Receita alemã contra crise não se aplica aos EUA, avaliam especialistas | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 22.10.2010
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Economia

Receita alemã contra crise não se aplica aos EUA, avaliam especialistas

Intervenção estatal na economia possibilitou à Alemanha superar o pior da crise até conjuntura reaquecer. Isso seria impensável nos EUA. Contudo, modelo econômico voltado para a exportação inspira americanos.

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Exportações alemãs voltam a atingir volume anterior à crise

O número de desempregados na Alemanha é o mais baixo desde 1992 e as exportações alemãs estão crescendo como se nunca tivesse havido crise econômica. Em seu mais recente prognóstico, o Fundo Monetário Internacional (FMI) avaliou que a economia alemã terá um crescimento de 3,3% este ano, o que supera a previsão inicial do mesmo órgão em 1,9 pontos percentuais.

Ao se comparar a economia alemã com a norte-americana, os sinais se inverteram. Nos EUA, a taxa de desemprego de 9,6% é extraordinariamente alta e o índice de crescimento econômico é inferior ao alemão. Isso está levando muitos norte-americanos a analisar o êxito econômico da Alemanha.

Para Thomas Zielke, representante do empresariado alemão em Washington, não há segredo nenhum no sucesso da economia alemã: seu forte é a exportação. De acordo com o BGA, a federação alemã de comércio exterior e prestação de serviços, as exportações alemãs deverão aumentar 16% em 2010, chegando ao volume de 937 bilhões de euros.

O nível registrado antes da crise econômica mundial foi alcançado novamente com maior rapidez do que esperado. Em 2011, a tendência é de um crescimento ainda maior. "No próximo ano, há boas chances de as exportações atingirem o recorde histórico de um trilhão de euros", conjectura o presidente do BGA, Anton Börner.

Como os empresários alemães estão acostumados a exportar, eles têm uma flexibilidade maior de se lançar mundo afora, opina Zielke. Nos Estados Unidos, com um enorme mercado interno de 240 milhões de pessoas, essa postura não é tão comum. Enquanto as exportações norte-americanas somam 13% do Produto Interno Bruto (PIB), a cota alemã é aproximadamente três vezes superior. Embora a maior parte dos produtos alemães sejam exportados para outros países da União Europeia, as maiores taxas de crescimento registradas agora se referem à exportação para o resto do mundo.

No entanto, sabe-se que essa orientação da economia alemã para a exportação se tornou fatal durante a crise econômica dos últimos dois anos. Com a queda brusca da demanda internacional, o desempenho econômico alemão caiu 5%.

Intervenção do Estado para manter empregos e a demanda interna

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Em meados do ano passado, havia um milhão de trabalhadores com jornada de trabalho reduzida; em julho deste ano, eram só 288 mil

O que tirou a Alemanha da crise, em verdade, foram medidas estatais de emergência, entre as quais o subsídio à redução temporária das jornadas de trabalho, constata o economista americano Robert Shapiro, consultor da equipe econômica do governo em Washington. Ao assumir parte dos custos salariais durante a baixa conjuntura, o Estado impediu uma onda de desemprego.

Jacob Kirkegaard, do Instituto Peterson de Economia Internacional, não esconde sua admiração por essa medida: "Os alemães provaram que é possível compensar quedas dramáticas do volume de exportação e das vendas, sem permitir demissões em massa". Para Kirkegaard, essa foi a resposta certa, já que a economia funciona em ciclos.

Os números corroboram o êxito da medida governamental de subsidiar com bilhões de euros a manutenção dos empregos na Alemanha. Em meados do ano passado, havia um milhão de trabalhadores com jornada de trabalho reduzida; em julho deste ano, eram só 288 mil.

Com a rápida recuperação da indústria alemã e o aumento das encomendas a muitas empresas, o final do verão setentrional foi marcado por uma forte demanda de mão-de-obra. O fato de os trabalhadores terem sido mantidos com incentivo governamental facilitou que a mão de obra disponível fosse rapidamente reabsorvida pelo mercado de trabalho.

A Câmara Alemã de Indústria e Comércio (DIHK) prevê que 28 mil firmas gerem 300 mil novos empregos no próximo ano. Nos setores médico e farmacêutico, serão 60 mil novos postos de trabalho; os âmbitos de pesquisa, desenvolvimento e tecnologia de informação deverão gerar 25 mil, o mesmo número de novos empregos também previsto para as áreas de propaganda, pesquisa de mercado e consultoria empresarial.

EUA se voltam para fora

Embora o modelo alemão tenha tido a vantagem de preservar a mão de obra que voltou a ser requerida após a crise, ele não seria tão facilmente aplicável aos EUA, pondera Robert Shapiro. Nos Estados Unidos, a dinâmica é outra. O mercado de trabalho norte-americano reage de forma instintiva: quando o faturamento cai, o desemprego aumenta. Em primeiro lugar, as diferenças culturais são grandes demais. Os americanos em geral são contra a intervenção do Estado na economia.

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Produção de rolos de aço em Ohio: Washington aposta na produção industrial

Em Washington, a prioridade do governo no momento é aumentar as exportações. O presidente Barack Obama impôs a meta de duplicá-las nos próximos cinco anos. "O governo vai priorizar a produção industrial e da exportação", confirmou Thomas Zielke. Obama reiterou várias vezes que só vê futuro no retorno à produção e à indústria, ou seja, "o oposto da Wallstreet e da crise financeira", ressalta Zielke.

No entanto, ao que tudo indica, os americanos terão que esperar pelo menos até o próximo ano para notar o reaquecimento da economia. Apesar de o indicador de conjuntura dos EUA ter aumentado 0,3% em setembro, uma tendência que se manteve durante três meses seguidos, o índice dos dez mais importantes indicadores econômicos "aponta pouca mudança nas condições econômicas até os primeiros meses de 2011", avalia Ken Goldstein, do instituto econômico particular Conference Board, de Nova York, que elabora prognósticos mensais de conjuntura para os EUA.

Autoras: Christina Bergmann / Simone Lopes
Revisão: Roselaine Wandscheer

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