Poluição do Delta do Níger expõe o lado sujo da indústria do petróleo | Novidades da ciência para melhorar a qualidade de vida | DW | 11.08.2011
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Ciência e Saúde

Poluição do Delta do Níger expõe o lado sujo da indústria do petróleo

Cerca de dez milhões de barris de petróleo teriam escorrido nos últimos 50 anos para o Delta do Níger, envenenando a água e poluindo a terra. Recuperação ambiental pode levar 30 anos, diz relatório da ONU.

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Vazamentos de petróleo poluem toda a região do Delta do Níger

Quando faz sol, elas brilham numa mistura de cores, unindo lilás, amarelo e tons cinzas: são manchas de óleo, que flutuam lentamente nos riachos que correm para o Níger. Em muitas margens há grandes nódulos gordurosos pretos. Em Ogoniland, no sudeste da Nigéria, o lado feio da riqueza do petróleo mostra a sua cara. A área habitacional é mais ou menos do tamanho de Berlim e cheia de plataformas de petróleo e oleodutos enferrujados.

Cerca de dez milhões de barris de petróleo teriam escorrido nos últimos 50 anos para o Delta do Níger. Isso equivale a, todos os anos, aproximadamente a quantidade de petróleo que vazou no naufrágio do superpetroleiro Exxon Valdez no Alasca, em 1989.

Pela primeira vez, um relatório, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), comprova a dimensão dos danos ambientais provocados pelo ouro negro na região. A mensagem principal do documento: a luta contra a contaminação por petróleo poderá levar décadas e se transformar na maior ação de limpeza do mundo.

Ölpest in Nigeria FLASH-GALERIE

Vista aérea mostra mancha de petróleo, que atinge até a água que moradores bebem



Danos podem perdurar por 30 anos

"O relatório confirma que a saúde e as condições de vida das pessoas estão em risco em Ogoniland. Embora a indústria do petróleo não esteja mais ativa no local, ainda há demasiados vazamentos de petróleo", disse Ibrahim Thiaw, do Pnuma, ao apresentar o estudo na Nigéria, no começo de agosto.

Os especialistas inspecionaram 122 quilômetros de oleodutos e analisaram mais de 4 mil amostras de água, solo e de ar para realizar o estudo, financiado pela multinacional do petróleo Shell, que está há anos na lista negra dos ativistas do meio ambiente, e pelo governo nigeriano.

O Pnuma, no entanto, não poupa críticas. Todos os trabalhos de limpeza realizados até agora foram insuficientes, pois em muitos casos apenas danos superficiais ao meio ambiente foram eliminados. O meio ambiente não se recuperou, resumiu Thiaw. A estimativa dos especialistas é de que pode levar mais 25 a 30 anos para que o meio ambiente no Delta do Níger se recupere pelo menos parcialmente.

Ativista nigeriano Nnimmo Bassey luta há anos contra as petrolíferas

Nnimmo Bassey luta há anos contra as petrolíferas

O estudo confirma o que os ambientalistas e ativistas dos direitos civis vêm criticando há anos. Mas alguns dos resultados chocaram até mesmo especialistas na questão. "Este relatório provou cientificamente que os moradores do Delta do Níger e de Ogoniland bebem água poluída. Não apenas a água dos rios e córregos, mas também o lençol freático está contaminado", ressaltou Audrey Gaughran, da organização de direitos humanos Anistia Internacional.

Em pelo menos dez comunidades a água potável está envenenada com hidrocarbonetos. Num vilarejo, os cientistas constataram a presença do veneno cancerígeno benzeno em água de poço em concentrações que excedem em 900 vezes o limite permitido internacionalmente. As frondosas árvores dos mangues das margens não têm mais folhas, e há muito tempo que não há mais peixes nos rios.

Shell e governo nigeriano não respeitaram padrões

O relatório critica a Shell e o governo nigeriano, que durante anos simplesmente não fizeram nada diante do vazamento de petróleo. Embora a Shell tenha suspendido a produção em 1993, após protestos em massa da população de Ogoni, a empresa tem destacada participação na Shell Petroleum Development Company (SPDC), companhia que controla e faz a manutenção dos oleodutos, um trabalho realizado de forma negligente, conforme as críticas dos ambientalistas.

"O relatório mostra que a Shell e o governo nigeriano não respeitaram seus próprios padrões mínimos. Eles não respeitaram nem os padrões mínimos do governo nigeriano nem os padrões internacionais", acusa o ambientalista nigeriano Nnimmo Bassey, que há anos luta contra a indústria do petróleo com a sua organização Friends of the Earth e que foi premiado em 2010 com o Prêmio Nobel Alternativo. Segundo ele, autoridades nigerianas fracassaram completamente no controle das companhias petrolíferas.

Petrolífera fala em roubos e sabotagem

Flash-Galerie Umweltverschmutzung Nigerdelta 16

Habitação em manguezal poluído pelos vazamentos de petróleo

Os culpados agora podem ter que pagar caro. O Pnuma pede um fundo especial para a recuperação do meio ambiente em Ogoniland. O capital inicial de 1 bilhão de dólares deve ser disponibilizado pela indústria petrolífera e pelo governo nigeriano. A Shell até agora somente quis comentar por escrito o relatório do Pnuma. "Embora não tenhamos mais extraído petróleo desde 1993 em Ogoniland, limpamos todos os vazamentos independentemente da causa e restituímos o solo às suas condições originais", afirmou, em comunicado, o diretor da SPDC, Mutiu Sunmonuin.

Além disso, a empresa ressalta que a maioria dos casos de vazamento de petróleo no Delta foi causada por roubo e ataques de sabotagem praticados por moradores. Não é segredo algum que gangues criminosas costumam desviar oleodutos ou operar refinarias ilegais no Delta do Níger. No entanto, ninguém sabe o quanto isso contribuiu para agravar a poluição.

A data de início dos trabalhos de limpeza também depende do governo nigeriano. O presidente do país, Goodluck Jonathan, que é proveniente do Delta do Níger, só fez uma promessa vaga. Ele quer se reunir com a Shell e com outras companhias petrolíferas e prometeu que o relatório não irá sumir numa gaveta qualquer, o que é exatamente o maior medo dos ambientalistas. Eles querem aumentar a pressão para que o governo finalmente entre em ação e – como medida inicial – pelo menos tampe os vazamentos existentes.

Autora: Julia Hahn (md)
Revisão: Alexandre Schossler

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