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Cultura

Quadrinhos testam capacidade dos alemães de rir de Hitler

O Terceiro Reich sempre proporcionou ricas possibilidades de comédia para outros países gozarem dos alemães. Na Alemanha, contudo, rir da guerra sempre foi um tabu. Mas as coisas estão mudando.

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Comédia e ironia são novas formas de abordar Hitler

Imagine a cena: o líder nazista Adolf Hitler recebe a visita de Mahatma Gandhi, que tem fome a menos de duas horas do começo de seu jejum pela paz.

Se as coisas ainda não parecem bastante bizarras, o führer recebe trotes de Winston Churchill em seu telefone celular, uma vez imitando o apresentador alemão do programa Quem quer ser um milionário, depois oferecendo um seguro barato contra perdas de guerra.

Na maioria dos outros países, este humor surreal – tirado do Der Bonker, a última de três revistas em quadrinhos de Walter Moers, a qual mostra um ridículo Hitler tirado totalmente da realidade histórica – seria bem apreciado. Mas na Alemanha, o assunto é ainda sensível demais para muitos.

Chance de elaborar o passado

Walter Moers Der Bonker, Piper Verlag

'Der Bonker' é o terceiro livro do cartunista Walter Moers

Enquanto as piadas em quadrinhos continuam sendo de mau gosto para alguns na Alemanha, a comédia, realizada com cuidado, pode auxiliar os alemães elaborar o passado e esperar mais do futuro. A análise é de Norbert Frei, historiador da Universidade de Jena.

"A comédia vai se tornar cada vez mais parte das discussões em torno de Hitler, uma vez que a grande distância de tempo tem um efeito relaxante sobre o tópico", diz ele. "Acho que o passar do tempo explica por que gerações posteriores estão em melhor posição do que os mais velhos para abordar o tópico através da sátira e da ironia."

Sátira sobre o nazismo não é inédita

Walter Moers, Der Bonker, Piper Verlag

Churchill é um dos que tiram sarro de Hitler nos quadrinhos

Tirando o fato de a Segunda Guerra Mundial e Hitler serem bastante discutidos nas escolas alemãs, e de os horrores do Holocausto estarem claramente retratados em diversos livros, filmes, exibições e palestras, os alemães ainda têm problemas com a comédia relacionada a este período macabro de sua história.

Mas ironizar sobre o assunto não é algo inédito, de acordo com Frei. "Nos anos 50, a ironia foi usada para manter uma certa distância do assunto", lembra. "Naquela época as confrontações com o passado eram constantes, e as pessoas definitivamente lançavam mão da ironia e da sátira."

Enquanto que o cabaret alemão satirizava a questão, muito do conhecimento internacional saindo do país a respeito de Hitler tem se concentrado na análise meticulosa de sua relação com outros oficiais nazistas, sua família e vida pessoal.

Hitler faz parte da família

Apenas recentemente o ditador se tornou tema de galhofa dentro da Alemanha. O tempo necessário para as pessoas chegarem a esta atitude tem muito a ver com os problemas surgidos com a percepção de que Hitler era humano, e não o monstro diabólico de tantas interpretações, acredita o cartunista Walter Moers.

"Eu sei que a humanidade provavelmente teria mais facilidade em aceitar se ele realmente fosse um diabo ou um alienígena, mas ele é parte da família, por mais desagradável que isso possa ser", comenta Moers, que normalmente foge da imprensa, numa rara entrevista.

O cartunista não se sente obrigado a defender suas criações e decisões artísticas, as quais também mostram Hitler conversando com um Mussolini vestido de Deus, bebendo da última garrafa de conhaque e elogiando o bunker de seu anfitrião.

"A demonização que torna Hitler uma figura de culto entre os neonazistas é um perigo", conclui. O maior sucesso de Moers até o momento é Das kleine Arschloch (em tradução livre: O escrotinho), sobre uma criança anárquica e desbocada, já transformado em desenho animado.

Humanizando Hitler

Szenebild aus Der Untergang mit Bruno Ganz und Heino Ferch

Pesquisa avalia as emoções dos estudantes em relação ao filme 'A queda'

Independente do papel da comédia, a mídia popular tem o potencial de alterar a percepção do público sobre Hitler. É o que aponta pesquisa conduzida por Wilhelm Hofmann, psicólogo da Universidade Koblenz-Landau.

Ele examinou as emoções dos estudantes com relação a Hitler após assistirem A queda, comparando-as com as dos que não viram o filme. Diversos críticos censuraram a intenção desta película de mostrar o lado humano do ditador.

"Antes do filme, muitos estudantes não tinham uma imagem clara de quem fosse Hitler. Eles foram fortemente influenciados por Bruno Ganz (ator que interpreta o ditador) e o contexto positivo em que Hitler é mostrado, e o consideraram de maneira menos assustadora do que os que não assistiram A queda", disse Hofmann.

Um filme, especialmente se lida superficialmente com o nazismo na Alemanha, é capaz de ter um efeito maior do que livros, quadrinhos ou documentários sobre os sentimentos dos estudantes, declarou Hofmann.Se os alemães estão dispostos a aceitar Hitler como uma pessoa com características cotidianas ou se ele deve continuar sendo visto como o diabo é uma questão com que a Alemanha ainda precisa lidar, de acordo com o psicólogo. "Nossa pesquisa aponta uma tendência de tornar Hitler menos ofensivo. Cabe à sociedade decidir se quer isso ou não."

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