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Cultura

Ransmayr: "Confissões de um Turista"

Em "Confissões de um Turista – Um Interrogatório", Christoph Ransmayr reflete sobre as condições do ofício do escritor na Europa de hoje.

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O mais novo livro do austríaco Christoph Ransmayr, entre a viagem e a literatura

"Um escritor? Um poeta? Não, não faço questão de um título assim. Um narrador? Podem me chamar como quiserem. Nos formulários, devo admitir, ocasionalmente escrevo autor para simplificar, mas isso poderia ser autor de instruções de uso. Nos formulários prefiro as lacunas em que posso escrever simplesmente turista, pois ignorância, mudez, bagagem leve, curiosidade e pelo menos a disposição de não se limitar a julgar o mundo, mas sim experimentá-lo, percorrê-lo, circunavegá-lo, que seja, escalá-lo, atravessá-lo a nado, padecer dele na pior das hipóteses são coisas pressupostas pelo ato de narrar."

Em Geständnisse eines Touristen – Ein Verhör (Confissões de um Turista – Um Interrogatório), recém-publicado pela editora S. Fischer (Frankfurt), o romancista austríaco Christoph Ransmayr reflete sobre a atividade do escritor europeu de hoje, compreendido entre o vínculo com seu local de origem e a mobilidade do nomadismo contemporâneo.

Nascido na Alta Áustria e residente no sudoeste da Irlanda, o escritor de 50 anos divaga – neste livro autobiográfico – sobre viagem e a mobilidade como princípios narrativos. Seja em Die Schrecken des Eises und der Finsternis (Os Horrores do Gelo e da Escuridão, 1984), uma expedição ao pólo norte, em Die letzte Welt (O Último Mundo, 1988), uma viagem no encalço de Ovídio, poeta romano banido, à procura de uma cópia manuscrita de suas Metamorfoses, ou em Morbus Kitahara (1995), a história de um outro mundo pós-guerra que termina no Brasil, Ransmayr sempre escreve com o olhar do descobridor e do viajante.

Caminhar é preciso

Christoph Ransmayer

Christoph Ransmayer (nascido em 1954 em Wels, Alta Áustria)

Em seu mais novo livro, Ransmayr – que constuma passar metade do ano em viagens e metade escrevendo em sua residência com vista para o Atlântico, em West Cork, na Irlanda – associa todas as formas de mobilidade ao ato de escrever. Para Ransmayr, o ato de caminhar – uma tradição tão viva na Áustria, sobretudo nas montanhas – está intimamente ligado ao processo da escrita, uma associação canônica na literatura: "Não conheço nenhuma forma de locomoção mais condizente com o pensar, o falar e o escrever do que o caminhar. Afinal, o caminho a pé pressupõe a lenta e gradativa mudança de perspectiva, a concentração e a contemplação. Só assim é possível surgir uma imagem estratificada do mundo, o material para histórias e narrativas".

Mas sobretudo a possibilidade de se afastar dos limites conhecidos e observar a Europa de fora é o que torna o narrador um viajante: "Uma experiência essencial que sempre fiz, tanto viajando como escrevendo, foi a brusca e terrível proximidade do horror e tudo aquilo de que somos capazes sob a pressão do medo, da fome, da ganância e da mera burrice. O turista nem precisa visitar regiões em guerra ou ter visto os bairros miseráveis de grandes cidades, como São Paulo, Bombay, Délhi ou Cidade do México, para reconhecer que a relativa tranqüilidade e ordem da nossa vida, de um ponto de vista global, é uma exceção inconcebível. Vista de fora, da miséria, nossa vida deve parecer completamente irreal, mais distante da realidade do que o mais audacioso esboço narrativo".

Áustria significa esqui, não Mozart

Da perspectiva de quem abandonou o ângulo de visão restrito dos Alpes e optou voluntariamente pelo horizonte do Atlântico, Christoph Ransmayr critica em suas "confissões de turista" as limitações do espaço cultural de língua alemã, desde a agressividade da crítica literária até as desvantagens fiscais em comparação com a Irlanda. E, como bom austríaco, Ransmayr não poderia deixar de soltar seu veneno contra o país, muitas vezes em doses que lembram a ferocidade de um Thomas Bernhard: "[...] Nem Mozart, nem Musil são testemunhas nem representantes de uma cultura austríaca. Acreditem: esquiadores, esquiadores são os verdadeiros heróis de lá. [...]."

Neste obra autobiográfica, Ransmayr, notoriamente avesso ao que chama do "cassino jornalístico de opiniões", compilou trechos de entrevistas suas e os teceu numa espécie de interrogatório, no qual o interrogador se mantém ausente e suas perguntas apenas transparecem nas respostas do interrogado. Geständnisse eines Touristen – Ein Verhör é um exercício de reflexão sobre a narrativa: "Quem pergunta quer ouvir histórias. Quem responde narra".

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