Prêmio Camões 2012 vai para escritor curitibano Dalton Trevisan | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 22.05.2012
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Cultura

Prêmio Camões 2012 vai para escritor curitibano Dalton Trevisan

Marcado por estilo seco e realista, contista é o 10º brasileiro a receber maior distinção literária da língua portuguesa. Marca de Trevisan é a escrita seca e desafetada, numa descrição realista da condição humana.

Nesta segunda-feira (21/05), em Lisboa, foi anunciado que o Prêmio Camões, considerado o mais importante da língua portuguesa, vai este ano para o contista brasileiro Dalton Trevisan.

Escrita seca

Nascido em 1925, em Curitiba, o escritor estreou no início da década de 40. Tornou-se conhecido já à época como um dos editores da revista Joaquim, que circulou entre 1946 e 1948, com a qual viriam a contribuir alguns dos maiores intelectuais e artistas brasileiros em atividade no pós-guerra imediato, como Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Mário Pedrosa, Candido Portinari, Otto Maria Carpeaux, Antonio Candido, Carlos Drummond de Andrade e Fayga Ostrower.

Buchcover Dalton Trevisan O Vampiro de Curitiba

Apelidado "Vampiro de Curitiba", segundo seu livro mais famoso, autor foge da mídia

Na década de 60, com a publicação de livros de contos como Cemitério de elefantes (1964) e uma de suas obras-primas, O Vampiro de Curitiba (1965), passa a contar entre os mais importantes e influentes prosadores do país. Sua escrita é tesa, seca e desafetada, apresentando de forma extremamente direta aspectos da vida social no país.

Desse modo, seus contos centrados na violência das relações humanas nas grandes cidades imediatamente o distinguiram tanto do realismo regionalista de autores como José Lins do Rêgo e Jorge Amado, como das investigações de caráter metafísico de autores como Lúcio Cardoso, Clarice Lispector ou João Guimarães Rosa.

Entre predação e solidariedade

Essa decisão estética de não mascarar a crueldade com requintes líricos, o liga – ao lado de Rubem Fonseca – a poucos autores e obras nacionais até aquele momento, como o Graciliano Ramos de Angústia (1934), os contos de João do Rio ou a maestria satírica de Machado de Assis.

O conto “Uma vela para Dario”, incluído em Cemitério de elefantes, é emblemático neste sentido e um de seus textos antológicos. Em apenas duas páginas, com sua concisão que parece mimetizar a própria violência humana que descreve – a da pressa da competição pela sobrevivência –, Trevisan relata sem qualquer alteração de pulso e ritmo e sem julgar, como a personagem principal, ao passar mal numa rua qualquer, vai perdendo aos poucos os seus pertences – carteira, aliança de ouro e paletó desaparecendo a cada ato de ajuda. Três horas depois, sem ambulância ou rabecão, a personagem está morta e mais pobre do que nunca.

Sem deixar de descrever também alguns atos de generosidade e compaixão, no entanto, Trevisan nos mostra a convivência humana como balançando-se entre a predação e a solidariedade – mas insinuando qual delas costuma pesar mais no prato.

Em seu conto mais famoso, “O vampiro de Curitiba”, o autor contribui a essa larga tradição literária com um texto que prescinde do fantástico, para chegar ao caroço das lendas vampirescas como manifestações do desejo sexual desenfreado e animal.

Aqui, Trevisan emprega um trato pessoal e experimental com a língua, mesclando e oscilando entre o coloquialismo dos primeiros modernistas e expressões arcaicas, estilo inimitável que deixaria marcas na prosa brasileira das duas últimas décadas, que teve Trevisan como um dos mestres declarados. No entanto, talvez apenas alguns autores – como Hilda Hilst, tenham conseguido produzir trabalhos originais e com um estilo também bastante pessoal, a partir de técnicas similares.

Alta distinção

Dalton Trevisan publicou cerca de 40 livros, e tem sido uma presença constante no cenário cultural brasileiro, apesar da alcunha de "Vampiro de Curitiba", por se recusar a dar entrevistas, ser fotografado ou participar de eventos "literários" (leia-se "sociais").

Buchcover Dalton Trevisan O Anão e a Ninfeta

"O anão e a ninfeta", publicação mais recente de Trevisan

Nos últimos anos, levou ao extremo seu minimalismo, publicando as micronarrativas de volumes como Ah, é? (1994), 234 (1997) e Pico na veia (2002), pelo qual recebeu o Prêmio Portugal Telecom de 2003. Editado no Brasil pela Record, seu último trabalho foi O anão e a ninfeta (2001). Ganhador de prêmios da Câmara Brasileira do Livro, do PEN Club Brasil e do Ministério da Cultura, Trevisan recebe agora o prestigioso Camões.

Instituída pelos governos do Brasil e Portugal em 1988, a distinção é atribuída anualmente, e a cerimônia de entrega se alterna entre o Rio de Janeiro e Lisboa. Agora em seu 24º ano, o prêmio foi entregue pela primeira vez ao português Miguel Torga, e no ano seguinte ao brasileiro João Cabral de Melo Neto.

Ao todo, foram homenageados dez portugueses, dez brasileiros, dois angolanos, um moçambicano e um cabo-verdiano. Em 2006, o angolano José Luandino Vieira recusou o prêmio, por "motivos íntimos e pessoais", sendo o único a fazê-lo até o momento.

Dalton Trevisan, que não costuma recusar nem comparecer a tais honrarias, ainda não se manifestou sobre sua premiação.

Autor: Ricardo Domeneck
Revisão: Augusto Valente