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Economia

"Previsões de colapso chinês são exageradas"

Crise nas bolsas elevou temor de que China possa estar diante de uma bolha prestes a estourar. Mas para Shang-Jin Wei, economista-chefe do Banco Asiático de Desenvolvimento, é improvável que economia real seja afetada.

Animadas com a recuperação das bolsas americanas e um corte na taxa de juros interna, as bolsas chinesas conseguiram na quinta-feira (27/08) frear suas perdas dos últimos cinco dias. O índice de referência de Xangai ultrapassou a marca simbólica dos 3.000 pontos – e o pregão fechou com alta de 5,34%.

Isso ocorreu após a bolsa perder quase 8% na segunda-feira (24/08), no maior recuo registrado em um único dia desde 2007. Os números têm causado preocupação sobre o estado da segunda maior economia do mundo.

Após o registro de um crescimento de 7,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado – a menor expansão em 24 anos –, especialista têm afirmado que a China está lutando para alcançar uma marca de 7% em 2015.

A desaceleração da China – que responde por 15% da produção mundial – também está sendo vista como um fator determinante por trás da atual volatilidade das bolsas do país.

No entanto, Shang-Jin Wei, economista-chefe do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB, na sigla em inglês), afirma que existe uma desconexão entre a economia real da China e a volatilidade das bolsas. Em entrevista à DW, ele diz que as notícias de que a economia chinesa está à beira de um colapso são exageradas.

DW: A expansão econômica chinesa está entrando em colapso?

Shang-Jin Wei: Eu não usaria a palavra "colapso". O crescimento da China desacelerou mais do que o esperado na primeira metade de 2015, e a taxa de expansão anual pode até ser menor do que 7%, mas ainda assim não vão ficar muito distantes do que as autoridades previram.

Enquanto o crescimento em investimentos fixos e comércio parece fraco, nós também vemos uma expansão nas vendas do varejo, nas transações e na construção de casas. E, mais importante: o mercado de trabalho continua saudável, com a criação no primeiro semestre de 7,2 milhões de novos postos em áreas urbanas, especialmente no setor de serviços, e o crescimento contínuo dos salários.

Os dados sobre emprego sugerem que as previsões sobre o colapso da economia chinesa são bastante exageradas. Mas é claro que, para assegurar a continuidade do crescimento, são necessárias reformas para aperfeiçoar a produtividade.

A turbulência recente no mercado de ações chinês pode ser um prenúncio de problemas na economia real?

O movimento dos preços das ações e a economia real não estão tão intimamente conectados. Por exemplo, quando a economia real estava crescendo com robustez entre 2010 e 2013, os preços das ações estavam em declínio.

Por outro lado, quando as ações estavam subindo no primeiro semestre, havia uma desaceleração da economia real. A razão não é difícil de entender. Empresas listadas na bolsa de valores não representam exatamente o universo das firmas chinesas.

Estatais chinesas representam dois terços das firmas listadas em termos de valor de mercado, mas ao mesmo tempo elas só são responsáveis por um terço do PIB e uma fatia ainda maior do mercado de trabalho. Assim, a turbulência no mercado de ações da China provavelmente vai ter um impacto limitado na economia real e no investimento privado. E por várias razões.

Primeiro, as mudanças no preço das ações não causam muito impacto no consumo. Investimentos em ações representam apenas uma pequena proporção dos investimentos das famílias, que preferem colocar seu dinheiro no banco ou em propriedades. O mercado de ações só é relevante para famílias mais ricas. Talvez só o consumo de bens de luxo seja afetado.

Segundo, a correção do mercado de ações não deve ter muito impacto no investimento privado. Enquanto a importância da emissão de títulos como fonte de financiamento cresceu em 2014, ela ainda só representa 4% do total de empréstimos bancários concedidos em 2014. Embora não esteja ocorrendo nenhuma Oferta Pública Inicial (IPOs) no momento, elas podem ser retomadas em breve.

Causas da turbulência

Mas, de acordo com alguns analistas, o mercado de ações chinês só vai se estabilizar com algum grande anúncio econômico. Por que existe uma percepção entre os investidores e economistas de que o crescimento chinês caiu rapidamente, com algumas estimativas apontando um número baixo que pode chegar a 3,5%?

Os preços nos mercados de ações emergentes tendem a ser mais voláteis do que em mercados maduros. Em comparação com os EUA, o mercado chinês tem mais investidores do varejo e menos investidores institucionais. Enquanto muitos investidores institucionais olham no longo prazo – algo que ajuda a estabilizar o mercado –, a maioria dos investidores do varejo só vê no curto prazo, o que aumenta a volatilidade. Por si só a volatilidade não é surpreendente.

Como as exportações são um ativo fixo, o investimento é fraco. Se alguém quer encontrar razões para ser pessimista, é possível encontrar. Eu apontaria que há sinais de resiliência. O mercado imobiliário mostrou uma recuperação. As vendas no varejo também estão relativamente fortes. As exportações também vão melhorar assim que os mercados de países desenvolvidos se recuperarem de maneira mais robusta. E não se pode esquecer a criação de novas vagas.

As autoridades tomaram uma série de medidas para controlar a queda no mercado de ações. A última foi cortes no principal índice de referência e no depósito compulsório exigido dos bancos. Vai ocorrer mais alguma queda antes da recuperação?

É difícil apontar qual é o nível ideal dos preços das ações. Enquanto algumas companhias chinesas têm um Índice Preço/Lucro (P/E) muito alto, a bolsa de Xangai em geral teve um P/E de 18.04 no fim de julho. Em comparação, o mercado de ações americano teve um P/E de 19.5. Eu saliento que não estou fazendo previsões sobre preços de ações. O desejo das autoridades de estabilizar o mercado é compreensível. A maioria dos países quer evitar um potencial crash desestabilizador.

É por isso que a maioria dos países conta com um circuit break quando o preço ultrapassa um limiar em um dia. A regra tem o objetivo de dar tempo para que os investidores esfriem a cabeça e pensem racionalmente antes de agirem novamente.

É claro que o preço dos ativos precisa ser determinado pelas forças do mercado. A principal tarefa dos reguladores de valores mobiliários é assegurar que as transações sejam justas para todos os investidores – e reforçar as regras contra o comportamento ilegal, como o uso de informação privilegiada e manipulação do mercado. Não é necessário garantir um nível particular de preços.

O que está por trás da turbulência na China? O governo está certo em promover a compra de ações enquanto o mercado está supervalorizado e em meio ao temor do crescimento de uma bolha?

As opções disponíveis onde as pessoas podem investir sua poupança são relativamente limitadas na China. Até recentemente, a taxa de rendimentos também possuía um teto. Esses fatores contribuíram para que as famílias se interessassem pelo mercado de ações. Isso sinaliza a necessidade de mais reformas no sistema financeiro. Além da reformas, é necessário educar as pessoas sobre economia básica para que elas entendam os riscos do mercado financeiro e façam investimentos mais sábios.

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