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Cultura

Ransmayr narra novos pavores no gelo

Onze anos após publicação de seu último romance, 'Morbus Kitahara', Christoph Ransmayr lança um novo, em verso: história de amor e 'hybris' entre Ocidente e Oriente. Autor lê trechos de seu romance no Berliner Ensemble.

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Romance anterior de Ransmayr saiu há 11 anos

Em seu novo romance, o austríaco Christoph Ransmayr cruza a paisagem marítima da Irlanda com as alturas nevadas do Tibet numa história sobre dois irmãos que partem de sua fazenda à beira-mar em busca da última montanha possivelmente ainda não mapeada. O contraste entre cultura oral e digital, alta tecnologia e arcaísmo perpassa o conflito tácito, de teor quase bíblico, entre dois irmãos que seguem o mesmo caminho em busca de coisas distintas.

Der fliegende Berg (A Montanha que Voa, Frankfurt do Meno, S. Fischer, 2006) reúne diversos romances em um. Narra em primeira pessoa a emancipação de um protagonista em vias de seguir seu próprio caminho e se libertar da sombra protetora do irmão mais velho. É uma história de amor entre Ocidente e Oriente construída com elementos etnológicos, uma descrição do fracasso dos aparatos tecnológicos diante da sabedoria transmitida por mitos milenares.

Christoph Ransmayer

Christoph Ransmayr

Analogamente ao que fez em romances anteriores, como Os Pavores do Gelo e das Trevas (1984, a ser publicado no Brasil pela Editora Estação Liberdade) ou Der Weg nach Surabaya (O Caminho a Surabaya, 1997), Ransmayr lança mão de um amplo repertório de informações, atribuindo um caráter documental ao seu novo livro. Cartografia e agrimensura, história e mito continuam movendo a ficção de um autor que estudou etnologia e trabalhou em revistas como Geo e Merian.

Pouco espaço para o acaso

Em meio a um material tão extenso, Ransmayr – um escritor que vive na Irlanda, mas passa grande parte do ano viajando – mostra que domina o código do romance, articulando com grande construção e cálculo paralelos e contrastes entre mundos e assuntos tão díspares. O ambiente da resistência irlandesa contra o domínio inglês ecoa na repressão da cultura tibetana pelos chineses.

A escalada de "montanha que voa", possivelmente a mais alta do mundo, não mapeada, apenas vislumbrada em fotos aéreas encontradas na internet, representa a hybris ocidental que só tem fim com a morte do irmão iniciador da expedição.

Os nítidos antagonismos (Oriente / Ocidente, mar / montanha, moderno / arcaico, oralidade / escritura, homem / mulher) acabam conferindo ao romance um caráter esquemático. Em meio a uma narrativa minuciosamente calculada, as incursões poéticas mais livres parecem desprovidas de qualquer motivação e contexto, soando forçadas.

Prosa em verso de efeito

Ransmayr escreveu seu novo romance em verso, sem – no entanto – recorrer a nenhum artifício rítmico que singulariza a poesia. Numa nota inicial ao livro, Ransmayr comenta que é um mal-entendido achar que qualquer texto com linhas de comprimentos diferentes seja um poema. E adota o rompimento do verso e a divisão estrófica como forma de delimitar unidades de significado em seu texto. No entanto, com o passar dos capítulos, a estratégia perde o mínimo efeito que parecia ter de início, revelando uma certa gratuidade.

A crítica alemã reconheceu os méritos literários de um romance que demorou 11 anos para ser escrito. O respeito mostrado por Ransmayr não impediu os críticos, no entanto, de apontar com rigor tudo aquilo que impede o romance de se inscrever na história da literatura.

Mousepad descrito em tom eloqüente

Apesar de apontar, na intenção, para um opus magnus, "um livro raro e precioso que poderia estar ao lado da Bíblia na estante", o romance causa no fundo "um arrepio por forjar uma revelação espiritual do sentido da vida". Para tal, apresentar o alpinismo como alternativa à religião seria um pouco simplista demais. ( Süddeutsche Zeitung)

Com todo virtuosismo lingüístico e literário, Ransmayr se move no "estreito limite entre kitsch e arte, entre uma missa do sublime e um esoterismo difuso" ( Frankfurter Rundschau). Tratar coisas tão cotidianas, como um mousepad, em eloqüente tom épico ( Neue Zürcher Zeitung) e não deixar nenhuma margem para o acaso ( Tageszeitung) foram outros defeitos apontados pela crítica.

Christoph Ransmayr: Der fliegende Berg . Frankfurt a.M., S. Fischer, 2006; 359pp.

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