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Feira do Livro de Frankfurt

Polêmico discurso de Luiz Ruffato divide Feira do Livro

Rechaçada por Ziraldo e, de forma velada, por Nélida Piñon, fala do escritor sobre injustiças sociais no Brasil também arrancou aplausos de outros autores e foi elogiada por visitantes do evento em Frankfurt.

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O escritor Luiz Ruffato, que destacou o Brasil como um país paradoxal em seu discurso em Frankfurt

Durante o enfático discurso do escritor Luiz Ruffato na cerimônia de abertura da Feira de Frankfurt na terça-feira (08/10), já se ouviam comentários cochichados. Suas palavras sobre capitalismo selvagem, desigualdade e injustiça social foram seguidas de aplausos de pé e gritos de “bravo“, mas também de protestos e críticas negativas. No primeiro dia de feira, as opiniões ficaram divididas.

Após Ziraldo levantar na cerimônia de abertura e gritar “Não tem que aplaudir! Que se mude do Brasil, então“, foi a vez de Nélida Piñon manifestar descontentamento, mesmo que de forma velada:

"Eu adoto a postura de não criticar o Brasil fora do país, assim como não critico meus colegas", disse a escritora na segunda leitura no pavilhão brasileiro, sobre literatura e memória. O colega de palco, Carlos Heitor Cony, não presenciou a cerimônia de abertura e a fala de Ruffato.

Aprovação

Mas neste primeiro dia de Brasil como homenageado em Frankfurt, a mostra de aprovação dada imediatamente após o discurso de abertura de Ruffato se confirmou na voz de outros autores.

"Faço deles as minhas palavras. Ele fez o que deveria ser feito, só agiu com honestidade e coragem“, disse Paulo Lins, autor de Cidade de Deus. “Mas há gente que quer esconder uma realidade que não pode e não deve mais ser escondida."

Para Sueli Torres, professora brasileira que reside na Alemanha há 26 anos, o discurso só aumentou o clima de festa. “Ruffato fez um resumo da história do Brasil preciso e emocionante da história e da cultura brasileiras. Foi o melhor discurso que já ouvi. Me arrepiei e aplaudi de pé", afirmou.

Deutschland Impressionen von der Frankfurter Buchmesse 2013

A Feira do Livro de Frankfurt, no primeiro dia com o Brasil como homenageado

Michael Kegler, tradutor do português para o alemão que adaptou livros e o polêmico discurso de Ruffatto, disse ter ficado emocionado e ter ouvido apenas críticas e reações positivas de colegas estrangeiros.

"Eu não sou brasileiro, mas acho digno dizer que o Brasil é como ele é. E Ruffato não negou que houve mudanças para melhor", elogiou. "Acho que essa é a qualidade de todas essas vozes da comitiva de autores brasileiros aqui, que falam alto e põem o dedo na ferida. Isso é um novo Brasil, consciente de seus problemas. Já se foram os tempos de ufanismo."

O discurso

Ruffato começou falando do passado brasileiro: "Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira [...]. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas negras pelos colonizadores brancos."

E, ao falar do presente, foi aplaudido ainda durante o discurso: "E quem mais está exposto à violência nao são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos."

E, para o escritor, ainda há muito presente do "legado de 500 anos de desmandos" no país: "Continuamos a ser uma país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direito de todos, mas o privilégio de alguns. [...] Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. [...] Em que estamos acostumados a burlar as leis."

Para fechar, Ruffato destacou o Brasil como um país paradoxal, ora visto como exótico e paradisíaco, ora como um local execrável e violento.

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