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Alemanha

Sangue frio e autoconfiança

Nos últimos 18 meses, mais de 740 imigrantes ilegais morreram ao tentar entrar na União Européia. Fim trágico de quem sonhava com uma vida melhor. Entrevista com brasileira revela como clandestinos vivem na Alemanha.

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Em busca da realização de um sonho

As dificuldades não cessam para os clandestinos que conseguem transpor a fronteira de uma nação da União Européia. A privação factual de direitos traz problemas enormes para essas pessoas. "É mais difícil viver sem direitos que viver numa cela. Um preso sabe que está lá porque fez alguma coisa e que vai sair porque tem alguém que defende seus direitos, um advogado", constata a brasileira Cíntia F. em entrevista exclusiva à DW-WORLD sobre suas experiências no período em que esteve clandestina na Alemanha.

Todo contato pessoal, qualquer compra no supermercado, a viagem no metrô, tudo é perigoso. "Viver normalmente é difícil quando se está ilegal, mas tem que ter sangue frio, acreditar em si e não procurar besteira com ninguém", descreve a carioca de 26 anos. Ser descoberto significa ser preso por até 18 meses, até a deportação certa. Ao contrário do que muitos pensam, o medo da deportação faz com que os ilegais observem muito bem as leis.

Aluguel e plano de saúde

Ela veio legalmente à Alemanha para ser babá. Problemas de relacionamento com a família que a havia contratado, entretanto, fizeram com que procurasse um apartamento e se sustentasse com trabalhos de limpeza, enquanto aguardava os trâmites para conseguir o passaporte portugês. Como cidadã de um país da União Européia, ela poderia morar legalmente na Alemanha.

"Desde que tivesse dinheiro para pagar o aluguel, não haveria problemas com o locatário. Por outro lado, imagine o que é viver com medo de sofrer um acidente de bicicleta, pois não tinha plano de saúde", conta a brasileira que viveu nove meses ilegal na Alemanha.

Os clandestinos estão sujeitos a graves problemas de saúde, não só porque a negligenciam, mas também pelas condições próprias em que vivem, conta o pesquisador Philip Anderson. Pela sua condição, eles se tornam objeto fácil de criminosos.

Exploração pelo empregador, falta de proteção no ambiente de trabalho, desrespeito absoluto dos direitos e a falta de pagamento: problemas aos quais os clandestinos são expostos diariamente. Mesmo assim, o rico mercado de trabalho europeu ocidental continua um forte fator de atração. Num recente controle feito no setor de gastronomia do Estado da Renânia do Norte-Vestfália, 50% da mão-de-obra estrangeira não possuía permissão de trabalho. Quatro por cento foram detidos sob suspeita de não terem visto de permanência no país.

Bicos como babá e faxineira

O maior "mercado de trabalho" para os clandestinos são os serviços domésticos (como em trabalhos de faxina ou jardinagem, cuidado de crianças, auxílio a doentes ou idosos) ou ainda na construção civil.

Para quem os contrata, as vantagens são óbvias: a economia. Não é raro as mulheres serem exploradas na prostituição. Como foi oferecido a Cíntia: "Preferi ficar nos serviços de faxina. É muito triste ver pessoas que não tinham como ficar aqui. Não tinham esperança nenhuma, nem dinheiro para retornar ao Brasil".

A brasileira teve sorte. Enquanto muitos passam vários anos na ilegalidadde, ela o ficou apenas por nove meses, até obter seu passaporte português. A quantidade de pessoas em situação irregular na Alemanha é "muito difícil de ser estimada", constata o último relatório da encarregada do governo alemão para assuntos de migração.

Peritos, entretanto, calculam que este número seja de 500 mil a 1,5 milhão de pessoas na Alemanha, fazendo jus ao título de país de principal alvo de imigrantes na Europa Ocidental.

Problema está avançando

Por outro lado, uma legislação mais rigorosa para coibir a imigração ilegal aumentaria o poder dos bandos de tráfico humano. Pronunciando-se sobre o problema, a Conferência Alemã dos Bispos observou que a clandestinidade é um fenômeno observado sobremaneira nas metrópoles européias, mas também está se expandindo nas cidades de porte médio.

A solução seria ajudar os atingidos a retornarem às pátrias, sugere Anderson. "Mas para os que vivem às margens da legalidade há vários anos e já conseguiram montar uma base para a sobrevivência na Alemanha, deveria ser criada uma estratégia que os legalizasse", defende o pesquisador.

Enquanto persistir a insegurança política e econômica nos países de origem destas pessoas, associada à procura por trabalhadores ilegais no mercado de trabalho na sociedade ocidental, o fenômeno da ilegalidade continuará existindo.

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