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Cultura

Qual a cara do inimigo?

Na guerra entre Ocidente e terrorismo islâmico, a mídia é uma importante arma para a construção da imagem do adversário. Repórteres, jornalistas, cineastas e intelectuais discutem tema em Berlim.

A prisão de um marroquino suspeito de conivência com os terroristas de 11 de setembro, nesta quarta-feira (28), em Hamburgo, ameaça trazer novamente à tona uma certa apreensão em relação aos "co-cidadãos" muçulmanos na Alemanha. Dias após o atentado ao WTC, a notícia de que os terroristas já tinham morado em Hamburgo chocou o país: o inimigo anônimo das imagens da destruição do WTC adquiria uma face real, humana e bem próxima. "Como nos filmes de terror, onde o mal se manifesta repentinamente, em pleno cotidiano", comenta Stefan Reinecke, redator do diário tageszeitung ( taz), num evento sobre as Encenações do Inimigo pela mídia, ocorrido na quarta-feira (28), na Academia de Belas-Artes de Berlim.

Muçulmano = Terrorista?

Na Alemanha, um país com 2,7 milhões de muçulmanos, a cobertura jornalística dos acontecimentos desencadeados pelos atos terroristas de 11 de setembro é de grande responsabilidade. Apenas três dias após o atentado de Nova York, estudiosos do Islã se manifestaram numa carta aberta, acusando parte da mídia local de igualar os muçulmanos a fundamentalistas e terroristas. Além de evitar conscientemente qualquer tipo de sensacionalismo, a mídia alemã parece se esforçar para transmitir que existem muçulmanos e muçulmanos. A aura oriental das fotos do Afeganistão e do Oriente Médio veiculadas por um jornal como o S üddeutsche Zeitung, por exemplo, parece indicar que este tipo de fanatismo religioso está bem longe de seus leitores, "lá no Oriente".

Massa fundamentalista X indivíduo "civilizado"

Em parte da mídia dos países árabes e dos EUA, os pólos do conflito, a imagem do inimigo é construída com radicalismo. " They need to bleed. Not next month. Not next week. Now", publicava o tablóide New York Post, no dia 17 de setembro. Na imprensa árabe, grassam artigos que endossam as teorias de conspiração, segundo as quais o atentado ao WTC foi cometido pelo serviço secreto americano, por cristãos ocidentais ou por sionistas israelenses. Na opinião do redator do taz — um jornal que se diferencia da grande imprensa por sua crítica explícita à política neoliberal —, a mídia alemã recorre a meios mais sutis para construir a imagem do inimigo: ao contrapor, por exemplo, imagens coletivas dos muçulmanos, representados como massa imprevisível e fanática, à imagem "civilizada" do indivíduo ocidental.

Entre vilãos e profetas

A política e a mídia têm a tendência de personificar o mal. Para Stefan Reinecke, do taz, Osama bin Laden é apenas um novo rótulo do mesmo ícone pop do vilão muçulmano, que sempre retorna como imagem do inimigo ocidental. Katajun Amirpur, estudiosa do Islã, tenta explicar a atração que bin Laden exerce sobre o mundo islâmico, ao se auto-encenar como líder religioso. Ele era uma incógnita, até a divulgação de seus vídeos pela emissora árabe Al-Jazira: ele fala um registro culto da língua árabe, recorrendo a arcaísmos, citando o Alcorão com naturalidade, sem modular as vogais como na leitura teológica, trazendo a mensagem do Profeta mais próxima aos espectadores. Para Amirpur, isso não chega a convencer a maior parte dos muçulmanos. Mas com certeza impressiona.

Oriente em horário nobre

Os atos de terror nos EUA e a guerra contra o Talibã deixaram evidente o vácuo de informação sobre o mundo islâmico no Ocidente. Na Alemanha, a necessidade de preencher rapidamente esta lacuna vem se refletindo na programação de TV. De acordo com o último relatório bienal sobre a situação e o desenvolvimento da televisão na Alemanha, recentemente divulgado pelo Instituto de Pesquisa de Mídia Göfak, de Potsdam, antes do dia 11 de setembro as emissoras públicas só estavam dedicando 20 por cento de sua programação no horário nobre a temas de política e economia, enquanto as emissoras particulares chegavam no máximo a 4,4 por cento. Desde 11 de setembro, o Oriente islâmico vem ocupando o horário nobre.