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Brasil

Primeiras Estórias: Padres alemães e escritores brasileiros

Presença de alemães em Minas Gerais contém registro peculiar: por tradicional colégio de padres verbitas passaram alguns dos grandes nomes da literatura nacional, como João Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade.

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Colégio Arnaldo visto a partir da Avenida Brasil, em 1936

A biblioteca do Colégio Arnaldo, hoje apenas um estabelecimento entre as infindáveis instituições de ensino de Belo Horizonte, conserva quase que disfarçadamente uma edição não datada mas certamente muito antiga de Fausto, no original. Um volume mantido atrás das vitrines de uma estante e que passa certamente despercebido para a maioria dos escolares que por ali circulam.

"Pirlimpsiquice" − Na primeira metade do século 20, o papel do colégio dos Padres do Verbo Divino era certamente distinto. Por ali passou, no início da década de 20, um João Guimarães Rosa recém-chegado de Cordisburgo, que viria mais tarde a relembrar o ambiente do colégio em seu Pirlimpsiquice, conto publicado no volume Primeiras Estórias e que narra uma apresentação teatral sui generis e improvisada "no Arnaldo".

Pelo colégio passou ainda, mesmo que por apenas quatro meses, Carlos Drummond de Andrade, então com 14 anos. Ali Drummond viria a conhecer o também futuro escritor Pedro Nava. As lembranças desta rápida mas significativa convivência estão indiretamente registradas nos poemas A um Ausente e Memória, publicados anos mais tarde.

Der brasilianische Dichter Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade: passagem rápida mas de lembrança duradoura

Referências de Drummond a estes meses podem ser também encontradas no pequeno poema Figuras, publicado no volume Boitempo III. Pelo colégio passaram ainda Otto Lara Resende e, décadas mais tarde, o cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil.

Filosofia e Ciências Naturais − Se as referências à cultura alemã do Colégio Arnaldo empalideceram com o tempo, alguns dos volumes mantidos na biblioteca, que hoje leva o nome de Carlos Drummond de Andrade, deixam entrever como a Filosofia e a Literatura alemãs, além do interesse pelas Ciências Naturais, podem ter marcado a então futura geração de escritores e intelectuais brasileiros.

Entre os livros hoje aparentemente esquecidos nas estantes da biblioteca estão edições da primeira metade do século 20, como o Leitfaden der Pflanzenheilkunde, (Guia de Fitoterapia), de 1925, Eulenartige Nachtfalter (Mariposas Noctuídeas), de 1919, e até mesmo um dicionário de alemão-grego.

Brasilianischer Autor João Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa: primeiros contatos com o idioma alemão no colégio

Tipografia − O nome do colégio é uma referência ao Padre Arnold Janssen, natural da pequena Goch e que, após estudar Filosofia na Universidade de Bonn, criou na vizinha Holanda, em 1875, a Missão do Verbo Divino. Pouco tempo depois, Janssen montava uma tipografia, sediada na holandesa Steyl.

Alguns anos mais tarde, "a congregação já havia se tornado responsável por publicações com tiragem de um milhão de exemplares que circulavam em toda a Europa, além de possuir um dos parques gráficos mais modernos, operosos e ocupados do Velho Continente", conta o autor José Maria Cançado em Colégio Arnaldo: Uma Escola nos Trópicos, publicado em 1999.

Primórdios no país − Para o Brasil, os primeiros verbitas viriam em 1895. "Eles vieram atender colonos alemães na Argentina e, no caminho, pararam no Espírito Santo, onde havia muitos imigrantes pomeranos. Tinham intenção de seguir viagem, mas foram muito requisitados e acabaram ficando", conta à DW-WORLD o padre polonês Jan Czujak, atual diretor administrativo do Colégio Arnaldo.

Em 1901, era fundado em Juiz de Fora o primeiro colégio da congregação no país. Pouco depois, chegava o padre Mathias Willems, físico e teólogo formado pela Universidade de Berlim, responsável por trazer à cidade aparelhos de raio X e telégrafo sem fio.

Colegio Arnaldo Belo Horizonte Brasilien

Sede do colégio na Rua Timbiras em 1912

No início de 1912, a congregação fundava em Belo Horizonte o Colégio Arnaldo, cujos professores eram padres alemães em missões pelos trópicos. "Até a arquitetura do prédio possui referências à Alemanha. O teto de madeira do auditório é repleto de imagens de grandes compositores alemães", observa o padre Jan Czujak.

Rigor e disciplina − O apreço pelas Ciências Naturais e o rigor da disciplina eram os pilares do colégio, cujos laboratórios de Química e Física vinham da Alemanha. O Código Arnaldo de Conduta, gravado num livreto, "normatizava coisas como matrícula, pensão, ensino, uniforme, enxoval, etc. A prescrição com relação ao uniforme não deixava dúvida com relação ao rigor do colégio", conta Cançado no volume sobre o colégio. Mas nem só de austeridade viviam os religiosos alemães em terra brasilis. Alguns padres foram incentivadores assíduos da prática de futebol e um deles foi até mesmo fundador de um dos times da cidade.

Crises − Depois de uma crise em 1917, que levou mesmo ao fechamento temporário do colégio e a denúncias de aplicação de castigos extremamente severos aos alunos, "o Arnaldo" voltava a seu funcionamento normal. Em 1929, o colégio admitia pela primeira vez mulheres como alunas. Depois disso, os membros da congregação vivenciaram os conflitos políticos do país com a Revolução de 30 e lutaram para se livrar do selo "colégio de alemães" durante a Segunda Guerra Mundial.

Findo o conflito, os religiosos deixaram de omitir a influência da cultura alemã no estabelecimento. Uma herança cultural que, porém, foi se esmaecendo ao longo das décadas e hoje pode ser relembrada praticamente apenas através dos volumes no idioma de Goethe, armazenados nas estantes da Biblioteca Carlos Drummond de Andrade, localizada no porão do colégio.

Consta que foi "no Arnaldo" que João Guimarães Rosa adquiriu seus primeiros conhecimentos de alemão e estabeleceu seus primeiros contatos com a tradição cultural do país. E é provável que tenha sido também ali que o futuro autor de Grande Sertão:Veredas tenha dado continuidade ao detalhismo com que descrevia fauna e flora a seu redor.

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