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Alemanha

Políticos alemães preferem harmonia ao confronto, dizem especialistas

Enquanto em outras partes do mundo há até pancadaria, na Alemanha conversas para formação de governo são em clima de consenso. Analistas atribuem isso ao anseio por segurança e estabilidade, natural da índole alemã.

"Não se tem fotos da sondagem. Mas o cardápio chama a atenção: sopa de batata e bolo de ameixa." Assim, há alguns dias, uma repórter de TV noticiava sobre os primeiros contatos para formação de governo entre os dois maiores grupamentos da política alemã, o Partido Social-Democrata (SPD) e a União Democrata Cristã e Social Cristã (CDU/CSU). É como "feijão com arroz e goiabada" para um brasileiro: o próprio símbolo da normalidade e da harmonia caseira e ainda mais fácil de mastigar e digerir.

"Conversas de sondagem redundam em conversas de coalizão, ou não", comentou mais tarde, diante das câmeras e bastante relaxado, o secretário-geral da CSU, Alexander Dobrindt. Sua atitude deixava claro: ele está seguro que, no fim das contas, conservadores cristãos e social-democratas vão chegar a um acordo.

Também o segundo encontro de sondagem entre as duas grandes facções, na quinta-feira (17/10) não trouxe resultados, mas pelo menos "conversações intensivas". "Nós acreditamos que vamos poder chegar a uma base comum", disse o presidente do SPD, Sigmar Gabriel. "Pôde-se sentir como é a outra parte", comentou Hermann Gröhe, secretário-geral da CDU. E isso apenas poucos dias após uma campanha eleitoral em que ambos se combateram ferrenhamente.

A CDU/CSU já havia se reunido até mesmo com o Partido Verde – até pouco tempo atrás, a acepção do inimigo para boa parte dos conservadores. Essas conversações acabaram por fracassar, porém todos os participantes fizeram questão de sublinhar como clima entre os partidos tinha sido agradável. E o mundo olha para a Alemanha admirado.

Pancadaria para uns, sondagem para outros

Depois de cada eleição na Itália ou na Grécia, o resto da Europa tem bons motivos para tremer. Fica-se torcendo para que, em alguma hora, se chegue a um governo estável, que dure mais do que algumas semanas. Na Ucrânia, Rússia e Coreia do Sul, de vez em quando há pancadaria no Parlamento.

Ukraine Parlament Kiew Prügelei

Pancadaria no parlamento em Kiev, Ucrânia

Enquanto isso, na Alemanha sonda-se, com toda calma e tranquilidade. Observadores políticos partem do princípio que o processo resultará numa "grande coalizão" entre os vencedores das eleições legislativas, a CDU/CSU, e o segundo colocado, o SPD.

Ou seja, num contrato de aliança em que cada um dos maiores partidos políticos do país pode afirmar que se impôs nas questões de relevância. E a opinião pública alemã assiste tudo com a confortante sensação de que os políticos vão acabar dando um jeito.

Consenso antes da discussão

Seja como for, só mesmo procurando com uma lupa para encontrar temas realmente polêmicos. Em princípio, todos os partidos querem o abandono da energia atômica. E mais justiça, óbvio.

A CSU pleiteia que se mantenha o controvertido Betreuungsgeld – ajuda do Estado aos pais que optam por cuidar em casa das crianças até três anos, em vez de enviá-las à creche – e que se introduza um pedágio rodoviário para estrangeiros. O SPD insiste na instituição do salário mínimo, uma vitória que tornaria mais simpático a seus afiliados o futuro resultado das negociações, qualquer que ele seja.

Nada disso se apresenta como um obstáculo intransponível. Parece que não é mesmo a hora para grandes batalhas políticas: em vez disso, os parceiros de negociações já trabalham diligentemente nos detalhes.

Reação a um histórico de divisões

Stefan Grünewald Psychologe 2010

Stefan Grünewald acredita que os alemães são inseguros

Segundo o historiador Edgar Wolfrum, da Universidade de Heidelberg, a capacidade dos alemães de contemporizar tem longa tradição. "Devido à extremamente atribulada história alemã, desenvolveu-se um anseio por segurança e consenso. E isso resulta numa cultura política bem especial." Wolfrum ressalta, em entrevista à DW, que o fenômeno também se demonstra no modelo alemão de parceria social, baseado na concordância entre empregadores e sindicatos.

Por isso, desde a sua criação, em 1949, a República Federal da Alemanha (RFA) tem sido quase exclusivamente governada por coalizões. De 1953 a 1955, o chanceler federal democrata-cristão Konrad Adenauer até mesmo trouxe três partidos menores para o governo, embora seu partido já dispusesse de maioria, sozinho.

Durante um bom tempo, as conservadoras CDU/CSU e o Partido Liberal Democrático (FDP) foram considerados parceiros de aliança praticamente "naturais", embora os liberais também tenham governado com o SPD. Já houve uma coligação entre social-democratas e verdes em Berlim, assim como duas "grandes coalizões" (CDU/CSU-SPD). Quase todas essas combinações se mantiveram até o fim do mandato, com êxito.

Medo do futuro

"A mentalidade alemã difere da de outros países", afirma o autor e psicólogo Stephan Grünewald, do Instituto Rheingold de Pesquisa de Mercado, sediado em Colônia. "Carecemos de uma identidade nacional, isso nos torna inseguros", afirma, acrescentando que daí vem a necessidade de estabilidade e previsibilidade.

Sondierungsgespräch Union SPD Berlin Deutschland

Merkel fala à imprensa durante sondagens para formação de coalizão: clima de harmonia

Deste modo, não é surpresa que os políticos prefiram se aconchegar a se confrontar seriamente: eles sabem que grande parte da população deseja que seja assim. Numa enquete realizada ainda antes das eleições de setembro, a maioria dos entrevistados se dizia a favor de uma grande coalizão. No momento, de acordo com uma pesquisa realizada pela emissora de TV ARD, são até 66% a considerar a ideia "muito boa".

"Em última análise, esse é um sinal de que muitos alemães têm medo do futuro", deduz Grünewald. "Por isso, eles esperam poder conservar as circunstâncias como estão, pelo máximo de tempo possível." É justamente isso o que promete uma aliança CDU/CSU-SPD, com a democrata-cristã Angela Merkel à frente. Pois, segundo o psicólogo, a chefe de governo transmite a impressão de ser "um anjo nacional de conciliação, salvação e mediação".

"Democracia vive da discórdia produtiva"

Quem parte para a confrontação na Alemanha costuma ser logo punido por dois lados: pela mídia, que à menor dissonância fala imediatamente em "crise" e "querela", e também pelos eleitores, que aparentemente não gostam nem um pouco de brigas partidárias.

Isso redunda, de fato, em estabilidade e numa política mais eficaz do que em muitos outros países. No entanto, o historiador Edgar Wolfrum mostra-se preocupado com a falta de capacidade dos alemães de enfrentar conflitos.

"Numa democracia, a rigor, consenso e concessões só têm lugar no fim [de um debate], não no começo." Ele critica a tendência de se louvar o modelo alemão de consenso acima de tudo. "Discórdia produtiva faz parte da democracia, ela depende disso para viver", avalia.

Ainda assim, consta que, durante a segunda sondagem entre os conservadores cristãos e os social-democratas, houve embates acalorados a portas fechadas. E também não se serviu sopa de batata, e sim almôndegas e salsichas. Já é um sinal.

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