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Cultura

Pesquisadora paulistana fala sobre viajantes alemães no Brasil

Em entrevista à DW-World, a historiadora Karen Lisboa comenta a contribuição da literatura de viagem dos autores de língua alemã sobre o Brasil.

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Stefan Zweig é um dos escritores cuja obra sobre o Brasil foi estudada por nossa entrevistada

Após ter investigado a concepção de natureza e civilização nos relatos de viagem de Carl von Martius e Johann von Spix ( A nova Atlântida de Spix e Martius. Natureza e Civilização na Viagem pelo Brasil 1817-1820. São Paulo, Hucitec/Fapesp, 1997), Karen Lisboa dedica-se atualmente à literatura de viagem de autores do fim do século 19 até a metade do século 20, como o judeu austríaco Stefan Zweig, exilado em Petrópolis, os escritores expressionistas Paul Zech e Kasimir Edschmid, o autor de romances policiais Norbert Jacques, além de outros autores acadêmicos.

DW-World – Quais as mudanças que podem se observar na abordagem dos viajantes do século 19 para o século 20?

LISBOA – Tanto os autores do século 19 como os das décadas de 20 e 30 observam certas características, certos estereótipos, como – por exemplo – o de que os brasileiros são preguiçosos, indolentes. Enquanto no século 19 isso é um fator de crítica, um traço negativo, algo que constrói a imagem de um brasileiro de certa forma debilitado, autores posteriores (como Norbert Jacques, por exemplo) vêem isso como uma postura de resistência: o brasileiro quer ser assim para se diferenciar do europeu.

Para Wolfgang Hoffmann-Harnisch, autor de Brasil, Retrato de um Reinado Tropical (1938), por sua vez, a lentidão ou a falta de pressa é vista como uma característica que confere mais humanidade ao brasileiro. A postura dos autores da década de 30 tem indícios de uma crítica ao imperialismo e ao capitalismo dos europeus. Alguns autores do século 20 também enxergam que a sociedade brasileira está criando uma cultura própria, autóctone, que mistura elementos da cultura indígena, negra e branca.

Até que ponto os viajantes da primeira metade do século 20 notam o lado mais cosmopolita da cultura brasileira, o lado que dialoga mais diretamente com a Europa, como a Semana de Arte Moderna, de 1922, por exemplo?

A grande decepção é que eles não registram isso. O único autor que tenta abordar mais a história cultural do Brasil, apesar de muitos erros, é Hoffmann-Harnisch: ele chega a mencionar o Modernismo, mas não interage. Outros autores de projeção, como Norbert Jacques e Kasimir Edschmid, não procuram nem conhecer. Uma das dificuldades é a barreira de língua. Neste sentido, acho que eles têm uma postura bem européia, por não procurar entrar em contato com o que está sendo produzido culturalmente no Brasil.

Eu diria que, desde Hans Staden até o documentário de Werner Herzog sobre a filmagem de "Fitzcarraldo" no Amazonas, os viajantes alemães descrevem o Brasil com base numa dualidade entre o incontrolável, representado pela natureza e pelas idiossincrasias da cultura brasileira, e, por outro lado, o controle, manifestado num impulso civilizador ou na crítica da civilização. Você reconhece algo de libertário nos projetos civilizadores dos viajantes do século 20?

Um tema recorrente nos autores do século 19 e da primeira metade do século 20 é que existe mais "liberdade" no Brasil. Para Moritz Lamberg, por exemplo, esta falta de controle sobre o indivíduo, a reduzida interferência do Estado sobre a vida das pessoas, a confusão de esfera pública e privada que caracteriza a sociedade brasileira dão uma sensação de maior liberdade ao indivíduo e possibilidade de construir alguma coisa. Hoffmann-Harnisch, por sua vez, interpreta a falta de uma sociedade civil estruturada como um sinal de maior liberdade. Existe um grande fascínio pelo fato de o indivíduo não se sentir tolhido em seus ímpetos.