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Mundo

Repórter da Deutsche Welle visita Guantánamo

Stephan Bachenheimer narra aqui o que vivenciou nos três dias de filmagem para a DW-TV na temida prisão da base naval norte-americana em Cuba.

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Presos cooperativos podem usar branco em vez de laranja

Os militares norte-americanos aprovaram nosso pedido de visita e concederam licença para filmar durante três dias, com regras muito claras: podemos filmar, mas os militares reservam-se o direito de conferir todo o material gravado e censurar por motivos de segurança.

Quando aterrissei em Cuba, uma escolta militar já estava à minha espera. Desde aquele momento, da manhã à noite, eu estaria sob custódia dos soldados do departamento de Relações Públicas. Ficaria sob observação permanente até o momento em que embarcar de volta à Alemanha.

Pequena cidade americana em Cuba

Meu alojamento foi uma generosa "casa de hóspedes" numa rua que mais parece um bairro residencial em alguma cidade dos Estados Unidos – aliás, não considerando a prisão de Guantánamo, a base naval mais parece uma pequena cidade norte-americana. No rádio, é quase impossível captar uma emissora cubana. Em compensação, tenho acesso a 42 emissoras norte-americanas na tevê a cabo.

Guantanamo Camp Delta Eingang

A entrada para Camp Delta

Antes da visita ao campo de prisioneiros, me são apresentados vários dados e fatos. Entre as curiosidades que me contam de Guantánamo, consta que 16% dos detentos são de grande importância para os serviços secretos e estão em celas de segurança máxima numa prisão especial. Seis a oito por cento dos prisioneiros estão em tratamento por causa de problemas psicológicos. Alguns tentam fabricar armas. Já foi encontrada uma corda feita com restos de embalagens de comida.

A censura sempre presente

Entre as histórias de Guantánamo está a dos chineses, presos sob suspeita de terrorismo. Como eles não representam perigo para os Estados Unidos, os norte-americanos agora não sabem como se livrar deles, já que fazem parte de uma minoria separatista perseguida por Pequim. O governo chinês faria picadinho deles, revela minha escolta.

Minha conversa com os carcereiros acontece no Club Survivor, que fica ao lado do campo de prisioneiros. O café é da rede Starbuck. Os guardas me contam que costumam ser alvo de excrementos ou urina – que chamam de "coquetel" – jogados pelos presos. A respeito de torturas ou maus-tratos de prisioneiros, ninguém sabe de nada. Aliás, é proibido falar com os detentos e mesmo a comunicação com os carcereiros acontece sob a vigilância constante de alguém da segurança. Observo que, ao responder minhas perguntas, o olhar do guarda migra constantemente para a vigilância da censura, como se buscasse aprovação para suas afirmações.

Cinco prisões de alta segurança

Guantanamo Kleider auf Bank

Uniforme básico dos prisioneiros em Camp Delta

Pude visitar por duas vezes Camp Delta, onde ficam as prisões de alta segurança de Guantánamo. Ele é constituído de cinco cárceres, três dos quais pude visitar. Há um prédio de concreto e ferro para os detentos considerados mais valiosos pelo serviço secreto; duas prisões abertas, para presos considerados cooperativos, e dois cárceres onde as regras são mais rígidas, onde estão os que dão mais trabalho para os carcereiros.

Tenho contato visual com os presos que caminham num pátio por trás de cercas. Alguns se escondem da câmera, outros ficam me observando, mas ninguém gesticula ou me diz alguma coisa.

As áreas dos cárceres que me são mostradas se parecem com as prisões nos Estados Unidos. Tenho acesso inclusive às cozinhas e aos depósitos de provisões, para me convencer do alto nível de abastecimento de Guantánamo.

"Por que", perguntam-se os soldados, "a imprensa tenta manipular a imagem de Guantánamo? Por que sempre são mostradas na tevê as imagens de prisioneiros de Camp X-Ray, onde as condições eram catastróficas? Foi o primeiro campo que foi fechado e agora as plantas tomaram conta dele".

Guantanamo Camp Delta Isolationszellen

Corredor com as celas de segurança máxima

Um soldado cuja família mora na Alemanha conta que várias vezes teve de prometer à filha ao telefone que não há torturas em Guantánamo. Mesmo assim, a menina sente-se perseguida na escola, porque seu pai trabalha em Guantánamo, reclama o soldado norte-americano.

Julgamento grotesco

Na minha segunda visita a Camp Delta, assisto ao julgamento de um talibã. Um funcionário do Pentágono me conta que a principal acusação é que o réu foi ministro do Comércio do antigo regime afegão e que teria participado do assassinato de um equatoriano, funcionário da Cruz Vermelha. Posso sentar-me a uma mesa na sala do julgamento e tenho de assinar um papel me comprometendo a não cruzar as pernas, o que no mundo islâmico é considerado uma afronta.

Além do réu e seu intérprete, estão na sala três oficiais que dirigem o julgamento e três militares, responsáveis pelas formalidades. "O senhor pode depor sob juramento, se quiser. Já preparamos um juramento islâmico. Repita comigo: em nome de Alá..." O pseudojulgamento decidirá se o réu permanece preso ou não. Não há nenhum advogado. A maioria das acusações permanece secreta. E os critérios dos oficiais no procedimento também são uma incógnita.

" Por que então o senhor está aqui ?"

O prisioneiro barbudo, vestindo uma longa túnica branca e bege, fala com educada discrição: "Já sou velho e fraco, estou aqui há três anos, isto já é o bastante pelo fato de eu ter sido ministro do Comércio dos talibãs". "No ano de 2003, mulá Omar [líder talibã] e Osama Bin Laden resolveram unir forças", recebe como resposta. O réu defende-se: "Não tenho nada a ver com isso, s ir . Eu já estava preso. Vocês me deram esta informação".

"Mas por que o senhor está aqui?", pergunta um oficial. "Os americanos jogaram uma pedra às cegas e me acertaram", conta o acusado, com um sorriso discreto para o oficial já meio sem jeito.

Pouco antes de partir, ainda faço algumas filmagens de Camp Delta. Várias ambulâncias entram no campo. Já estou de volta a Washington, quando o Pentágono noticia que o número de detentos em greve de fome aumentou para 84.

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