Relatório detalha papel da Alemanha no genocídio armênio | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 06.04.2018
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Mundo

Relatório detalha papel da Alemanha no genocídio armênio

Império Alemão forneceu armas e consultoria militar para ajudar o Império Otomano na perseguição ao povo armênio. Segundo estudo, oficiais prussianos também estabeleceram "fundamentos ideológicos" para o massacre.

genocídio armênio

Suspeitos de conluio com Moscou, armênios foram perseguidos e assassinados pelo Império Otomano

Para o genocídio armênio de 1915 e 1916, forças turcas do Império Otomano usaram principalmente armas fornecida pelo Império Alemão, afirma um novo estudo. Além disso, segundo o relatório, militares prussianos também ajudaram a estabelecer as bases ideológicas usadas na tentativa de extermínio do povo armênio.

A Mauser, principal fabricante alemã de armas de pequeno porte nas duas Guerras Mundiais, forneceu ao Império Otomano milhões de fuzis e revólveres – usados no genocídio com o apoio ativo de militares alemães. Historiadores estimam que entre um e 1,5 milhão de armênios foram mortos na perseguição que durou dois anos.

"Os oficiais alemães que serviram ao corpo militar turco-otomano ajudaram ativamente na execução de assassinatos individuais", segundo o relatório da campanha contra exportação de armas Global Net — Stop the Arms Trade (GN-STAT).

"A maioria dos agressores estava armada com fuzis ou carabinas Mauser, os oficiais, com pistolas Mauser." Muitos militares alemães testemunharam e escreveram sobre os massacres em cartas enviadas a suas famílias.

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O relatório representa o primeiro "caso" pesquisado pela GN-STAT, uma nova rede mundial multilíngue de mais de cem organizações, além de fornecer um banco de dados para ativistas, delatores, jornalistas, artistas e outros interessados no tema de exportação de armas.

A rede já está preparando novos estudos – um sobre o acordo ilegal de vendas de fuzis G36 selado pela Heckler & Koch com o México e que está prestes a ir a julgamento em Stuttgart, e outro sobre o acordo de 110 bilhões de dólares firmado entre os EUA e a Arábia Saudita no ano passado.

Cúmplice de genocídio

As Forças Armadas turcas também foram equipadas com centenas de canhões produzidos pela empresa alemã Krupp. Os canhões foram usados no ataque da Turquia contra os combatentes da resistência armênia que mantinha suas posições na montanha Musa Dagh, em 1915.

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Genocídio marca identidade dos armênios

Em 2015, o então presidente da Alemanha, Joachim Gauck, reconheceu a "corresponsabilidade" da Alemanha no genocídio armênio. No mesmo ano, um livro publicado pelo jornalista alemão Jürgen Gottschlich detalhou o conluio político do mais importante aliado europeu da Turquia na Primeira Guerra, que forneceu consultoria militar e de treinamento para o Império Otomano durante todo o período guilhermino (entre 1888 e 1918 – reinado de Guilherme 2º, o último imperador alemão e rei da Prússia).

Mas o novo relatório da GN-STATS é o primeiro a detalhar a extensão do apoio material fornecido pelas empresas Mauser e Krupp. "De fato, a Mauser detinha um monopólio de fuzis para o Império Otomano", disse o autor do relatório, Wolfgang Landgraeber, cineasta que fez vários filmes sobre exportações de armas alemãs.

A Mauser encerrou suas atividades em 2004, mas o sucessor da Krupp, a multinacional siderúrgica ThyssenKrupp, nunca reconheceu publicamente a parte que desempenhou no genocídio.

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Em 2016, o Parlamento alemão votou pelo reconhecimento do genocídio armênio – o que irritou o governo da Turquia

"A questão sobre quem realmente forneceu as armas, não somente para o genocídio, mas também para a Turquia na Primeira Guerra, ninguém nunca efetivamente abordou", disse Landgraeber. "E até que ponto os oficiais alemães participaram dos assassinatos, com eles próprios pegando os fuzis e disparando – isso não era conhecido antes."

Muitas das descrições inéditas trazidas pelo relatório vêm de cartas do major Graf Eberhard Wolffskehl, que estava estacionado na cidade de Urfa, no sudeste da Turquia, em outubro de 1915. Urfa abrigava uma população substancial de armênios, que se entrincheiraram dentro de casas contra a infantaria turca. Wolffskehl estava servindo como chefe de gabinete de Fahri Pasha, vice-comandante do 4º Exército otomano, que havia sido convocado como reforço.

"Eles [os armênios] haviam ocupado as casas ao sul da igreja", escreveu o oficial alemão a sua esposa. "Quando nosso fogo de artilharia atingiu as casas e matou muitas pessoas, as outras tentaram se refugiar dentro da própria igreja. Mas [...] elas tiveram que contornar a igreja pelo pátio. Nossa infantaria já havia alcançado as casas à esquerda do pátio e abateu as pessoas que atravessavam aos montes o local. Em suma, a infantaria, que usei no ataque principal [...] se saiu muito bem e avançou de forma impecável."

Apoio ideológico alemão

Enquanto as companhias alemãs forneciam as armas, e os soldados alemães, a consultoria especializada sobre como usá-las, oficiais alemães também estabeleceram o que Landgraeber classifica de "fundamentos ideológicos" para o genocídio.

Não era segredo que o Império Alemão compartilhava com os otomanos uma desconfiança: ambos temiam que os armênios estivessem conspirando com o inimigo mútuo Rússia.

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O genocídio armênio ocorreu durante a Primeira Guerra, entre 1915 e 1916, e deixou entre um e 1,5 milhão de mortos

O livro de Gottschlich cita o adido da Marinha Hans Humann, membro do corpo de oficiais turco-alemães e amigo íntimo do então ministro de Guerra do Império Otomano, Enver Pasha, com a seguinte declaração: "Os armênios – por causa de sua conspiração com os russos – serão mais ou menos exterminados. Isso é duro, mas útil."

O relatório também menciona o general prussiano Colmar Freiherr von der Goltz, que se tornou um assessor militar vital para a corte otomana em 1883. Ele se considerava um lobista da indústria armamentista alemã e apoiou Mauser e Krupp em seus esforços para garantir as comissões turcas. Uma vez, ele se gabou em seu diário: "Posso afirmar que sem mim o rearmamento do Exército com modelos alemães não teria acontecido."

"Não publicamente, mas entre amigos e parentes, Von der Goltz se mostrava um 'armenofóbico'", disse Landgraeber. "Várias testemunhas o ouviram descrevendo os armênios como 'comerciantes gordurentos'. Ele ajudou a persuadir o sultão a tentar acabar com a questão armênia de uma vez por todas."

Landgraeber também considera Von der Goltz uma fonte para a posterior ideologia nazista. O general prussiano publicou um livro militar em 1883 intitulado Das Volk in Waffen (O povo armado, em tradução livre), resumido da seguinte forma por Landgraeber: "Ele adota posições que Hitler assumiria mais tarde – por exemplo, o objetivo de uma campanha militar deveria ser destruir totalmente o inimigo, não apenas para lutar e forçar uma capitulação. Ele acreditava na guerra total. Essa também foi a base ideológica que ele passou aos otomanos, e que estes usaram na questão armênia."

Landgraeber faz questão de sublinhar que a nova pesquisa não absolve o Império Otomano de sua culpa, mas simplesmente preenche lacunas no registro histórico. "Aconteceu conforme nós pesquisamos, e nada deve ser acobertado – mas o panorama geral deve estar mais completo agora."

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