Pode uma alemã torcer pelo Brasil? Claro! | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 28.03.2018
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Coluna Caros Brasileiros

Pode uma alemã torcer pelo Brasil? Claro!

Na fatídica noite do 7 a 1, uma gringa no Rio de Janeiro torceu pela Alemanha. No amistoso, quatro anos mais tarde, seu coração batia pelo Brasil. Pode? A colunista Astrid Prange responde com plena convicção.

Brasil venceu Alemanha por 1 a 0 no amistoso de 27/03/2018

Brasileiro Thiago Silva e alemão Sandro Wagner disputam a bola durante o amistoso em Berlim

Caros brasileiros, minha alma canta! Confesso que fiquei feliz com o resultado do amistoso entre Brasil e Alemanha nesta terça-feira (27/03), no Estádio Olímpico de Berlim. Pode? Pode ser alemã e torcer contra a própria pátria?

Como faço parte do grupo crescente de pessoas neste mundo que vive ou viveu um tempão fora do seu país, digo "sim", claro. No coração sempre cabe mais um, especialmente um país hospitaleiro como o Brasil, que me presenteou com tantos momentos inesquecíveis.

Um deles foi o 7 a 1, em 8 de julho de 2014. Lembro que passei aquela noite no Bar Butesquina, em Copacabana, no Rio de Janeiro, com meu marido e amigos brasileiros.

DW-Journalistin Astrid Prange bei WM in Brasilien 2014 (privat)

Astrid Prange no Rio, na noite do 7 a 1. Ela escreve sobre Brasil e América Latina para a Deutsche Welle

Como era uma das poucas "gringas" no lugar, resolvi torcer pela Alemanha. Achava que a Alemanha precisava. Para não parecer antipática, tinha pintado as unhas nas cores da Alemanha e do Brasil, queria enviar um sinal de paz para os torcedores brasileiros.

"Flamengo, mais um gol!"

Depois do primeiro gol da Alemanha, ainda fiquei feliz e achava que a seleção alemã tinha tido um bom começo e pelo menos já tinha salvado a própria honra. O clima no bar era de bom astral, pois o jogo ainda estava em aberto. Mas cada gol da Alemanha aumentava a preocupação e o sofrimento entre os torcedores brasileiros.

Minha alegria inicial diminuía. A goleada era demais. Ninguém entendia mais nada. Depois do quinto gol, me entregaram um troféu de papel machê. O público começou a torcer pelo time da Alemanha. E cantava: "Flamengo, Flamengo, mais um gol, mais um gol", pois os jogadores da seleção alemã vestiam camisas nas cores do time carioca.

O salvador da pátria se foi

Essa foi demais. Os brasileiros torcendo pela Alemanha, e a alemã sentindo pena do Brasil. O gesto dos torcedores brasileiros abandonando a própria seleção mostrou a desilusão e a decepção com o próprio time. Mas também os limites de um mito nacional maltratado, de um time que, no meio de uma crise política, estava sobrecarregado de expectativas e não servia para salvador da pátria.

Os corações que batiam no peito dos torcedores naquela noite, naquele bar, simplesmente não aguentaram mais ver seu próprio time sendo massacrado. Mas, graças a Deus, o coração humano é maior que qualquer pátria. Por mais que sejamos carimbados pelo país em que nascemos e crescemos, nada nos impede de criar raízes novas, dentro do nosso país ou fora.

Ontem, torci pelo Brasil. Ainda bem que só teve um gol. A Seleção não desafiou meu coração, ele continua batendo pelos dois países, daqui da Alemanha, com passaporte alemão. Com uma pátria velha e uma pátria nova. E com a alma cantando. E desejando uma Feliz Páscoa!

Astrid Prange de Oliveira foi para o Rio de Janeiro solteira. De lá, escreveu por oito anos para o diário taz de Berlim e outros jornais e rádios. Voltou à Alemanha com uma família carioca e, por isso, considera o Rio sua segunda casa. Hoje ela escreve sobre o Brasil e a América Latina para a Deutsche Welle. Siga a jornalista no Twitter: @aposylt.

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