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Cultura

Ponto final! Já era! Fim de papo! Finito!

Confira novas da literatura austríaca nesta edição das Notas Literárias. E a resenha do último romance de Andreas Maier – "Kirillow" – batizado com o nome de um personagem de "Os Demônios", de Dostoiévski.

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'Livro é como espelho: quando um macaco o mira, não é um apóstolo que vai olhar de volta.' (Georg Christoph Lichtenberg)

Duden wird 125 Jahre

O Duden de ortografia voltou a se tornar um best-seller

A reforma ortográfica nos países de língua alemã entrou definitivamente em vigor em 1º de agosto, após sete anos (bíblicos!) de transição, um período no qual tanto as regras antigas quanto as novas coexistiram. Porém, apenas em parte: algumas questões (casos controversos de divisão de palavras anteriormente escritas juntas, separação de sílabas e pontuação) ainda têm que ser resolvidas pelo Conselho de Ortografia Alemã. Até essas pendências serem solucionadas, porém, os Estados da Baviera e da Renânia do Norte-Vestfália – onde vivem 30 milhões de pessoas, ou seja, um terço da população alemã – preferiram adiar a ratificação da reforma.

Fora da Alemanha, também há outros poréns. Dez dias antes de as novas regras entrarem em vigor, o Ministério austríaco da Educação, Ciência e Cultura divulgou um comunicado: "A reforma ortográfica na Áustria não é nenhum caos!" O ponto de exclamação, perfeitamente condizente com as normas gramaticais, denuncia – porém – um certo desespero: "Nossas escolas precisam de garantia, continuidade e segurança".

Exclamação pontuada!

Jahresrückblick 2004 Oktober Elfriede Jelinek

Elfriede Jelinek

O desespero é justificado. Afinal, o boicote contra as novas normas ortográficas parte de vozes como Elfriede Jelinek, prêmio Nobel de Literatura, e Friederike Mayröcker, uma das maiores poetas vivas de língua alemã. Foram as duas que lançaram, junto com Gert Jonke, Julian Schutting e Marlene Streeruwitz, um manifesto intitulado: "Schluss! Aus! Ende! Finito!" (Ponto final! Já era! Fim de papo! Finito!), anunciando o fim da conversa, com quatro pontos de exclamação mais expressivos que os do ministério e um teor bem mais explosivo que as críticas feitas pelos escritores até então.

A crítica mais propagada entre os escritores alemães é a de que determinadas normas, como a separação de palavras escritas até então juntas, eliminam a potencial ambigüidade de uma língua repleta de composições lexicais. Da parte dos austríacos, a tônica sempre foi o efeito unificador da nova reforma e a conseqüente ameaça à pluralidade lingüística.

Camisa-de-força ortográfica

O novo argumento dos austríacos é uma denúncia (nem tão nova) que consta de um livro de Hanno Birken-Bertsch e Reinhard Markner, publicado em 2000 e intitulado Reforma Ortográfica e Nazismo. Os autores, membros da Academia Alemã de Língua e Literatura, mostram uma continuidade entre os planos de unificação ortográfica do Terceiro Reich, suspensos em 1944 por não serem uma prioridade bélica, e as atuais alterações da ortografia.

Os argumentos são semelhantes: facilitar a grafia para o aprendizado nas escolas, com base em justificativas pseudo-etimológicas, e acima de tudo, batendo na tecla da prioridade da língua oral.

Friederike Mayröcker

Friederike Mayröcker

Mesmo nas regiões onde as novas regras já vigoram, as violações das normas ainda pendentes não são consideradas incorretas, mas sim "obsoletas". E com isso, os escritores – renovadores da língua escrita –, se tornaram retrógrados: pelo menos nos olhos da lei.

Gerador de dissensos

Das war Österreich

'Das war Österreich', de Robert Menasse (Suhrkamp, 2005)

"A Áustria não é nenhum caos!" Esta poderia ser a máxima da Segunda República de Viena continuamente minada pelos intelectuais austríacos. Intelectual – na definição de Robert Menasse, romancista e ensaísta que trabalhou como professor assistente da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo de 1981 a 1988 e ambientou alguns de seus romances (como Espelho Cego) no Brasil – é aquele que transforma o consenso público em dissenso. De fato, na Áustria sobretudo.

Robert Menasse

Robert Menasse

Em sua recém-publicada coletânea de ensaios Das war Österreich – Gesammelte Essays zum Land ohne Eigenschaften (A Áustria já era – Ensaios Coligidos acerca do País Sem Qualidades. Frankfurt: Suhrkamp, 2005), Menasse investiga e comenta a história austríaca da Segunda República (desde 1945) até hoje. O principal alvo do escritor é a tendência conciliatória e harmonizadora que impera no país e uma sociedade avessa a encarar seus conflitos. O livro foi celebrado pela crítica alemã como uma "explicação da Áustria através do olhar arguto de um espírito alerta como poucos" ( Süddeutsche Zeitung).

Diário de um nômade

Buchcover: Titel Gestern Unterwegs von Peter Handke

'Gestern Unterwegs', de Peter Handke (Jung und Jung, 2005)

Peter Handke

Peter Handke

Durante o período indicado pelo título, o autor viveu sem residência fixa, de forma que as anotações são uma espécie de diário de um nômade. O itinerário começa nos vilarejos do Karst – região da Eslovênia e Croácia caracterizada pela erosão fluvial (carso) –, atravessa a Iugoslávia até o sul, chega até a Grécia, salta para o Egito e Inglaterra, Espanha e Portugal, França e Itália, Alasca e Japão. O que a crítica reconhece neste novo volume de Handke é a apurada observação de um romancista escolado na arte da descrição. "Um livro a ser lido como que em transe." (tageszeitung)

Leia a seguir a resenha de Kirillow , de Andreas Maier (Suhrkamp, 2005).

A recém-publicada coletânea de esparsos de um outro austríaco, desta vez Peter Handke, também fascinou a crítica alemã. Com Gestern Unterwegs – Aufzeichnungen November 1987 bis Juli 1990 (Ontem a Caminho – Anotações de Novembro de 1987 a Julho de 1990, Wien, Jung und Jung Verlag, 2005), Handke lança mais um de seus cahiers – um gênero que o escritor cultiva desde Gewicht der Welt (Peso do Mundo, Suhrkamp, 1977) até Am Felsfenster morgens (Na Janela do Rochedo de Manhã, Residenz Verlag, 1998).

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