Reconstrução de áreas atingidas por terremotos é problemática na Itália | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 08.04.2009
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Mundo

Reconstrução de áreas atingidas por terremotos é problemática na Itália

Terremotos não são raros na história italiana. No passado, várias tragédias semelhantes provocaram mortes e danos materiais no país. A reconstrução das áreas atingidas pelos tremores sempre foi, contudo, problemática.

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Áquila: danos podem levar anos para serem reparados

Os recentes tremores de terra deixaram na Itália um número de mortos que ultrapassa as duas centenas, mais de 17 mil pessoas estão desabrigadas. Na história do país, outros terremotos ainda estão presentes na memória dos moradores.

O padre Tonino Palmese, que vive no subúrbio de San Giovanni a Teduccio, na periferia leste de Nápoles, recorda a existência de uma grande fábrica de massas e outros produtos alimentícios, que empregava milhares de pessoas na região.

"Hoje, a fábrica não existe mais e 540 famílias foram deslocadas para cá. Essas pessoas haviam ficado desabrigadas em consequência de um terremoto e foram transferidas à força. Com isso, perderam suas raízes e sua cultura", conta o clérigo.

Problema conhecido

Silvio Berlusconi im Notcamp in L´Aquila

Premiê Silvio Berlusconi visita regiões atingidas: tradição no país é de desvio de dinheiro na reconstrução

Na região da Campânia, cerca de 3 mil pessoas morreram no ano de 1980 em consequência de um terremoto e dezenas de milhares ficaram desabrigadas. O sismólogo Alessandro Amato lembra que tremores de terra são algo corriqueiro para o país. Os terremotos são parte de um sistema formado por placas continentais que se movem e fazem pressão, explica o especialista.

Os italianos, porém, evitam ser confrontados com esse fato. Só quando acontecem catástrofes como a que ocorreu na região de Abruzzo é que as pessoas se conscientizam do perigo a que estão expostas. Em tempos normais, a proteção contra terremotos não parece ser um tema importante para a opinião pública.

Fatalismo e superstição

"As administrações regionais e municipais deveriam informar melhor sobre esses acontecimentos, mas principalmente no sul do país isso é difícil", aponta a historiadora Emanuela Guidoboni. Segundo ela, fechar os olhos para o problema é um comportamento que tem razões específicas.

"Há muita resistência, o que tem a ver com um fatalismo disseminado e com a superstição de que não se pode falar da desgraça."

Sob o controle da máfia

San Giovanni a Teduccio vive sob o controle da Camorra [máfia napolitana]. Ao contrário do centro histórico de Nápoles, o subúrbio é caracterizado por blocos de apartamentos populares. A triste paisagem de concreto foi construída para abrigar vítimas de terremotos na região da Campânia.

Pietro del Golfo, uma delas, lembra da tragédia que mudou os rumos de sua vida. "Quando encontro outras vítimas daquele tempo, sempre dizemos que é uma sorte estarmos vivos, mas eu perdi tudo o que tinha".

Eternos abrigos provisórios

Os políticos responsáveis pelo processo de recuperação da região assolada pelo terremoto na década de 1980 foram subornados e desviaram as verbas destinadas à reconstrução para os bolsos das construtoras, que cooperavam com o crime organizado.

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Abrigos provisórios costumam perdurar por anos, como nas áreas atingidas por terremotos anteriores

Para a historiadora Emanuela Guidoboni, este caso é um exemplo típico do que acontece no país. "A reconstrução de regiões atingidas por terremotos sempre foi problemática na história da Itália. Os períodos desproprocionalmente longos de reconstrução estão, em sua maioria, ligados a práticas obscuras. Poucos sabem, mas o terremoto de 1976, que atingiu a cidade de Friaul, é o único cujo processo de reconstrução foi oficialmente encerrado no país", conta Guidoboni.

E também o único terremoto cujas consequências não são mais visíveis na paisagem da região. Em quase todas as outras áreas atingidas por tremores de terra na Itália, ainda há contêineres ou abrigos provisórios, nos quais as vítimas, que perderam suas casas nas tragédias, ainda têm que viver. "A reconstrução não é encerrada, porque ela traz vantagens econômicas", explica a historiadora.

Desvio de dinheiro

A questão não é a falta de dinheiro, mas sim o mecanismo: quanto mais tempo demora uma reconstrução, mais verbas vão sendo enviadas de Roma ao longo dos anos. E muito frequentemente essas verbas acabam nem chegando às vítimas dos terremotos, mas vão sendo desviadas para os bolsos de poucos.

O governo italiano cogita, no momento, aceitar verbas auxiliares de fundos europeus de solidariedade. Gigi Vicinanza, diretor do jornal Il centro, de Áquila, a cidade mais atingida pelos terremotos, diz que o que as vítimas dos tremores querem é que suas casas "sejam reconstruídas de uma maneira que resistam a terremotos sem que ninguém ganhe fortunas com isso".

Autora: Kirstin Hausen

Revisão: Rodrigo Rimon Abdelmalack

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