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Cultura

Sexagenário Handke resgata imagens dos anos 60

O austríaco Peter Handke, que completa 60 anos nesta sexta-feira (6), lança nova coletânea de textos sobre cinema, literatura e artes plásticas e invoca o poder das imagens.

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Peter Handke

"Jamais uma noite me pareceu tão real, tão elementar [...]. Quando vi La Notte, tive pela primeira vez uma espécie de sentimento do mundo, para lá de todos os sentimentos individuais. [...] É como se, como mero espectador, eu tivesse merecido o mundo (algo que eu só tinha conseguido sentir até então com um certo trabalho). E o mundo, sem qualquer imprevisto noturno, estava lá, como um evento; a 'grande amplidão do mundo', de acordo com o diagnóstico do Sr. Goethe, um viajante em seu próprio quarto, observando os quadros." Assim descreve Handke a primeira vez em que assistiu – em 1962 – A Noite, de Antonioni, filme protagonizado por Jeanne Moreau, com quem o jovem escritor austríaco recém-estabelecido em Paris viria a ter um caso, na década de 70.

"Uma coisa chamada cinema"

No texto "Apetite de Mundo: discurso de um espectador sobre uma coisa chamada cinema" (1992), republicado na recente coletânea Mündliches und Schriftliches (Orais e Escritos - Sobre livros, imagens e filmes – 1992-2002. Frankfurt a.M., Suhrkamp, 2002), Handke mostra que sua obstinada busca de um acesso não intermediado ao "mundo" não representa uma tentativa de neutralizar a(s) mídia(s). Para o roteirista de Asas do Desejo, de Wim Wenders, e cineasta esporádico ( Die linkshändige Frau / A Mulher Canhota, 1977; L'absence / A Ausência, 1992), o cinema se revelou – através da Nouvelle Vague – "como uma coisa da realidade, da mais ampla das realidades, e como a única coisa do gênero, naquela época, nos anos 60 do século 20".

Por mais que esta reminiscência dos sixties – década da sua estréia literária, com o romance Die Hornissen (Os Marimbondos, 1966) – deixe transparecer uma certa nostalgia, o cinéfilo Handke não se deixa abater pelas decepções com a produção contemporânea, que constantemente o fazem abandonar o cinema no meio da sessão. "Este não é o fim das imagens", intitula Handke um outro texto da coletânea, em que defende o cinema contemporâneo das acusações de decadência, elogiando – por exemplo – Pulp Fiction, de Tarantino.

O romancista e suas marginálias

Na nova antologia de discursos e artigos circunstanciais proferidos e publicados nos últimos dez anos (continuação da última coletânea do gênero, Langsam im Schatten / Devagar na Sombra, que reúne textos de 1980 a 1992), Handke faz jus a sua predileção pelo marginal, enfocando – com exceção de alguns nomes consagrados, como Marguerite Duras, na literatura, Anselm Kiefer, na pintura, e Abbas Kiarostami, no cinema – artistas à margem dos meios de comunicação de massa, como o escritor Hermann Lenz, os cineastas Jean Marie Straub e Danièle Huillet e o pintor Zoran Music.

De todos os artistas retratados por Handke na recente coletânea, o crítico e historiador da arte Helmut Färber, que costumava escrever singulares críticas de cinema no diário Süddeutsche Zeitung, na década de 60, é o que melhor catalisa os interesses estéticos de Handke. O próprio escritor admite que um de seus primeiros romances, Der kurze Brief zum langen Abschied (Breve carta sobre a longa despedida, 1972) jamais teria sido escrito, se ele não tivesse lido as críticas de Helmut Färber. "Seus textos consistiam [...] praticamente apenas em digressões", comenta Handke, como se estivesse descrevendo o movimento de sua própria escrita. Aliás, o protagonista deste romance é o que melhor define esta tendência handkiana: "Ocorreu-me que durante muito tempo eu também tinha uma percepção bizarra do mundo a minha volta. Quando tinha que descrever alguma coisa, eu nunca sabia direito sua aparência, lembrando-me apenas das singularidades; e, quando não havia nenhuma, eu inventava".

A predileção pelo periférico, que acaba por diluir o "enredo" dos romances de Handke num fluxo de percepções pontuais e contingentes, pode ser resumida com as seguintes palavras do protagonista de Breve Carta sobre a Longa Despedida: "Eu me sentia como antes, quando – ao descrever o que alguém tinha feito – não conseguia omitir nenhum detalhe de suas ações. Se eu entrava numa casa, ao invés de dizer ‘Entrei na casa’, dizia: ‘Limpei o sapato, virei o trinco, fechando a porta atrás de mim’. Quando mandava uma carta para alguém, em vez de ‘mandar a carta’, sempre ‘pegava uma folha em branco, tirava a tampa da caneta, escrevia, dobrava a folha, colocava-a no envelope, anotava o endereço, colava um selo e jogava a carta na caixa de correio’."

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