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Alemanha

Publicidade alemã: adeus ao politicamente correto?

Racismo na Alemanha é geralmente associado a grupos de extrema direita e neonazistas. Mas há quem também acuse a indústria publicitária de insensibilidade gritante contra minorias étnicas.

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Cartaz da ópera 'Parsifal': simpatia ou péssimo gosto?

O projeto de um festival cultural africano no zoológico da cidade de Augsburg, no sul da Alemanha, desencadeou acalorado debate em junho passado. A grande imprensa acompanhou o assunto com atenção. Porém, de acordo com grupos anti-racistas, mais preocupante do que tais incidentes sensacionais e isolados é a insensibilidade crônica da indústria publicitária alemã diante de questões étnicas. Um fenômeno que passa praticamente despercebido.

Exemplo típico seria o cartaz criado para o Teatro do Festival de Baden-Baden, em 2004, para divulgar a montagem da ópera Parsifal, de Richard Wagner (1813–1883), sob a regência do famoso maestro estadunidense Kent Nagano. Nele, vemos o genial compositor alemão que, graças à manipulação gráfica por computador, puxa os cantos dos olhos com os dedos, numa óbvia referência às origens japonesas de Nagano, atual maestro titular da Orquestra Sinfônica Alemã de Berlim.

Truques baratos

O pôster "Kent Nagano rege Wagner" não causou o menor incômodo à opinião pública. Porém atraiu a atenção dos especialistas do setor – que, no início deste ano, em Berlim, lhe concederam o Prego de Ouro, o mais importante prêmio da propaganda na Alemanha.

"Considero-o de mau gosto e racista", declarou Dagmar Yu-Dembski, presidente da Sociedade pela Amizade Teuto-Chinesa, sediada na capital alemã. Ela tem observado exemplos de estereótipos raciais na mídia e publicidade: "Enfatizar as características físicas dos orientais não passa de um truque barato para atrair a atenção. A referência crassa à etnia de Nagano não tem nada a ver com um concerto de música clássica".

Aki Takase, conhecido pianista e compositor baseado em Berlim, concorda: "É vergonhoso que nesse caso suas origens sejam aparentemente tão mais importantes do que seu imenso talento musical".

"Ríngua plesa"

Noah Sow

Noah Sow

Segundo Noah Sow – apresentadora de rádio e cantora, fundadora do grupo Der braune Mob (A multidão marrom), que registra questões raciais na mídia – é perfeitamente normal para a maioria dos alemães zombar de certas minorias raciais: "Em comerciais ou pôsteres de publicidade, orientais e negros são para os alemães ou motivos de rir, ou são reduzidos a clichês étnicos".

Ela cita como exemplo um comercial da MTV alemã para uma plataforma da qual se pode baixar música online. Nele, um adolescente asiático não consegue nunca comprar a música de sua banda favorita, por pronunciar seu nome "Lamones" em vez de "Ramones".

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'O novo ládio': cartaz da emissora jovem youfm

As peças alemãs de publicidade apelam com freqüência para tais estereótipos. "Orientais são em geral gente baixinha, de riso solto, incapaz de pronunciar a letra 'R' e que tira fotos o tempo todo. Já os negros são mostrados ou como vítimas necessitando de donativos, ou como DJs hip", acusa Sow.

GEZ Plakat Ich seh schwarz - ich weiß

Cartaz da central de pagamento de taxas de rádio e televisão (GEZ): 'Ich sehe schwarz' combina 'assistir televisão clandestinamente' com 'ver a coisa preta'

Norbert Finzsch, professor de História da Universidade de Colônia, confirma as palavras de Noah Sow: "A forma como africanos e afro-americanos são percebidos e discutidos na Alemanha, a forma como são representados em cartazes e propagandas de TV, prova que o olhar colonialista e racista continua muito vivo no país", afirmou numa carta aberta em junho de 2005, pedindo a proibição do festival africano no jardim zoológico de Augsburg.

Consciência seletiva

Tais alegações soam surpreendentes, considerando-se a fama da Alemanha de ter cautela especial, em decorrência de seu passado, nas relações com os 6,8 milhões de imigrantes nela residentes. Porém os ativistas sugerem que muitos alemães possuem um conceito seletivo de correção política. Uma atitude perpetuada pela publicidade.

Plakat Entscheider gibt es viele

'Muita gente toma decisões. As nossas se baseiam em tecnologia e multimídia'

Noah Sow explicita: "É claro que você jamais encontrará uma imagem racista ou ofensiva de judeus ou dos povos sintos e rom [ciganos] na publicidade alemã, pois a maioria dos alemães tem plena consciência de que isso extrapola os limites do admissível".

E Dagmar Yu Dembski acrescenta que, dada a maciça presença turca no país (1,9 milhão), estereótipos de muçulmanos em comerciais também são tabu. "Em comparação, a comunidade asiática é pequena e quase invisível. Há quase um acordo tácito de que os orientais são alvos de zombaria preferenciais da publicidade alemã."

Para conhecer o ponto de vista do setor publicitário, leia a próxima página.

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