″Se queremos paz, temos de negociar com as Farc″ | Notícias sobre a América Latina e as relações bilaterais | DW | 27.05.2008
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

América Latina

"Se queremos paz, temos de negociar com as Farc"

O parlamentar alemão de esquerda Wolfgang Gehrcke defendeu em entrevista à DW-WORLD.DE seus contatos com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Farc.

default

Wolfgang Gehrcke, deputado alemão de esquerda

As autoridades colombianas encontraram no laptop do líder guerrilheiro Raul Reyes provas de uma correspondência que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) mantiveram com a Alemanha. A revista Der Spiegel revelou na semana passada que o deputado Wolfgang Gehrcke, então membro do Partido do Socialismo Democrático e agora no A Esquerda, reuniu-se em 2005 com Ariel Robespierre Devia, conhecido como "Roberto", filho de Raúl Reyes.

DW-WORLD.DE: O senhor reconheceu ter mantido contatos com as Farc. Contra o diálogo há pouco a dizer, mas a pergunta é: sobre o que foi falado?

Wolfgang Gehrcke: "Reconhecer" é uma forma curiosa de expressar o fato... Falei no Parlamento alemão, mais de uma vez, sobre a necessidade de contribuir para que o processo de paz na Colômbia avance. E a paz só pode ser alcançada quando falamos com ambas as partes em conflito. Uma das partes em conflito são as Farc e, por conseguinte, temos de falar com as Farc.

E é isso o que o senhor fez?

Sim.

E falou com elas sobre o processo de paz?

Sim.

Em junho de 2007, o seu partido pediu no Parlamento alemão que as Farc fossem retiradas da lista de organizações consideradas terroristas pela União Européia. O senhor não considera as Farc um grupo terrorista?

Eu defendi esse pedido publicamente. O que eu disse pode ser lido, por isso não entendo o reboliço que está sendo feito agora em torno desta questão.

Kolumbien Demonstration

Manifestação pelos direitos humanos na Colômbia em março último

Naquele debate eu disse que, com base na minha experiência nos processos de paz como o de El Salvador e Guatemala − onde, na medida do possível, fui mediador −, a Colômbia também precisa de um processo de paz e que nesta questão o presidente Uribe não é a instância mais adequada. E, no meu pronunciamento, disse também que me alegraria se as Farc libertassem todos os seus reféns, porque você não pode seqüestrar ninguém por razões políticas.

Não são precisamente os reféns uma das razões para manter as Farc na lista?

Seguindo este princípio, o presidente da Guatemala também deveria estar na lista. E muitos outros presidentes e chefes de governo. E isso não teria ajudado os processos de paz nesses países.

O senhor acredita que na Colômbia esteja acontecendo uma guerra civil?

Sim, tem todos os sintomas. As pessoas matam-se umas às outras, há esquadrões da morte, com muitos indícios de envolvimento do próprio governo. Há duas organizações militares que travam uma guerra de guerrilhas, uma das quais são as Farc. O que é isso, se não uma guerra civil?

Mas em uma guerra civil a sociedade está dividida em duas frentes que se combatem mutuamente, e o que vemos na Colômbia é de um lado, em dois grupos armados envolvidos em atos de violência, as Farc e os paramilitares, e de outro o governo…

Raul Reyes

Raúl Reyes, morto pelo Exército colombiano em terras equatorianas

Para que fique claro: os atos do governo Uribe contra uma grande parte da população têm todas as características do modo de operar dos terroristas. E a recente operação militar no Equador violou o direito internacional e, na realidade, seria motivo suficiente para iniciar um processo perante o Tribunal Penal Internacional, pois não se pode simplesmente sair matando e bombardeando pessoas em outro país. Por outro lado, há grupos armados que promovem guerra de guerrilha, e a sociedade colombiana está muita dividida, isso ninguém pode negar.

E, no entanto, os colombianos que saíram em massa às ruas há poucos meses levavam cartazes com os slogans "o povo da Colômbia não apóia as Farc" e "estamos fartos das Farc"…

Eu não sei para quem você está fazendo esta entrevista, mas essa percepção que tem das coisas é um pouco estranha. Uma parte da população colombiana carece de meios para poder articular-se. Pergunte ao Pólo Democrático. A imagem que eles passam da Colômbia é completamente diferente.

Eu não poria a mão no fogo pelo que o governo Uribe faz chegar à opinião pública. Leio muito atentamente os relatórios das organizações de direitos humanos, e a Colômbia e o governo colombiano estão entre os que mais críticas recebem.

O senhor acha que o povo da Colômbia apóia as Farc?

Não, eu nunca disse isso. Não entendo o que significa esta pergunta.

É apenas uma pergunta…

Mas esta não é a questão. A questão é como acabar com a guerra civil na Colômbia, a única guerra civil ainda em andamento na América Latina.

E como se pode acabar com ela sem contar com o governo?

É preciso negociar. E o governo colombiano, se este governo se mantiver, em algum momento terá de entender que a negociação faz parte de todo processo de paz e que e preciso criar condições para que se possa negociar.

Eu não entendo o que há de errado com um político de esquerda que pediu à guerrilha para libertar os reféns: isso contribui para o processo de paz.

É precisamente esse o problema: a guerrilha mantém entre 700 e mil reféns (não se sabe a quantidade exata) e se financia com o narcotráfico. Não é compreensível que seja difícil a um governo negociar em tais condições?

Se queremos paz, temos de negociar. A única alternativa é matar pessoas, e isso atenta contra os direitos humanos.

O que o senhor acha que vai acontecer depois dos recentes golpes contra as Farc: a morte de Manuel Marulanda e Raúl Reyes, a desmobilização de "Karina"…? Será aberto o caminho para a paz?

Eu espero que sim. Mas isso não depende só das Farc, certamente depende delas em menor grau.

Isso depende da política do governo. Que concorde com as negociações, que esteja disposto a garantir a observância dos direitos fundamentais e que se acabe com os esquadrões da morte. Essas são condições importantes. Um país com esquadrões da morte não tem lugar no contexto internacional.

O senhor acredita em Uribe quando ele afirma, como fez agora, que está disposto a deixar em liberdade os guerrilheiros que optarem pela desmobilização?

Eu preferiria ver fatos. O governo deveria perguntar-se se não deveria libertar também alguns presos.

Leia mais