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Ciência e Saúde

Projeto alemão espera desvendar mente de autores de massacres

28, 12, 15: são os números de vítimas dos massacres de Newton, Aurora, Winnenden. No final resta a pergunta: por quê? O projeto conjunto de pesquisa Target procura encontrar respostas e salvar vidas.

Erfurt, Alemanha, 2002: um jovem de 19 anos, carregando duas armas de fogo, chega a sua ex-escola às 10h45. Em cerca de 20 minutos, ele mata 16 pessoas e depois se suicida. O massacre do Gutenberg Gymnasiun foi o primeiro, no país, cometido por um aluno numa escola.

Embora estatisticamente esse tipo de crime seja raro, 11 anos depois a Alemanha ocupa o segundo lugar em termos de frequência de matanças, após os Estados Unidos. Agora, o projeto Target (Análises de delitos e casos de violência altamente expressiva e direcionada) se dedica a estudar massacres na Alemanha, sobretudo os tiroteios em escolas. O objetivo é investigar como esses casos se originam.

No projeto, que pretende contribuir para melhorar a detecção precoce de possíveis atos de violência em massa, trabalham não só psicólogos, como também criminalistas, sociólogos, pedagogos e cientistas forenses. Casos internacionais, como o massacre cometido por Anders Behring Breivik na Noruega, são também avaliados para comparação.

O coordenador do projeto conjunto, professor Herbert Scheithauer, da Universidade Livre de Berlim, explica a metodologia. "A maioria das pesquisas realizadas até hoje se ocupa apenas de um caso ou de alguns poucos comparáveis. Nós analisamos igualmente todos os casos, por exemplo, massacres cometidos por adultos ou em que apenas houve ameaça. Além disso, pretendemos entrevistar os autores que sobreviveram ou seus familiares, para talvez no futuro poder reconhecer se existe um ponto a partir do qual esse desenlace é previsível."

Típico autor de massacre?

Embora atualmente pouco se saiba sobre o perfil dos criminosos, a cobertura pela mídia cuidou para que todo o mundo tenha uma determinada imagem em mente: sexo masculino, solitários, fanáticos por armas, psiquicamente doentes – como o autor do massacre de Winnenden em 2009.

Britta Bannenberg, Krimonologin an der Universität Gießen

Não existe um padrão do atirador típico, diz Britta Bannenberg

No entanto, a verdade é muito mais complexa e só se revela quando se olha por detrás da fachada. Afinal, muitos jovens são vítimas de bullying, se ocupam tanto com jogos de "tiro em primeira pessoa" (FPS) quanto com armas, mas somente uma minoria sai atirando em inocentes.

A verdade é que não existe um padrão do "típico" assassino em massa, cada caso é muito individualizado, assegura a criminalista Britta Bannenberg, da Universidade de Giessen. Segundo ela, esse fenômeno jamais será entendido, por quem ficar procurando uma causa ou explicação única – pois ela não existe. Trata-se de um processo que se estende por anos a fio e envolve diversos fatores.

A especialista tenta descrever essa evolução: "Via de regra, temos jovens homens, que não têm amigos verdadeiros, não vivem nenhuma forma de sexualidade, mas que têm desejos. No entanto, isso é algo que personalidades assim não conseguem comunicar para o exterior. Assim, cresce o ódio contra aqueles para quem tudo isso é aparentemente tão fácil. Muitas coisas se acumulam, sendo, por fim, respondidas com tremendas fantasias de vingança e violência."

Violência na ficção, fantasia e realidade

Sem dúvida, há coincidências entre os perfis dos diferentes assassinos. Sabe-se que, na maioria dos casos, trata-se de homens. Mas isso não significa que uma adolescente de 16 anos não possa ir para a escola com sua espada de samurai e ferir gravemente duas pessoas, como aconteceu na Alemanha em 2009.

Muitos dos criminosos são descritos como "solitários". Mas essa definição não implica que a pessoa não faça parte de nenhum clube, não converse com ninguém ou esteja sempre sozinha. Segundo Bannenberg, trata-se antes do fato que os contatos sociais não se aprofundam, não se formam amizades firmes, até mesmo a relação com os pais é, em geral, bem frágil.

Andreas Zick Sozialpsychologe

Poucos matadores são portadores de doença mental, afirma psicólogo Andreas Zick

A isso se soma a imensa pressão por desempenho, que grande parte sofre dentro da família. Por não conseguir satisfazer tal exigência, porém, eles se retraem. A maioria dos massacres ocorre em pequenas cidades e os autores são de classe média: talvez porque num meio assim seja mais difícil encontrar um nicho, supõe a criminalista.

