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Cultura

Perigos em pleno museu

Exposição "Risco Por Conta Própria" promete servir de metáfora dos perigos da sociedade contemporânea. Com uma série de proibições às propostas dos artistas, a mostra mais parece um artefato de curadores entediados.

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Instalação "Embedded", da artista norte-americana Julia Scher

As promessas são inúmeras: uma rápida "viagem" após inalar um "gás hilariante", embebedar-se com um champanhe que sai do bico de uma mamadeira ou ficar completamente ensopado após atravessar uma fonte de água. Tudo em nome da arte. E em pleno museu. Teoricamente, a proposta dos curadores da exposição Risco Por Conta Própria (Auf eigene Gefahr), aberta ao público até setembro próximo na Schirn Kunsthalle de Frankfurt, poderia mesmo expor o visitante a determinados perigos.

Não fossem, ironicamente, as inúmeras plaquinhas amarelas espalhadas pelo espaço da mostra, alertando o público sobre qualquer eventualidade: não pisar aqui, tirar o sapato ali e até mesmo agendar um "momento de risco" para a próxima quarta-feira, entre 17 e 19 horas. O conceito desenvolvido pelos curadores dita: fazer com que o visitante do museu deixe sua passividade de lado em relação ao que vê. "Arte como experiência", proclama o catálogo da mostra.

Risco com hora marcada

Ausstellung Auf eigene Gefahr Champagner Bar

"Champagne Bar", obra de Camilla Dahl

Para isso, a curadoria vai buscar legitimação em teóricos como Roland Barthes (cujas digressões sobre a "morte do autor" são citadas à exaustão) e Michel Foucault. Tudo para "provar" como o centro da obra de arte pode se deslocar de seu "significado" para seu "uso". O problema é que, na mostra, os perigos a que os visitantes são teoricamente expostos já vêm proibidos "pela lei" ou são completamente previsíveis e até passíveis de ser agendados, com data e hora marcada.

Um bom exemplo é o Champagne Bar, de Camilla Dahl. Aqui, o visitante acredita poder tomar a bebida através de bicos de mamadeira que saem de um enorme recipiente de louça. O risco (aqui, concretamente, de embebedar-se) é, no entanto, um fiasco. A bebida é oferecida apenas aos sábados e domingos, entre 17 e 22 horas. Ou seja, data marcada para o próximo perigo na agenda? Além disso, as plaquinhas amarelas de alerta ainda pululam: "utilize, por favor, por questões de higiene, pequenos lencinhos de papel contendo um desinfectante".

Algo semelhante acontece com a obra do grupo austríaco de artistas gelatin, que uniu o prédio da exposição a um pavilhão vizinho com algumas tábuas de madeira. Isso sobre um vão de cerca de sete metros de altura. Não seria lógico fazer com que o visitante se sentisse pelo menos "convidado" a cruzar o caminho perigoso? Pois os organizadores da exposição chegam antes e impedem qualquer aproximação à "ponte" provisória construída pelos artistas.

Perigo com leis

Das Gasgolf von Henrik Plenge Jakobsen

"Golf de Gás", instalação do dinamarquês Henrik Plenge Jakobsen

O ponto alto de "engodo" ainda vem por aí: o artista dinamarquês Henrik Plenge Jakobsen coloca no bagageiro de um carro um recipiente contendo gás hilariante, ligado ao interior do carro por canos de plástico. A proposta é convidar o visitante a entrar no carro e aspirar o gás, conhecido por seu parco efeito narcótico. Teoricamente, o público é chamado por Jakobsen "a vivenciar uma rápida euforia".

O gás hilariante, segundo o catálogo da exposição, serve aqui "de metáfora", mas tem fracos efeitos concretos. Essa, no entanto, não foi a opinião das autoridades alemãs, que advertiram o museu alemão de que "o consumo da substância pode ser penalizado". Ou seja, adeus gás hilariante e qualquer espécie de perigo. A obra de Jakobsen, colocada no centro de uma sala, se transforma então um espetáculo completamente non sense no contexto da exposição.

Presença brasileira

Lightgames von Ann Veronica Janssens

Lightgames, espaço em névoa de Ann Veronica Janssens

As únicas obras que ainda se mantêm sóbrias nessa espécie de Disneylândia dos falsos perigos são Light Games, de Ann Veronica Janssens, e Paisagem com Saída e Saída II, da brasileira Ana Maria Tavares. A primeira por ser a resposta mais coerente à proposta da exposição, colocando o visitante em um espaço completamente tomado por uma névoa, que satura o olhar e não permite que se veja mais de um palmo além do próprio nariz.

Já a obra de Ana Maria Tavares coloca o observador sobre uma escada levemente trêmula de aeroporto, que termina no nada. Embaixo, espelhos. Fones de ouvido são oferecidos ao "passageiro", de onde se ouve informações sobre congestionamentos em diversas regiões de São Paulo. "Os objetos desconstruídos", segundo uma das curadoras, "permitem à artista explorar a alienação que floresce no anonimato da civilização urbana e espelhar a frieza dos espaços públicos".

Visitantes autônomos Finalizando o artefato construído pelos curadores, a instalação Sem Título, do suíço Christoph Büchsel, esteve por alguns dias fechada à visitação pública, após ter sido destruída por "um bando de caóticos", como descreve uma funcionária do museu.

Algo que beira o grotesco, considerando o que a curadoria se propôs em relação à obra do artista: "quem adentra sua montagem de várias espaços de uma casa, é tomado pelo estado caótico e torna-se parte de algo de proporções enormes, que soterra sistematicamente a autonomia do visitante". Ledo engano. O grupo de escolares, que destruiu parte da instalação, mostrou que mantém, e muito bem, sua autonomia.

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