Rowohlt: uma editora entre o ″cult″ e o cânon | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 08.04.2008
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Cultura

Rowohlt: uma editora entre o "cult" e o cânon

O percurso da Rowohlt, em seus cem anos de existência, espelha a acidentada história da Alemanha no século 20. Além de arriscar a publicação de autores e movimentos novos, a editora ajudou a formar hábitos de leitura.

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Editora faz cem anos em 2008

"Os autores da Rowohlt bebem e fumam", descreveu o escritor Erich Kästner, certa vez, o comportamento associado a essa "marca" de livros. Já Ernst Rowohlt, que fundou a editora em 1908, quando ainda era um jovem livreiro, a definia como uma "arena para espíritos livres".

De fato, a Rowohlt, um dos principais selos do mercado editorial alemão, sempre arriscou publicar coisas novas e divulgar uma produção literária muitas vezes efêmera, o que lhe custou o rótulo de "modista".

Por outro lado, essa também foi a editora de clássicos da língua alemã, como Franz Kafka, Georg Heym, Robert Musil, Kurt Tucholsky, Walter Jens e Arno Schmidt, e de expoentes da literatura estrangeira, como Vladimir Nabokov, Albert Camus, Jean-Paul Sartre, Ernest Hemingway, além de incluir em seu programa prêmios Nobel da literatura, como Sinclair Lewis e Elfriede Jelinek.

A mistura de leveza e qualidade literária, cult e cânon foi o que garantiu a essa editora um espaço singular entre o público leitor alemão.

Americanista ou bolchevista?

A Rowohlt teve três fundações: em Leipzig em 1908; em Berlim em 1919; e em 1946, durante a ocupação da Alemanha pelos Aliados, com licença norte-americana em Stuttgart e com licença inglesa em Hamburgo. Em decorrência de seu engajamento e de sua forte ligação com o momento literário do país, a editora teve uma trajetória que reflete com nitidez a acidentada história alemã no século 20.

O primeiro livro publicado por Ernst Rowohlt, em 1908, foi um volume de poemas de um amigo de escola, numa tiragem de 300 exemplares. O fracasso de vendas não desencorajou, no entanto, o jovem editor que acabara de completar sua profissionalização como bancário.

Rororo Logo

Logotipo 'rororo'

Com faro para novos autores, Ernst Rowohlt não levou muito tempo para conquistar prestígio junto ao público leitor alemão. Desde cedo, sua editora chamava atenção pelo ecletismo do programa, que incluía Honoré de Balzac, Giacomo Casanova, ao lado de Ernest Hemingway, Kurt Tucholsky, Joachim Ringelnatz, entre outras publicações variadas, como livros de dieta vindos dos Estados Unidos.

Mesmo tendo sido rotulada como uma editora americanista já na década de 20, a Rowohlt acabou sendo condenada pelos nazistas como bolchevista. Com o estabelecimento da ditadura de Hitler, a editora teve metade de sua produção confiscada, incinerada e proibida.

Por ter se recusado a despedir seus editores judeus, Ernst Rowohlt foi obrigado a fechar a editora em 1938 e emigrar temporariamente para o Brasil.

Livro em formato de jornal, com propaganda

Em novembro de 1945, o filho mais velho de Ernst, Heinrich Maria Ledig Rowohlt, recebeu a licença norte-americana para reabrir a editora em Stuttgart. Como todas as editoras alemãs, a Rowohlt também teve que enfrentar a falta de papel nos primeiros anos do pós-guerra.

Ernest Hemingway

Rowohlt divulgou obra de Ernest Hemingway na Alemanha

Com o lema "o maior número de letras com menos papel e menos dinheiro possível", o novo editor teve a idéia de publicar romances em formato de jornal a partir de 1946. A idéia importada dos Estados Unidos culminaria na coleção "rororo" ( Rowohlts Rotations-Romane, Romances de Rotação da Rowohlt), que acabou se tornando uma marca cult da editora, mesmo após a coleção ter retornado ao formato de livro.

A reforma monetária de 1948 marca o começo do fim dos "romances de rotação", pois os leitores passaram a não querer mais soluções de emergência. Numa viagem a Nova York, Heinrich veria de perto a produção de livros em massa, algo que o levou a introduzir o livro em pequeno formato.

Por fim, a "rororo" se tornaria sinônimo de livros de bolso na Alemanha. A popularidade de certos autores no país seria impensável sem essa coleção. Outra ousadia da Rowohlt foi introduzir propaganda de cigarro nos livros, uma medida que rendeu críticas, mas não dissuadiu o editor de lançar mão da mesma espécie de merchandising usada pela imprensa.

Best-sellers e ecletismo cultural

Com Deuses, Túmulos e Sábios, um romance de teor arqueológico escrito pelo editor-chefe Kurt Marek sob o pseudônimo de C.W. Ceram, a editora lançou seu primeiro best-seller, a ser sucedido por outros.

Atualmente, a editora sediada em Reinbek, nas imediações de Hamburgo, com uma filial em Berlim, publica em média 500 livros de bolso e 100 volumes de capa dura por ano.

O amplo repertório dessa editora inclui diversos autores de língua portuguesa. Além do Nobel da Literatura José Saramago, a Rowohlt publicou alguns nomes da literatura brasileira, como Clarice Lispector, Jorge Amado, Paulo Freire, Antonio Callado, Marcelo Rubens Paiva, entre outros.

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