″Quarteirão Africano″ de Berlim entre passado colonial e pouca consciência | Conheça os destinos turísticos mais famosos da Alemanha | DW | 06.11.2010
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Turismo

"Quarteirão Africano" de Berlim entre passado colonial e pouca consciência

Originalmente projetado como "zoológico humano", trecho do bairro berlinense de Wedding convida a uma séria reflexão. Nomes de ruas relembram longínquo passado colonial da Alemanha.

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Metrô na Rua Africana: artéria principal do quarteirão

Ainda é bem cedo pela manhã e apenas alguns pedestres circulam pelas ruas. O céu está azul e a luz do sol ilumina as sujas placas das ruas. Uma delas estampa "Afrikanische Strasse" – Rua Africana –, em letras escuras sobre fundo claro.

Essa é a artéria principal de um trecho do bairro berlinense de Wedding no qual várias ruas e praças têm nomes de países africanos: Togo, Kamerun (Camarões), Usambara (cadeia de montanhas no Nordeste da Tanzânia), Windhukerstrasse (Rua Vinduque, nome da capital da Namíbia) – todos relembram antigas colônias alemãs na África ou os então poderosos senhores coloniais.

Deutschland Eindrücke aus dem Afrikanischen Viertel in Berlin Flashgalerie

Colônia Permanente Togo

O "Quarteirão Africano" de Berlim surgiu já em 1899. Carl Hagenbeck, proprietário do Jardim Zoológico de Hamburgo, tinha a intenção de transformar aquela região em um parque exótico, onde exibiria animais e pessoas (!) vindos da África. Os planos de Hagenbeck fracassaram, mas um sub-bairro nascia. No início do século 20, foram batizadas ali as primeiras ruas com nomes africanos.

Conscientização histórica

As pessoas que o habitam, contudo, costumam ter pouco ou nenhum conhecimento a respeito da origem desses nomes. A proprietária de uma pequena loja de conveniência sabe que os nomes "têm alguma coisa a ver com a África", mas não tem a menor ideia de como isso se deu nem por que.

Christian Kopp, da Associação Berlim Pós-Colonial, diz que costuma ouvir reações semelhantes entre a população e que por isso luta para que haja um processo de esclarecimento da população a respeito do assunto.

Os nomes das ruas não servem apenas para a orientação na cidade, mas também para marcar a história. Segundo Kopp, como até hoje há quem veja como positivo o passado colonial alemão, sem qualquer crítica, há necessidade de uma urgente conscientização a respeito do tema.

Combatentes da resistência em vez de pioneiros colonizadores

A Peterssalle (Avenida Peters) é um exemplo: originalmente, seu nome foi homenagem a Carl Peters, defensor árduo da colonização alemã na África e mentor, à custa de violência e de procedimentos escusos, dos contratos que formalizaram a Colônia Alemã no Leste da África (nome oficial da antiga colônia alemã no continente, que compreendia parte das atuais Tanzânia, Ruanda, Burundi e Moçambique).

Deutschland Eindrücke aus dem Afrikanischen Viertel in Berlin Flash-Galerie

Papéis colados rebatizam rua em protesto

Após uma série de protestos de ativistas nos anos 1980, a Petersalle foi "rebatizada" de uma forma singular. Seu nome permaneceu, mas oficialmente deixou de ser uma referência a Carl Peters, passando a remeter a Hans Peters, um vereador berlinense da época. Um pequeno letreiro sobre a placa da rua contém essa explicação.

Essa não é uma conduta exatamente crítica em relação à história, observa Christian Kopp. Uma opinião certamente compartilhada por colou "Avenida Witbooi", numa faixa agora meio rasgada, sobre o nome da rua – uma referência ao combatente africano da resistência que se opôs aos colonizadores alemães na antiga colônia Sudoeste da África.

Essa redenominação não-oficial da rua poderia servir de exemplo para outras, aponta Christian Kopp. "A perspectiva da lembrança deveria existir pela via oposta, ou seja, no lugar de nomes dos atrozes colonizadores pioneiros, as ruas deveriam receber nomes de combatentes africanos da resistência", diz. A associação dirigida por Kopp não reivindica, contudo, uma redenominação completa de todas as ruas do baixo. Na maioria das vezes, salienta ele, bastaria uma placa explicativa sobre o contexto colonial.

Togo: colônia permanente

Na área entre a Togostrasse, a Petersallee e a Ottawistrasse, encontra-se uma pequena, porém graciosa área de pequenos jardins com casinhas, elemento típico das cidades alemãs, destinado ao lazer de seus arrendatários.

Uma placa retangular na entrada não deixa dúvidas sobre a localização: lê-se Dauerkolonie Togo – Colônia Permanente Togo – em grandes letras de forma. Uma pequena trilha convida o visitante a passear.

Deutschland Eindrücke aus dem Afrikanischen Viertel in Berlin

Cruzamento da Praça Nachtigal com a Avenida Peters

O aposentado Peter Hass e sua esposa passam ali boa parte do verão. A pergunta a respeito do nome daquela área, fundada no ano de 1939, não o surpreende. Segundo ele, o termo Kolonie não se refere, em absoluto, à perda das propriedades alemãs na África, sendo, outrossim, a designação berlinense para um conjunto de jardins. E "Togo" não passa de uma referência à Togostrasse, localizada nas imediações, acrescenta Hass.

A explicação soa convincente. Mas nem por isso o nome da área deixa de despertar estranhas associações com os longínquos sonhos coloniais germânicos.

Africanos em Wedding

Assibi Wartenberg, Besitzerin eines afrikanischen Restaurants in Berlin

Assibi Wartenberg, proprietária de restaurante em Berlim

Para se aquecer após um passeio pela Colônia Permanente Togo, o Relais de Savanne ("Descanso da savana", em francês), na Prinzenallee é um excelente endereço.

Sua proprietária, Assibi Wartenberg, serve pastéis com recheio picante, acompanhados de salada e café quente. Natural no Togo, ela abriu o restaurante há três anos e se diz muito à vontade no bairro de Wedding. "As pessoas, a mentalidade, as lojas, tudo aqui é muito africano. Quem está em busca da África, deveria se mudar para Wedding", diz.

Ela quer transformar seu restaurante em um ponto de encontro não apenas para africanos, mas também para aqueles que se interessam pelo continente. E todos deverão se sentir em casa no local, diz ela, ao reencontrarem um pedacinho da terra natal, bem no meio do Bairro Africano de Berlim.

Autora: Katrin Ogunsade (sv)
Revisão: Augusto Valente

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