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Ciência e Saúde

Seu filho já ralou o joelho hoje?

Computadores, aumento da criminalidade e excesso de atividades extracurriculares afastam crianças das brincadeiras de rua. Especialistas alertam: infância entre muros pode gerar adultos individualistas e instáveis.

Num país onde mais de 30 milhões de pessoas saíram da miséria na última década, crescem as preocupações com alimentação, moradia, saúde e educação infantil. Em todas as classes sociais, os pequenos ganharam melhores condições de vida. Mas o Brasil parece estar deixando de lado outro direito fundamental dos pequenos, previsto no artigo 31 da Convenção dos Direitos da Criança da ONU – o de brincar.

E preocupados com o fato de que as crianças brasileiras, cada vez mais, brincam menos, especialistas fazem um alerta: o ato de brincar na rua é fundamental para a formação de valores. Uma infância sem brincadeiras livres, longe das telas de gadgets, videogames e celulares, pode reduzir as fases do desenvolvimento, produzir adultos precoces e, mais tarde, emocionalmente instáveis, que se comportam como crianças.

"Não ir à rua ralar o joelho, subir em árvore, passear em carrinhos de rolimã e outras brincadeiras livres faz uma grande falta no processo de socialização. A criança acaba não desenvolvendo o juízo moral, que ocorre naturalmente quando se organizam sozinhas em jogos ao ar livre, como esconde-esconde, pique e brincadeiras com bola", opina Rosália Duarte, pesquisadora do Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. "Existe o risco de estarmos criando uma geração de adultos mais egocêntricos, individualistas, com menor capacidade de trabalhar em equipe e personalidades morais menos sólidas e flexíveis".

O desenvolvimento e os desafios sociais e econômicos trouxeram obstáculos ao ato de brincar nas grandes cidades, mais verticalizadas e violentas, sem tantos espaços públicos capazes de tornarem-se palco para brincadeiras. Pais e mãe enfrentam, ainda, uma carga maior de trabalho e precisam deixar os filhos ocupados e em lugar seguro.

A infância é passada por muitos entre muros. Além da escola, pequenos acabam cheios de atividades desde cedo, como aulas de balé, inglês e futebol. Se falta tempo para atividades lúdicas e ócio criativo, sobra excesso de informação. E problemas futuros, aponta a coordenadora de comunicação da organização não governamental IPA Brasil, Renata Proetti.

"A própria urbanização e a violência excessiva fazem com que os pais sintam a necessidade de proteger os filhos. Faltam espaços urbanos para as brincadeiras. E mesmo aquelas crianças que crescem em condomínios fechados perdem o direito de se aventurar na rua, que é onde a criança pode ter experiências lúdicas, aprender e testar limites. Crianças precisam cair, se ralar, se machucar. Mas, em vez disso, estão presas a um conteúdo didático carregado, onde os pais apostam no futuro promissor para os filhos a longo prazo. Eles viram pequenos adultos com rotina digna de altos executivos", observa Renata.

Risco para a saúde

Criada no Reino Unido em 1961, a IPA (sigla em inglês para Associação Internacional para o Brincar) tenta capacitar pais, mães, voluntários e educadores para resgatar a importância das brincadeiras livres num mundo cada vez mais globalizado. Presente em mais de 50 países, a organização se preocupa com os efeitos sociais, psíquicos, cognitivos e de saúde da nova geração que cresce entre quatro paredes.

New York City Jungen spielen Basketball auf einem Spielplatz

Adolescentes jogam basquete em Nova York: para pais, saída é buscar o equilíbrio entre proteção e liberdade

"Um efeito imediato que observamos nas crianças que não brincam livremente é físico. Essa criança se torna mais sedentária, se mexe pouco e desenvolve doenças precocemente, como obesidade, colesterol alto, estresse e ansiedade. Há ainda a erotização precoce, o amadurecimento precoce e o mergulho no consumismo. A longo prazo, os efeitos são mais preocupantes. A não socialização e não troca com o outro dificulta o desenvolvimento da empatia, da capacidade de se colocar no lugar do outro. Como a criança vai aprender isso sozinha, na tela de um computador?", indaga Renata.

Para os pais, a saída é buscar o equilíbrio. Desde os 8 anos de idade, Carolina tem uma rotina tão ocupada quanto a de um adulto. Acorda às 5h30, vai para a escola, tem aulas de balé todos os dias e três vezes por semana pratica tênis de mesa. Hoje, aos 14, estuda muito para concluir o ensino fundamental e, quando chega em casa, está esgotada. Às vezes, conta a mãe dela, Alessandra Pereira, a menina sequer troca a roupa: desmaia de cansaço na cama e sonha com tempo livre nas férias. E Alessandra já faz planos de encaixar, no próximo ano, aulas de inglês na apertada agenda da filha.

"Ainda não sei com que tempo! Mas não me preocupo. O desgaste dela é físico, nunca psicológico. Ela foi uma criança normal e é uma pré-adolescente feliz. Gosta muito do que faz e tem excelentes notas na escola, como combinamos, para que todas as atividades pudessem ser mantidas. A interação com as colegas do balé, a atividade física, a disciplina que a dança exige não causam problemas. Ela convive com outras crianças", conta a mãe.

Computador devem ser dosados

Tantas atividades, avalia a professora Rosália Duarte, sugerem que as crianças estão sendo mais bem tratadas e têm mais oportunidades. Mas é preciso ficar atento para a relação cada vez mais estreita dos pequenos com a tecnologia, de modo a impedir o isolamento e permitir a socialização.

Symbolbild Jugendlicher mit Smartphone

Pais não devem ceder à dependência de brinquedos e produtos tecnológicos, alertam especialistas

Os pais não devem ceder à dependência de brinquedos e produtos tecnológicos que acabam comprando para os filhos pelo marketing – e não pela consciência de que são, de fato, adequados ao desenvolvimento infantil. Smartphones, videogames e computadores, diz a especialista, devem ser aliados da educação, não responsáveis por ela.

"O grande risco é a brincadeira individualizada na frente da tela. É o mesmo debate surgido quando a TV invadiu 98% dos lares no Brasil, foi preciso dosar para que as crianças não passassem o dia em frente à tela. A solução é estabelecer limites para o uso das máquinas. Não há uma fórmula exata, de permitir uma ou duas horas por dia. Vale o bom senso. Se a criança precisa fazer o dever de casa no computador, ela pode terminar no tempo dela e, depois, usar a máquina para se divertir um pouco", afirma Rosália.

E completa:

"Esse tempo depende do que a criança estiver fazendo. A chave é diversificar as atividades. Ela precisa usar a máquina, fazer o dever, brincar com os irmãos e amiguinhos, ligar para os avós ou fazer outras atividades. Ela precisa se socializar."

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