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Eleição na Alemanha

"Queremos governar, mas não podemos"

Bancada esquerdista no Parlamento, liderada por Lafontaine e Gysi, se reuniu pela 1ª vez e reiterou seu distanciamento dos outros partidos. Serão eles que não querem compor com social-democratas e verdes ou o contrário?

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Gysi e Lafontaine: nova esquerda com liderança dupla

Bundeskanzler Willy Brandt

Willy Brandt, novembro de 1977

"Willy Brandt falava de uma maioria à esquerda do centro – agora temos esta maioria", declarou o dissidente social-democrata Oskar Lafontaine, após as apurações da eleição que confirmou a representativa votação de 8,7% para ã nova aliança de esquerda. Gregor Gysi, co-líder da aliança, colocou o limite da esquerda um pouco mais adiante, ao interpretar o resultado das eleições como derrota do atual governo e excluir terminantemente uma coalizão com social-democratas.

Esquerda ingovernável

Após o primeiro encontro da bancada de esquerda, nesta sexta-feira (23/09), Gysi e Lafontaine se declararam dispostos a governar, mas lamentaram tão ter com quem compor. "Queremos governar, mas não podemos", declarou Gysi. "A esquerda quer governar com base em seu claro programa", disse Lafontaine.

A aliança de esquerda está isolada. Resta saber se os novos esquerdistas (que já são bem antigos) é que não querem se misturar ao resto ou se os demais partidos é que querem distância deles. De qualquer forma, a aliança esquerdista – que conquistou uma votação representativa nos Estados da antiga Alemanha Oriental – é vista com reserva por políticos e pela opinião pública.

Uma acusação freqüente é a de que eles não passam de desmancha-prazeres, pois querem se manter à distância de todos os que já estiveram no poder federal e já decepcionaram o eleitorado de alguma forma. Gysi despertou esta impressão, ao dizer que vai se "empenhar energicamente para que nenhum dos 53 deputados eleitos da sua aliança vote em Schröder ou Merkel" para chanceler federal.

Uma mão lava a outra

Quanto à alternativa de apoiar um governo minoritário de social-democratas e verdes, ele declarou: "Não sou muito amigo da tolerância". Ao contrário de Lafontaine, Gysi não qualifica a maioria à esquerda de democrata-cristãos e liberais como "esquerda": "Será que é mesmo uma maioria de esquerda? Sou bem cauteloso quanto a isso..."

É difícil saber até quando os neo-esquerdistas vão se recusar a compor com outros partidos e até que ponto será possível manter seus parlamentares unidos num bloco. Fato é que as divergências entre dissidentes social-democratas e pós-comunistas não são de se ignorar. Ainda não se sabe como a bancada esquerdista vai atuar no Parlamento. Afinal, a aliança teve duas campanhas eleitorais distintas com dois candidatos diferentes e, sem liderança única, por isso dificilmente o bloco vai conseguir se manter unido.

Por outro lado, as reservas dos demais partidos contra a esquerda recomposta são grandes. As principais acusações continuam sendo de oportunismo político, pois os social-democratas escanteados aproveitaram a alta dos pós-comunistas no leste do país e estes tiraram proveito da imagem da esquerda ocidental, que se diz radical, mas não está comprometida com a ditadura da antiga Alemanha Oriental.

À esquerda de quê?

Martin Schulz

Martin Schulz

Mas será que dá para chamar este agrupamento de "nova esquerda"? Para o líder dos social-democratas no Parlamento Europeu, Martin Schulz, "ser de esquerda significa ser reformista e progressista". "Esta formação é conservadora em suas estruturas, se nega à modernização e não aceita a realidade do século 21. Isso não é ser de esquerda, mas sim conservador", declarou Schulz, em entrevista à DW-WORLD.

A tendência populista também contribui para o descrédito destes esquerdistas. "É o que também acontece na França e na Itália, por exemplo. Este tipo de partido tem um enfoque populista. Seus políticos propagam que se pode fazer descaso da realidade, que a trajetória econômica mundial é reversível e que tudo pode continuar como era antes".

Bildgalerie Nach den Wahlen Hans-Christian Ströbele

Hans-Christian Ströbele

Entre os verdes, há parlamentares que consideram uma composição com os pós-comunistas mais legítima do que as consultas com os democrata-cristãos, diante da improbabilidade de um consenso com os conservadores. No entanto, isso parte mais da base do partido e de parlamentares isolados. A cúpula dos verdes rejeitou com vigor a proposta do deputado Hans-Christian Ströbele, de negociar com o Partido de Esquerda.

O maior tabu de se envolver com os pós-comunistas é a sua conivência com as arbitrariedades da ditadura da Alemanha Oriental. A encarregada da investigação sobre a atuação do serviço secreto da República Democrática Alemã (RDA), Marianne Birthler, exigiu que os parlamentares do Partido de Esquerda se pronunciem sobre seu grau de envolvimento com o Ministério de Segurança Estatal da RDA, responsável pela repressão política durante a ditadura socialista.

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