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Brasil

Pesquisa revela a existência dos soldados brasileiros de Hitler

Estudo recente de professor da Universidade do Paraná mostra que centenas de soldados de ascendência alemã, nascidos no Brasil, lutaram pela Alemanha de Hitler. DW-WORLD entrevistou o Prof. Dennison de Oliveira.

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Nascido no Brasil, o 'americano' (c.) se recusou a lutar contra brasileiros

Brasilien Dennison de Oliveira

Prof. Dennison de Oliveira

Em Os Soldados Brasileiros de Hitler, o professor Dennison de Oliveira entrevistou diversos cidadãos brasileiros de ascendência alemã que lutaram pela Alemanha de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo o estudo sobre cidadania e nacionalidade entre teuto-brasileiros, cerca de 3 mil brasileiros residentes na Alemanha durante a Segunda Guerra foram repatriados até o primeiro semestre de 1949.

Acredita-se que o número dos soldados brasileiros que lutaram pela Alemanha nazista pode chegar a várias centenas. Sobre o assunto, DW-WORLD entrevistou o professor da UFPR.

DW-WORLD: Quem foram os soldados brasileiros de Hitler?

Dennison de Oliveira: Tratava-se de filhos de famílias alemãs nascidos no Brasil. Alguns destes indivíduos retornaram à Alemanha para estudar ou trabalhar, geralmente com suas famílias. Com a eclosão da guerra viram-se impossibilitados de retornar ao Brasil. Ao atingirem a idade de recrutamento foram convocados pelas Forças Armadas Alemãs e engajados em combate na Segunda Guerra Mundial.

O senhor tem uma idéia de quantos soldados nascidos no Brasil lutaram pela Alemanha nazista?

Hoje é impossível determinar exatamente quantos indivíduos passaram por esta experiência, mas o número seguramente atingiu muitas centenas.

Houve soldados alemães de Vargas?

Brasilien Deutschland brasilianische Soldaten in der Wehrmacht

Condecorações de um dos combatentes

Com certeza. No Brasil a conjuntura anterior à guerra é marcada pela campanha oficial de combate aos "quistos" de estrangeiros "inassimiláveis" à cultura brasileira, dentro do projeto de nacionalização compulsória que o regime Vargas (1930–45) adotou. Uma das dimensões dessa nacionalização forçada foi o recrutamento deliberado de descendentes de alemães para as nossas Forças Armadas, tidas como reduto das virtudes cívicas e patrióticas nacionais.

Contudo, houve casos recorrentes de indivíduos de ascendência alemã que se alistaram como voluntários para lutar em nosso exército na Segunda Guerra Mundial, no intuito deliberado de provar que eram "verdadeiros" brasileiros. Afinal de contas, o lema oficial da campanha de nacionalização era "quem nasce no Brasil ou é patriota ou é traidor". É significativo que os dois maiores heróis da Força Expedicionária Brasileira sejam justamente dois destes indivíduos: o sargento Max Wolff Filho e o tenente Ary Weber Rauen.

Existiram casos de soldados da mesma família que lutaram na Força Expedicionária Brasileira (FEB) e nas Forças Armadas Alemãs (Wehrmacht)?

Existe pelo menos um caso comprovado de família de origem alemã residente no Brasil que teve um filho que lutou no exército brasileiro e outro no exército alemão. Mas é claro que esse caso pode não ser o único.

Recente pesquisa realizada por historiadora da USP constata que o partido nazista brasileiro foi o maior do mundo fora da Alemanha. As famílias que enviaram seus filhos para lutar pela Alemanha eram filiadas ao partido de Hitler?

Brasilien Deutschland brasilianische Soldaten in der Wehrmacht

Irmãos brasileiros que lutaram por Hitler e voltaram ao Brasil

Entre os entrevistados que participaram de minha pesquisa não encontrei nenhum caso sequer de família filiada ao partido nazista. Contudo, os arquivos da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) sobre a ação do partido nazista apontam que havia uma ação deliberada nesse sentido. A política partidária adotada era convencer os jovens em idade de prestar o serviço militar a viajarem para a Alemanha e lá servirem às Forças Armadas Alemãs.

Antes do embarque para a Alemanha era realizado aqui no Brasil um exame médico, que atestava que o candidato estava à altura dos padrões físicos exigidos para o serviço militar na Alemanha. O estímulo para esta iniciativa residia nas possibilidades de estudo e trabalho que se abriam, a partir da prestação do serviço militar, com a plena concessão da cidadania alemã.

Por que retornar à Europa na iminência de uma guerra?

Hoje sabemos que a guerra eclodiu em setembro de 1939, mas naquela época era impossível prever se e quando isso se daria. Os indivíduos que entrevistei são quase unânimes em afirmar que suas famílias regressavam devido às inúmeras oportunidades de trabalho, estudo e ascensão social que então existiam na Alemanha.

As condições de emprego, nível de vida e paz social na Alemanha, em especial após a anexação da Áustria ( Anschluss), eram particularmente atrativas. Um estímulo adicional para o retorno à Alemanha eram as notícias recebidas de familiares que lá residiam, enfatizando as vantagens de se deixar o Brasil e retornar à Europa.

Um de seus entrevistados, apelidado pelos colegas alemães de uniforme como "o americano", arriscou a própria vida ao justificar sua recusa de combater na frente italiana por não poder lutar contra seus "patrícios" brasileiros. Este sentimento de brasilidade também se encontra em outros entrevistados?

Brasilien Deutschland brasilianische Soldaten in der Wehrmacht

Cartão de aniversário para o 'americano': comendo banana em cima de palmeira

Esse caso é único, excepcional mesmo. E cabe notar que ele estava preocupado tanto com seus colegas de infância que havia deixado no Brasil quanto consigo mesmo, ao saber que seria destinado a lutar na frente italiana, para onde a Força Expedicionária Brasileira notoriamente havia sido deslocada.

Ele tinha plena consciência tanto de que podia se tornar responsável pela morte de seus antigos amigos que haviam sido recrutados pelo exército brasileiro, quanto de sofrer as represálias destinadas aos "traidores" do Brasil, se por acaso fosse capturado pelos brasileiros. Os demais engajados pelas Forças Armadas Alemãs sempre agiram e lutaram como os outros alemães.

Devido à pouca idade a maioria deles foi lançada em combate quando a guerra já estava abertamente perdida para a Alemanha. É natural que seus interesses estivessem voltados para a sobrevivência própria, de suas famílias e da Alemanha. O Brasil estava longe das suas preocupações.

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