pelo consumo e ganância, mas isso não é verdade. Ganância, consumo, o desejo de ter um novo Porsche, por exemplo, é uma máscara para o puro medo. É uma sociedade que beira o pânico, e isso foi difícil de aceitar.

Nos últimos tempos vários filmes documentários encontraram grande interesse do público. Você acha que o gênero está de volta?

Acredito definitivamente no retorno do gênero documentário. Talvez porque a dramaturgia do filme normal tornou-se tão previsível. Com grande antecedência você já sabe que vai chorar em dois minutos e bam!, acontece. Acho que aos poucos as pessoas estão ficando cansadas disso e apreciam a surpresa e a crueza de um documentário, pois aqui é muito mais intensa a relação com o que você realmente é. E isso é importante para o cinema.

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