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População síria sofre entre duas frentes de batalha

23 de dezembro de 2012

Parte da população síria vem lutando contra o governo há dois anos. Especialistas avaliam que situação na Síria é incerta e cada vez mais preocupante. Ataque aéreo deixa dezenas de mortos em cidade dominada por rebeldes.

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Foto: Reuters

Uma barraca inundada, um colchão encharcado e nada para se aquecer – o inverno chegou ao campo provisório de refugiados próximo à fronteira entre a Turquia e a Síria. As noites tornaram-se extremamente frias, e não há cobertores suficientes disponíveis.

No entanto, muitos sírios que chegaram aos campos vivenciaram situações muito piores. Eles estão em fuga dos confrontos entre tropas do governo e rebeldes, que continuam a se espalhar para novas regiões.

"Os combates na Síria mudam de um lugar para o outro", disse Ruth Jüttner, especialista em Oriente Médio na organização de direitos humanos Anistia Internacional. "Muitos sírios que encontramos nos disseram que tiveram de fugir várias vezes", conta.

Segundo ativistas, somente neste domingo (23/12), dezenas de pessoas morreram em ataque aéreo das forças de Assad perto de uma padaria na cidade de Halfaya, dominada pelos rebeldes.

Milhões de pessoas em fuga

Assim, todos os dias, milhares de sírios se refugiam na vizinha Turquia – e também no Iraque, no Líbano e na Jordânia. E não se vislumbra um fim para os conflitos.

Alltag der syrischen Rebellen
Rebeldes lutam há 21 meses contra o regime AssadFoto: Rob van Delft

Segundo as Nações Unidas, os diversos grupos que formam o movimento sírio de oposição estão ganhando cada vez mais força. Mas o golpe decisivo contra o regime do presidente Bashar al-Assad ainda está por vir. As tropas governamentais continuam usando a força militar contra o levante – independentemente do sofrimento de civis.

Como fica cada vez mais difícil fazer um quadro da situação no país. Particularmente para observadores internacionais, não está claro quem está vencendo a queda de braço: Assad ou seus oposicionistas.

A falta de clareza é devido, ao menos em parte, ao fato de o governo, como também partes da oposição, ter pouco interesse numa cobertura jornalística objetiva e imparcial.

"É uma propaganda de guerra", afirma Cengiz Günay, especialista em Oriente Médio do Instituto Austríaco de Política Internacional. "Sempre se fala no regime 'alauíta'", observa o especialista, "mas estabelecer as diferenças na sociedade síria não é tarefa fácil".

Günay acredita que, devido ao fato de o conflito tocar cada vez mais em assuntos religiosos, muitos alauítas não enxergam outro caminho a não ser ater-se ao regime Assad. "Eles temem por suas vidas, caso o regime caia", disse Günay.

Syrien Flüchtlinge Lager Grenzgebiet
Barracas provisórias em campo de refugiados na fronteira com a TurquiaFoto: picture alliance / dpa

Minorias entre duas frente

Mas não somente os alauítas sentem-se ameaçados por ambos os lados. Grande parte das minorias religiosas na Síria está sofrendo cada vez mais com ataques de islamitas radicais. É por isso que muitos daqueles que fazem parte de uma minoria não apoiam a oposição, e sim o regime Assad, como também os militares e as estruturas mais intactas do establishment.

O que continua ambígua é a posição das partes curdas da população. Enquanto os curdos controlam agora a parte norte do país, eles continuam cooperando com o presidente em Damasco.

Enquanto isso, Assad não se beneficia somente do apoio de seus seguidores, mas também do fato de a oposição síria estar altamente fragmentada. A Irmandade Muçulmana, por exemplo, sempre se opôs ao regime – mas agora também está sofrendo a concorrência de salafistas ainda mais radicais.

Grupos seculares, de esquerda e também nacionalistas são opositores de longa data do regime, mas eles representam interesses completamente diferentes daqueles dos islamitas.

A oposição síria inclui soldados que trocaram de lado nos últimos meses, passando para o Exército Livre da Síria. Há também muitos sírios que viveram durante anos no exílio. Todos eles querem derrubar o regime, mas têm objetivos diferentes para o período posterior.

Envolvimento de potências regionais

"A complexidade do conflito sírio também reside no fato de muitos agentes externos estarem envolvidos", disse Günay. "As milícias islâmicas, por exemplo, são apoiadas pelo capital conservador dos Estados do Golfo Pérsico." Em contrapartida, o maior apoio ao regime vem da Rússia, Irã e do Hisbolá libanês – apesar das indicações de que os aliados estariam preparando um possível fim do governo Assad.

De fato, nas últimas semanas, houve sinais de que o próprio governo sírio não espera mais uma vitória militar. Por exemplo, o vice-presidente Farouk al-Sharaa defendeu negociações com a oposição no exílio, demonizada por Assad, como também a formação de um governo de unidade nacional.

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Confrontos continuam na região de AleppoFoto: AP

Até agora não foram tomadas quaisquer medidas. Não se sabe quanto tempo o conflito vai durar e o que virá depois. A única certeza é a de que a situação continua piorando – especialmente para a população.

Um desenvolvimento dramático

"A situação tem piorado dramaticamente nos últimos meses", avalia Ruth Jüttner. "Há escassez de alimentos, remédios e abrigo."

Vários milhões de pessoas fugiram dentro do próprio território da Síria e também para países vizinhos. A ONU estima que em meados do próximo ano 4 milhões de pessoas precisarão de ajuda.

Ingo Radtke, secretário-geral da organização de ajuda humanitária Malteser International, pinta um quadro sombrio da situação: "A extensão da tragédia só será conhecida quando a guerra chegar ao fim". Agora, os refugiados na Síria e em países vizinhos precisam de toda a ajuda que puderem receber.

Autora: Anne Allmeling (ca)
Revisão: Mariana Santos