Muitos assassinos em massa parecem ter fascínio por armas de fogo e dedicam um tempo muito acima da média com filmes, literatura ou jogos que exaltam a violência, como os de FPS. Contudo, o psicólogo Andreas Zick, da Universidade de Bielefeld, alerta: seria equivocado deduzir que o fato de passar tanto tempo com jogos de atirador impeça os desequilibrados de distinguir a realidade da ficção e os induza ao massacre.

"Essa causalidade, de que jogar, em si, explique a violência, não procede: relevantes são as circunstâncias em que o jogo é jogado. Os atiradores das escolas sabem que esses jogos são jogos. E ai começam a traduzir o jogo em ação." Eles se retiram cada vez mais para seu mundo por se sentirem excluídos e não aceitos. Nos tiroteios em escolas, esse sentimento de rejeição é um ponto importante, explica Zick.

Na psique de um matador

Mas nem toda vítima de bullying sai matando. Por que esses jovens experimentam o constrangimento de forma tão mais extrema que os adolescentes normais?

Para muitas pessoas, uma doença mental seria uma explicação plausível. Alguns dos criminosos sofrem, de fato, de esquizofrenia delirante e não conseguem mais diferenciar fantasia de realidade. Este era o caso de Seung-Hui Cho, que matou 32 pessoas na Universidade Técnica de Virgínia e depois se suicidou.

Outros sofrem de depressão profunda, como Dylan Klebold, de Columbine, cuja fragmentação psíquica é de levar ao desespero a quem leia o seu diário. Porém somente uma minoria é realmente doente, como Cho. "Todo assassino em massa tem um distúrbio de personalidade. Isso é óbvio, pois partimos do campo da normalidade, onde esse tipo de coisa não acontece. Mas a doença explica somente uma parte do ato", ressalva Andreas Zick.

Em muitos desses criminosos, pode-se constatar um distúrbio de personalidade narcisista, caracterizado principalmente por baixa autoestima, mascarada por um comportamento ostensivamente autoconfiante. Assim, por vezes são as próprias vítimas a provocar certas situações de bullying, devido a seu comportamento drástico em relação ao meio social, e isso faz com que o constrangimento seja sentido de modo especialmente extremo.

Columbine High School

Harris e Klebold no massacre na escola Columbine

Assim, Eric Harris – que em 1999, juntamente com Dylan Klebold, assassinou 12 alunos e um professor na escola Columbine, em Colorado, EUA – escrevia em seu diário que era intimidado pelos outros alunos. Em contrapartida, seus colegas o descreveram como aquele que discriminava os demais.

Segundo Zick, tal comportamento é relativamente normal, do ponto de vista psicológico. "Um forte sentimento de inferioridade implica perda de controle. Então procura-se uma forma substituta de controle: é uma fuga para fora dos problemas e para dentro da violência."

As imagens extremas que os autores de massacres têm de si mesmos é outra característica do distúrbio de personalidade narcisista. Elas podem oscilar entre a vitimização extrema e a ilusão de poder extremo. O ato de planejar o ataque, em si, já dá ao autor o sentimento de estar numa posição de poder. E os atiradores costumam planejar seus atos ao longo de vários anos. Portanto, um massacre nunca é algo espontâneo.

Salvar eventuais vítimas – e assassinos

No entanto, chega o ponto em que o planejamento da ação – que também funciona como uma forma de compensação – não basta mais. E então muitos passam à autorradicalização: eles recordam constantemente a si mesmos que precisam realizar esse ato, desenvolvem um exacerbado senso de obrigação.

Eles acreditam que, com o massacre, deixarão sua marca na memória coletiva da sociedade, substituindo o sentimento de serem nada pelo de que serão lembrados, mesmo depois de mortos. Foi o que alcançaram Harris e Klebold, cujos atos têm encontrado incontáveis imitadores, até hoje, e cujo nome é conhecido por praticamente todas as pessoas no mundo.

O projeto Target traz pelo menos a esperança de facilitar a detecção precoce dos matadores.A pesquisa também inclui a questão de quando e por que um "detonador" (trigger) definitivo transforma alguém definitivamente em um assassino em massa. E talvez os resultados da pesquisa também consigam evitar que eventuais criminosos sequer cheguem a esse ponto.