Projeto quer que governo alemão financie pornô feminista | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 14.06.2018
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Sociedade

Projeto quer que governo alemão financie pornô feminista

Integrante da ala jovem do partido SPD, membro da coalizão de governo na Alemanha, defende financiamento público a filmes pornográficos sem estereótipos sexistas e racistas.

A estudante Franzi*, de 20 anos, começou a ver vídeos pornográficos ainda aos 13 anos, assim como, conta, muitas de suas amigas: "As mulheres faziam um barulho tão alto que eu imaginava que meu parceiro poderia achar que eu não estava gostando quando fazíamos sexo, porque de repente ele também teria visto aqueles vídeos e teria a expectativa de ouvir tantos gemidos".

A ausência de uma maior representação feminina no setor é outro problema que ela aponta. "Isso naturaliza atos como homens ejaculando em seu rosto e seios, e faz as garotas pensarem que têm que fazer certas coisas", comenta. "Por exemplo, a maioria das garotas cresceu com o pensamento de que sexo oral era apenas um presente. Basicamente, o prazer masculino aparece como algo muito mais importante que o prazer feminino".

Para oferecer a jovens como Franzi filmes adultos mais realistas e diversificados, a ala jovem em Berlim do Partido Social-Democrata (SPD), membro da coalizão do governo Angela Merkel, propôs um esquema para financiar publicamente pornografia feminista e torná-la disponível gratuitamente através de emissoras públicas.

"A pornografia tradicional retrata estereótipos sexistas e racistas", diz o projeto. "Isso pode ter um efeito duradouro sobre os jovens e dar a eles expectativas completamente irreais à medida que se tornam sexualmente ativos, impedindo-os de desenvolver confiança em seus corpo e sexualidade".

Esses jovens não são uma minoria. De acordo com a empresa de pesquisa de mercado Netzsieger, 40% dos menores de 18 anos na Alemanha procuram pornografia on-line. Eles podem se deparar com imagens violentas e degradantes. Ou no mínimo a sua visão pode levar a inseguranças sobre o próprio desempenho e afetar negativamente a sua experiência sexual no mundo real.

Para a autora do projeto, Ferike Thom, chefe da ala jovem do SPD (Jusos), não se deve permitir que a pornografia substitua a educação sexual adequada, mas a questão precisa ser levado em conta.

"É preciso haver alternativas, e elas precisam ser gratuitas porque os jovens não vão pagar pela pornografia", afirma. "Com o pornô comercial gratuito ao qual os jovens assistem hoje, eles não estão vendo diferentes tipos de corpo e perspectivas diferentes. Eles não estão aprendendo sobre consentimento e comunicação."

Apenas 3% dos sites pornô pedem a idade do usuário, e o que os jovens estão aprendendo deixaria a maioria dos pais bem surpresos (isso se soubessem o que significam alguns termos). Com uma média de 81 milhões de visitas por dia, o PornHub é o maior distribuidor mundial de entretenimento para adultos. Em 2017, seus 20 termos mais pesquisados ​​incluíram hentai, MILF, creampie, ebony e gangbang, com tendências em termos de pesquisa que vão de "ghetto booty"’ to "surprise anal" and "stop it's too big"

A pornografia feminista rejeita essas categorias e fornece uma alternativa ao sexo heterossexual e cisgênero (quando a pessoa se identificar com o gênero de nascença). "A pornografia tradicional é restrita, há papéis claros para cada gênero, as mulheres estão satisfazendo os homens, tudo leva à ereção masculina", diz Laura Méritt, ativista e feminista sexo-positivo, fundadora do prêmio pornô feminista PorYes. "Em sua essência, a indústria pornográfica é profundamente conservadora".

Mérrit parabeniza a proposta da ala jovem do SPD. "Se a pornografia feminista tivesse financiamento público, teria que obedecer a certos critérios, teria que ser o que chamamos de 'pornografia justa ou ética'".

Em outras palavras, isso representaria o novo tipo de pornografia que está mexendo cada vez mais com a indústria do setor, como é possível perceber pela crescente popularidade de plataformas como 'XConfessions' e 'The Crash Pad Series'. São produções eróticas feitas em condições consideradas positivas, atendendo a heterossexuais, transsexuais, gays, lésbicas, pessoas com deficiência, pessoas de diferentes etnias e tipos corporais diferentes, que estimulam o prazer e a escolha pessoal.

"A sociedade está abarrotada de pornografia tradicional gratuita", diz Méritt. "Está lá se você quiser ou não. Os jovens precisam saber que eles têm escolhas e também precisam saber como fazê-las."

Para Ferike Thom, o desafio será convencer a velha guarda do seu partido sobre a importância da causa feminista. Após uma eleição com resultados pífios no ano passado, o SPD está com uma crise de identidade e luta contra a baixa popularidade em pesquisas. "Não é necessariamente um problema que todo mundo vê como relevante no momento", diz .

Mas com o mundo cansado da uma masculinidade considerada tóxica, a velha guarda do partido de Thom pode estar perdendo um trunfo. Agora que a internet tornou o pornô onipresente, isso está se tornando um assunto inevitavelmente político. "Nesta frente, a sociedade está muito mais avançada do que a política", diz Laura Méritt. Enquanto isso, Franzi, a jovem de 20 anos, ficaria feliz em encontrar vídeos com "gemidos menos falsos".

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