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Mundo

República Centro-Africana enfrenta crise humanitária após massacres

Violências interreligiosas causaram pelo menos 400 mortes na semana passada. ONU aprovou intervenção militar com iniciativa francesa, mas críticos dizem que esforços não bastam para estabilizar o país.

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Tropas armadas tentam trazer paz à República Centro-Africana

Bangui, capital da República Centro-Africana, amanheceu ameaçada por uma crise humanitária nesta quinta-feira (12/12), uma semana depois de violências interreligiosas que causaram a morte de pelo menos 400 pessoas somente em Bangui, segundo a Cruz Vermelha. As violências, durante as quais algumas pessoas teriam sido esfaqueadas até a morte, deslocaram dezenas de milhares de habitantes, agora refugiados perto da base militar francesa no país ou em quartéis.

A queda na tensão na República Centro-Africana teve início na noite de quarta e se confirmava nesta quinta-feira. Porém, fontes de organizações humanitárias contam cerca de 45 mil refugiados apenas no aeroporto da capital Bangui, que fica na fronteira com a República Democrática do Congo (RDC). O objetivo dos deslocados é buscar proteção junto às tropas francesas enviadas ao país.

Na semana passada, as Nações Unidas aprovaram o lançamento de uma nova operação militar na República Centro-Africana pela França para apoiar os militares africanos já presentes no país, com o objetivo de restabelecer a segurança após a destituição, em março passado, do presidente François Bozizé pela coalizão rebelde Séléka liderada por Michel Djotodia, o atual chefe de Estado.

Operação militar internacional

Desde o aval do Conselho de Segurança da ONU, a França enviou centenas de militares ao Estado africano em crise, e a União Africana (UA) deverá aumentar a sua tropa de paz de 2.500 para 6 mil soldados em breve.

O Exército francês já iniciou o desarmamento de milícias na capital, Bangui. Segundo o chefe do Estado Maior das Forças Armadas em Paris, a operação começou "muito bem".

Porém, os militares franceses já sofreram um revés com a morte de dois paraquedistas na madrugada de terça-feira (10/12) durante combates em Bangui. Durante visita a tropas de seu país na capital centro-africana, o presidente francês François Hollande curvou-se diante dos caixões dos soldados, afirmando que a missão no país africano é "perigosa, mas necessária para evitar um banho de sangue".

"Já era de se esperar que haveria resistência contra o desarmamento", diz Thierry Vircoulon, diretor da ONG International Crisis Group na República Centro-Africana. "Os rebeldes nunca disseram que estariam dispostos a baixar as armas." O governo de transição da República Centro-Africana já havia tentado convencê-los por vários meses, mas não obteve sucesso. Desde então, também já houve relatos de que muçulmanos desarmados foram linchados por membros de milícias cristãs em plena luz do dia.

Segundo observadores, a pacificação da República Centro-Africana deverá ser um processo mais difícil do que o imaginado pelo governo francês, mesmo com a presença das forças internacionais. Anteriormente, o ministro da defesa francês, Jean-Yves Le Drian, anunciara uma "breve intervenção" para que o país africano voltasse à paz e à estabilidade.

Um presidente sem poderes

Michel Djotodia

Michel Djotodia perdeu sua influência com os rebeldes

Enquanto isso, o presidente da República Centro-Africana, Michel Djotodia, parece estar paralisado diante das atrocidades em seu país. Atualmente, ele não tem mais influência nem mesmo sob grupo rebelde Séléka, que o ajudou a chegar ao poder em março. Muitos destes rebeldes são de países vizinhos, como o Chade e o Sudão. Eles controlam grandes áreas da República Centro-Africana e não admitem receber ordens de ninguém.

Mesmo Djotodia acolhendo a intervenção da comunidade internacional para dar apoio ao seu exército, as tropas da União Africana e da França não têm muitas esperanças de contar com o apoio de soldados do governo de Bangui. "O exército nacional está em péssimas condições – é praticamente inexistente. Para piorar a situação, dentro das Forças Armadas, ainda há aqueles que colaboram com os rebeldes da Séléka", diz Jean-Claude Allard, diretor de pesquisas no Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas em Paris. Segundo ele, será extremamente difícil garantir a segurança só com as atuais tropas internacionais.

Estabilidade, mas sem normalização

"Alguns milhares de soldados da União Africana e da França não são suficientes para garantir a paz, tornar possível a ajuda humanitária e ainda encaminhar uma solução política", diz Lewis Mudge, especialista em assuntos relacionados à África da organização de direitos humanos Human Rights Watch.

Mudge acrescenta que é preciso, primeiro, resolver os problemas na raiz da revolta da Séléka: a rebelião que culminou com o golpe de Estado contra Bozizé teve como pano de fundo a negligência da população muçulmana no nordeste do país pelo governo. "Membros da Séléka me disseram que, antes de chegarem a Bangui, eles nunca tinham visto uma estrada de asfalto. É preciso que todas as regiões sejam urgentemente incluídas no programa de desenvolvimento do país", exorta o especialista.

Französische Truppen patrouillieren in Zentralafrikanischer Republik 8.12.13

Tropas francesas patrulham a República Centro-Africana

Mas, no momento, o desenvolvimento parece ser um sonho longínquo para a maior parte das áreas do país. O acesso por muitas estradas não é mais possível, o que levou o importante comércio com o país vizinho Camarões a um impasse. Organizações de ajuda humanitária estimam que meio milhão de pessoas já fugiram de suas aldeias de origem, e cerca de um milhão de cidadãos centro-africanos já não são mais capazes de satisfazer suas necessidades básicas de nutrição.

Após as mortes da semana passada, analistas avaliam que, mesmo se as forças internacionais conseguirem levar estabilidade para a República Centro-Africana, ainda haverá um longo caminho até que a normalização da situação.

Religião complica mais a situação

Konflikt zwischen Christen und Muslimen in Zentralafrikanischer Republik 9.12.2013

O conflito entre muçulmanos e cristãos se agrava

Faz mais de um ano que começou uma nova onda de violências na República Centro-Africana. A coalizão rebelde Séléka conquistou grandes partes do país e, em março, avançou rumo à capital Bangui. O ex-presidente François Bozizé fugiu.

Em setembro, o autodeclarado presidente Michel Djotodia dissolveu oficialmente a aliança com os rebeldes, mas ex-combatentes da Séléka continuam cometendo atos de violência contra a população civil. Em resposta, formaram-se grupos locais de autodefesa, chamados de Anti-Balaka . Muitos deles estão cooperando com os seguidores do presidente deposto Bozizé.

Ao conflito político, adiciona-se também o fator religioso: os rebeldes da Séléka são muçulmanos, assim como cerca de 15% da população do país. Os grupos Anti-Balaka não diferenciam os rebeldes da Séléka do restante dos muçulmanos, matando civis e queimando aldeias. Até agora, cristãos e muçulmanos viviam em relativa paz na República Centro-Africana, mas a população acabou forçada a tomar o partido do respectivo grupo religioso em busca de proteção.

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