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Cultura

Romances com eco de guerra

Fuga, desterro, violência e medo — experiências inevitavelmente ligadas a uma guerra, que povoam vários romances recém lançados no mercado editorial da Alemanha.

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"Os Imperfeitos", de Reinhard Jirgl

Uma guerra que se desenrola praticamente dentro de nossas salas de estar, nas telas dos televisores e com feitio de videogame, absorve nossas atenções nestes dias. Ecos de uma guerra distante ocupam o espírito de escritores alemães e refletem-se em páginas e páginas de inúmeros romances lançados recentemente no mercado editorial do país. "A herança do passado não deixa os escritores alemães em paz", constata a revista Der Spiegel em artigo que apresenta e comenta algumas dessas obras.

Do presente ao passado...

Ora é um acontecimento no presente que dispara o mergulho no passado da família, como acontece em Himmelskörper (Corpos Celestes, ed. Aufbau-Verlag), romance de Tanja Dückers. Ao arrumar com sua mãe as coisas da avó, recentemente falecida, a heroína Freia depara-se com fotografias da era nazista e, pela primeira vez na vida, com um exemplar de Minha Luta. O livro escrito por Adolf Hitler era obrigatório em todas as casas na época. O achado serve de ensejo para uma busca que faz ressurgir as experiências de guerra dos avós, a fuga com a mãe, então ainda garota, e leva Freia até a Polônia, cujos territórios eram em parte alemães antes do conflito mundial.

"Nós somos a primeira geração que não está mais ligada diretamente ou por meio dos pais com a guerra e o exílio", diz Tanja Dückers, de 34 anos, tentando explicar a coincidência de livros que tratam — ainda que com recursos estilísticos os mais diferentes — do mesmo tema.

... ou vice-versa

O autor Reinhard Jirgl escolhe um caminho inverso e faz seu romance Die Unvollendeten (Os Imperfeitos, ed. Carl Hanser) começar nos fins do verão de 1945, na região dos Sudetos, hoje pertencente à República Tcheca. A história da expulsão violenta dos alemães é revivida e perpassa três gerações de mulheres de uma mesma família para desembocar no presente.

Sudetendeutsche werden aus Tschechoslowakei vertrieben

Expulsão dos alemães ods Sudetos em 1938

"Essa temática do desterro sempre esteve presente nos meus livros, quando se tratava da origem de alguém. Afinal, a gente deve escrever sobre aquilo que melhor conhece", diz Jirgl, de 50 anos, cuja mãe é originária dos Sudetos. Todos esses livros, aliás, contêm elementos autobiográficos entremeados em sua tessitura.

Pelos continentes afora

A ligação profunda com a Alemanha e sua história transparece também nas narrativas de avô, pai e filho em Ein unsichtbares Land (Um País Invisível, ed. Fischer), de Stephan Wackwitz. O autor de 51 anos faz os três contarem suas vivências no século 20, sendo que o avô está distante geograficamente — vive na África — mas ligado aos demais por esse elo que une as gerações.

O quarto romance que aborda a temática é Die Reise nach Samosch (A Viagem para Samosch, Editora Ars Vivendi), de Michael Zeller, que percorre igualmente a história de três gerações, a partir do Leste, em sua emigração para o exterior até o reencontro no presente.

Trauma de duas gerações

Regiões relegadas ao esquecimento voltam a ter espaço na geografia dos alemães de hoje, experiências recalcadas emergem e são evocadas pela geração dos netos. Ainda que "a incompreensão com respeito às atrocidades do regime nazista e de seus correligionários aumente, ao contrário de diminuir", como expressa Tanja Dückers, a nova geração já pode falar do sofrimento imposto a grande parte dos alemães de então, obrigados a fugir, a deixar tudo para trás. Falar disso antes era tabu: a geração dos que viveram o nazismo era composta toda por "culpados", no julgamento de seus sucessores.

Os autores que se dedicam ao tema têm um modelo proeminente: Günter Grass, que lançou em 2002 Passo de Caranguejo (Im Krebsgang), novela que tem por tema o episódio do naufrágio do navio Wilhelm Gustloff no Mar Báltico, tragédia em que morreram milhares de civis, especialmente mulheres e crianças, que fugiam do Exército Vermelho.

Duas gerações após o encerramento do capítulo iniciado pela ascensão dos nazistas ao poder, começa para os alemães uma nova fase da difícil e dolorosa elaboração do passado de seu país.

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