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Cultura

Presença brasileira nas 48 horas de arte democrática em Berlim

Artistas brasileiros e visões do país fazem parte do "48 horas Neukölln". O maior evento de arte da cidade é democrático e celebra o bairro com o intercâmbio entre artistas e moradores numa grande festa da arte.

Durantes décadas, gerações de imigrantes se estabeleceram no bairro de Neukölln em Berlim. Nos últimos anos eles ganharam novos vizinhos, jovens artistas e descolados de todo o mundo. Com diferentes razões e motivações, eles se mudaram para a área em busca de seus pequenos paraísos pessoais.

Há 15 anos, um artigo intitulado Última parada: Neukölln, publicado na revista Spiegel, dizia que o bairro era uma das áreas a serem evitadas em Berlim.

Entre a busca do paraíso e o inferno da realidade, o bairro mudou e esse processo se confunde com a história do 48 horas Neukölln, o maior evento de arte que acontece anualmente na cidade e que nesse ano tem com mote Última parada: paraíso.

48 Stunden Neukölln

Eventos acontecem em lugares públicos e privados

Arte de todos e para todos

Uma das características principais do evento é seu caráter democrático. Buscando o dialogo entre artistas profissionais e amadores, jovens e experientes, o evento transforma o bairro num circuito de arte onde espaços públicos, alternativos e privados se voltam para todo o tipo de manifestação artística.

Qualquer artista ou morador do bairro é convidado a participar, criar, observar e se envolver. Não há seleção dos trabalhos baseados na qualidade artística, todos que se inscrevem dentro do prazo e respondem aos critérios do festival podem participar.

A ideia é que o processo criativo e de utilização dos espaços gerem uma atmosfera onde o experimentalismo possa acontecer de uma maneira livre, atraindo e integrando artistas e público, já que todos vivem ou frequentam o bairro. Isso cria a oportunidade de projetos artísticos e socioculturais que melhoram a qualidade de vida da área.

Multiculturalismo explosivo

Essa simbiose entre artista e público foi o que levou a carioca Barbara Marcel a participar pela primeira vez do evento em 2010. O projeto Story Box convidava os moradores a compartilharem os livros que leem numa grande caixa. A artista leu trechos de um livro de Glauber Rocha em português. "Foi uma experiência muito forte, mesmo tarde da noite o bairro estava muito movimentado e o público interagia com a leitura. O festival dá espaço a todos para se envolverem de alguma forma", declarou.

48 Stunden Neukölln

O "48 horas Neukölln" integra moradores e artistas que vivem ou trabalham no bairro

Nesse ano Marcel irá mostrar, no muro do Karl Marx Studio, sua instalação que utiliza tranças africanas como linhas de desenho. "As tranças encontrada nas lojas Afro da região criam uma afinidade entre a cultura africana e minhas raízes afrodescendentes no Brasil e a relação entre a minha imigração e a de outras pessoas da cidade", explicou. "O multiculturalismo de Neukölln é explosivo, mas ao mesmo tempo que se deixa misturar e descobrir , também gera conflitos".

A artista também participará de um projeto coletivo relacionado à arte no espaço público, seguindo a linha de pesquisa em seu mestrado na Universidade das Artes de Berlim. A ideia era envolver os moradores e relacionar o paraíso com as possibilidades do bairro. "A instalação é composta por cinco retratos feitos em pin art tridimensional e fones de ouvido onde se escutam os moradores de Neukölln falando sobre o paraíso", disse a artista.

Inspiração pessoal

Ausstellung 48 Stunden Neukölln Bild von Alex Pinheiro

As colagens de Alex Pinheiro misturam moda e natureza

Os brasileiros Alex Pinheiro e Ivi Roberg se juntam a outros artistas de diferentes nacionalidades para uma mostra no Engels, uma mistura de café e galeria de arte. No ano passado, eles participaram de uma exposição paralela ao evento no mesmo local, que acabou recebendo muitos visitantes do 48 horas Neukölln. "O bairro fica cheio, todo mundo anda de uma lado para o outro e entra onde tem algo acontecendo. A exposição deu super certo", disse Pinheiro.

O artista apresenta suas colagens que juntam formas e cores da natureza com aspectos físicos do ser humano. "Tenho muito influencia do meu trabalho com moda, mas minhas colagens são intuitivas. Trabalho com figuras que gosto, geralmente juntando recortes de revistas de moda com animais e plantas", declarou. A exposição no ano passado foi sua primeira e ele volta este ano para apresentar a evolução de suas colagens.

"Meu trabalho está mais fluído. Neste ano, eu recortei, montei um esboço, depois digitalizei as partes separadamente e montei novamente no computador. O produto final tem melhor qualidade e tenho mais possibilidades", revelou.

O trabalho de Ivi Roberg também é pessoal, mas a cineasta e videoartista buscou o experimentalismo em sua parceria com o artista alemão Tom Ehrhardt. Eles fizeram três pequenos filmes experimentais que dialogam com os clichês de gênero.

"Escrevemos três poesias, separadamente e em parceria. Fizemos as imagens juntos e pedimos para três diferentes músicos comporem as trilhas sem ver o texto ou o filme", contou a cineasta. "É muito louco como a mente encontra um sentido para texto, imagem e sons que foram feitos separadamente. Transformamos essas diferentes mídias em algo totalmente novo", explica.

Residentes do vizinho bairro de Kreuzberg, os artistas são influenciados diariamente pelas diferentes facetas de Neukölln. Alex Pinheiro gosta muito dos parques da região, principalmente o campo aberto do Tempelhof. Já Ivi Roberg considera o bairro menos gentrificado que Kreuzberg. "Ainda é mais genuíno. Adoro andar por lá e descobrir coisas novas. Me lembra o centro de São Paulo", disse a cineasta.

Olhar sobre o Brasil

Santarem II

Paisagens do Brasil urbano pelos olhos de Sabine Blank

O Brasil também está presente nas fotos da alemã Sabine Schulz Blank. Fotógrafa profissional na Inglaterra, onde estudou, ela largou tudo e voltou para a universidade na Alemanha. "Fui estudar geografia para melhorar como fotógrafa", declarou.

Ela acabou achando uma nova profissão e pôde desenvolver como menos pressão sua fotografia "antrogeomorfológica", que observa o ser humano como uma ação do mundo geográfico.

Ela foi ao Brasil fazer uma pesquisa relacionada à castanha-do-pará. "Fui fazer um estudo de visibilidade sobre o cultivo e a utilização da fruta". Sua ideia inicial era fotografar dentro do universo de sua pesquisa, mas no Brasil ela ficou impressionada com a infraestrutura e com a quantidade de pastos para agropecuária que encontrou no Pará.

"Resolvi fotografar objetos e paisagens urbanas. Como era época de cheia, muitas cidades estava inundadas. Fiquei fascinada como mesmo com toda a infraestrutura, as pessoas ainda têm que se adaptar as condições naturais", declarou a fotógrafa alemã. Suas fotos tentam também desmistificar os clichês existentes na cabeça dos estrangeiros em relação àquela região.

Num estilo comunitário, característico do bairro e do evento, Sabine Blank resolveu expor em seu próprio apartamento. "Não tinha outro lugar para mostrar o meu trabalho. Sempre quis fazer algo na minha sacada, que é grande e cheia de verde. Achei que seria uma combinação perfeita", concluiu a fotógrafa.

Com mais de 500 eventos em 300 locações por todo o bairro, o 48 horas Neukölln acontece entre às 19 horas da sexta-feira (15/06) e às 19 horas do domingo (17/06).   

Autor: Marco Sanchez
Revisão: Carlos Albuquerque

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