Restauradores lutam para salvar os tesouros de Veneza das marés | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 26.08.2011
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Mundo

Restauradores lutam para salvar os tesouros de Veneza das marés

Os prédios históricos e a arte de Veneza impressionam milhões de turistas a cada ano. Mas séculos depois de as primeiras estacas terem sido fincadas na laguna, a cidade e a famosa Basílica de São Marcos estão ruindo.

A milenar Basílica de São Marcos atrai milhões de turistas

A milenar Basílica de São Marcos atrai milhões de turistas

Estima-se que 20 milhões de pessoas visitem Veneza a cada ano. Os restauradores alertam para o fato de que esse grande volume de turistas, aliado à subida do nível das marés na Laguna de Veneza, esteja ameaçando a localidade italiana como nunca.

Mas os moradores da cidade carinhosamente apelidada de Serenissima recusam-se a desistir sem antes lutar para salvá-la. Além de grandes projetos de engenharia, restauradores trabalham incansavelmente para preservar os tesouros venezianos e devolver-lhes seu esplendor original.

Na Basílica de São Marcos os trabalhos de restauração tiveram início há décadas. A principal igreja da cidade foi construída há cerca de mil anos, no local que antes abrigava outra igreja, construída no século 9º.

No período em que Veneza dominava as trocas entre Ocidente e Oriente, as cerimônias de coroação de seus governantes eram realizadas na basílica. Agora, o monumento símbolo de uma outrora poderosa cidade-Estado está em decadência.

O resgate dos mosaicos

Interior da Basílica, decorada com mosaicos em ouro e pedras preciosas

Interior da Basílica, decorada com mosaicos em ouro e pedras preciosas

"O principal inimigo da basílica é a água", diz Ettore Vio, arquiteto responsável pela restauração de San Marco. "A maré alta – chamada de acqua alta pelos venezianos – invade o átrio 200 vezes por ano, mesmo que apenas um pouco. As pedras ficam cobertas de água."

O efeito sobre os principais elementos decorativas da basílica – os mosaicos – é devastador. Oito mil metros quadrados de mosaicos, compostos por ouro e outras pedras preciosas, cobrem os tetos, as paredes e a fachada de San Marco. Eles datam dos séculos 11 ao 13 e retratam cenas do Velho e do Novo Testamento e eventos da vida de santos cristãos.

"A água que encharca a construção é salgada", explica Vio. "O sal aumenta de volume quando cristaliza e quebra o tijolo quando se expande dentro dele. Então, pequenos pedaços de tijolo caem o tempo todo. Se há um mosaico sobre o tijolo, o mosaico cai também", completa. O arquiteto coordena uma equipe de 20 restauradores – incluindo seis especialistas em mosaico – para enfrentar os estragos causados pela água salgada e pelo tempo.

Em uma oficina atrás da basílica, os trabalhadores debruçam-se sobre pequenos cubos de pedra, também chamados de tésseras, que compõem os mosaicos. Cada uma das peças é cuidadosamente disposta sobre um pedaço de tecido, reproduzindo a maneira como estavam colocadas na igreja. Algumas das tésseras têm cerca de mil anos de idade e todo esforço é válido para preservá-las. Somente poucas delas são substituídas.

"O trabalho tem que ser feito da maneira menos intrusiva possível", diz Vio. "Os mosaicos não devem ser alterados. É preciso respeitar a antiguidade de cada mínima peça."

A 'acqua alta' invade a basílica periodicamente, degradando seus mosaicos

A 'acqua alta' invade a basílica periodicamente, degradando seus mosaicos

Para retornar a seu estado original, cada metro quadrado de mosaico exige que dois artesãos se empenhem durante um ano. "Levamos sete anos para restaurar o batistério, reforçando-o e limpando-o", diz um dos artesãos. "Estamos trabalhando nesse pavimento há mais de cinco anos, provavelmente sete. Não se pode ter pressa."

Durante as três décadas de dedicação de Vio à basílica, sua equipe restaurou diversas cúpulas e capelas. Aos 76, o arquiteto diz que a tarefa mais difícil foi recuperar a cripta sob o altar, que um dia abrigou os restos mortais de São Marcos, o padroeiro de Veneza.

"Injetamos resina nas paredes para fechar todos os buracos através dos quais a água conseguia passar e, então, consertamos as pedras", explica Vio. "A maré avançava para dentro da cripta. Agora, depois de dez anos de trabalho, a água não entra mais."

Cidade das águas

Em 2010, Veneza registrou pior enchente em cem anos

Em 2010, Veneza registrou pior enchente em cem anos

Restaurar Veneza é um trabalho interminável. É preciso lutar contra o tempo e contra as marés. Estima-se que a cidade tenha perdido 23 centímetros de terra durante os últimos cem anos. A acqua alta inunda hoje as partes mais antigas e mais baixas da cidade – entre elas a Praça de São Marcos – com mais frequência do que nunca.

O Centro de Monitoramento de Marés de Veneza registra os níveis da água, realiza previsões e fornece alertas sobre marés excepcionalmente altas. O diretor Paolo Canestrelli conta que 2010 foi o pior dos últimos cem anos.

"A acqua alta inundou a Praça de São Marcos mais de 200 vezes", diz. Segundo Canestrelli, em 2010, a água alcançou um nível de 110 centímetros 16 vezes, invadindo boa parte da cidade. Outras duas vezes a maré chegou a 140 centímetros de altura, inundando toda a Serenissima.

Desde que Veneza começou a monitorar oficialmente as marés no início do século 20, a água alcançou uma altura de mais de 110 centímetros três ou quatro vezes por ano, em média.

"Esses dois últimos anos foram marcados por níveis mais baixos de pressão atmosférica em praticamente toda a Europa", explica Canestrelli. "Baixa pressão produz uma expansão dos mares e um aumento do nível médio do mar."

Embora 2011 tenha sido melhor até o momento, Canestrelli afirma que o nível do mar continua subindo e que a cidade segue desprotegida. As comportas em construção nas bordas da laguna não ficarão prontas antes de 2015 e muitos questionam se os portões serão realmente eficientes para conter as marés.

Autor: Jean Di Marino (lpf)
Revisão: Carlos Albuquerque

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