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Argentina

"Perder tradições não cultivadas é algo irrevogável"

Pode-se preservar a tradição judaica só através da religião? Não necessariamente, afirma o escritor Ariel Magnus, argentino de origem judaica, ao contar como uma assimilação feliz pode se transformar em triste carga.

"Mandamos você participar dos grupos religiosos só para que pudesse desenvolver sua identidade", disse meu pai pouco depois de meu Bar Mitzvá, quando anunciei a ele que não pretendia continuar indo com ele à sinagoga. Foi um gesto que mais serviu a ele próprio como explicação do que a mim, seu filho – pelo menos é esta a minha percepção que tenho hoje daquele momento.

O meio-termo

Meu pai pertenceu à primeira geração de imigrantes judeus de origem alemã na Argentina e a questão da identidade deve ter sido para ele um tema marcado por muitos conflitos. Mas de qualquer forma não tão urgente quanto era para minha mãe, cujos pais eram também de origem judaico-alemã, mas que se mudou do Brasil para a Argentina para se casar com meu pai.

Para escapar do germanismo, do qual havia se tornado alheio por razões óbvias, mas ao mesmo tempo sem se sujeitar completamente à cordial, porém estranha cultura sul-americana, o judaísmo (obviamente aquele marcadamente asquenaze, ou seja, o que se chama em ídiche de jecke) precisou assumir o papel de um meio-termo cultural.

Seja como for, não consigo me lembrar de ter sentido em mim mesmo qualquer espécie de conflito de identidade ou mesmo qualquer deficiência em momento algum. Tive uma criação metade alemã (uma forte metade) e metade judaica (uma metade sensivelmente mais fraca), mas sempre me senti, em suma, totalmente argentino.

E naturalmente um argentino fortemente marcado pela língua e cultura alemãs, por um lado, e com menos força pela tradição judaica por outro. E não sou uma exceção: quase ninguém na Argentina consegue manter uma identidade isenta da herança europeia de seus antepassados, de forma que a origem cultural de todo argentino marca e sempre marcou definitivamente seu "argentinismo" (qualquer que seja o significado deste termo).

"A terra prometida de nosso maior delírio de grandeza"

Todos os judeus argentinos que conheço, e não são poucos, são assimilados. Tão assimilados que eu, ateu casado com uma goy, porém circuncisado e com uma Bar Mitzvá no currículo, sou chamado por eles de "o judeu". O que não corresponde à ideia de uma disseminação da tradição nesta parte do planeta. O problema é que a Argentina é provavelmente o país mais propenso à assimilação do mundo.

Ou o contrário: é tão grande o leque de países do mundo dos quais provêm os imigrantes que vieram para a Argentina, que o país acabou tendo ele próprio algo judaico. Às vezes tenho até mesmo a impressão de que nós argentinos vivemos todos na diáspora. O que é claramente fortalecido pelo mito de que este país pobre e distante seria na verdade rico e importante, ou seja, uma terra eleita por Deus. Como se vivêssemos na terra prometida de nosso delírio de grandeza.

Assimilação feliz e carga triste

Deutsch-jüdisches Kulturerbe

O escritor em Buenos Aires

Mas esta assimilação consciente e feliz gera uma triste carga de culpa. "Perder as tradições, quando elas não são cultivadas, é algo irrevogável", é o que tenho que ouvir frequentemente de meus pais. O importante para eles não é a religião em si (Deus é para eles tão estranho quanto para mim, da mesma forma que já era para os pais deles), mas sim os pequenos rituais religiosos: acender velas na noite de sexta-feira e tomar um vinho doce, evitar carne de porco (mesmo que algumas fatias de presunto não façam mal a ninguém) e jejuar uma vez por ano, além de manter os casamentos entre judeus e criar os filhos dentro do judaísmo.

É tão difícil se ater a esses hábitos milenares? Não necessariamente, quando se encontra a mulher certa no próprio ambiente. Mas e aí? Falta o desejo de fazer tudo isso, faltam razões consistentes para querer ter alguma coisa a ver com a religião.

Assimilação às avessas

Mas calma! Eu não sou, graças a Deus, o último judeu na Argentina. Diversas sinagogas, escolas mais ou menos ligadas ao judaísmo, várias associações desportivas judaicas (em número suficiente até mesmo para haver um campeonato de futebol entre elas, com três grupos, do qual eu, inclusive, já participei) e até mesmo uma Feira Judaica do Livro contribuem para que a vida judaica em Buenos Aires não tenha que ser protegida da assimilação.

Pelo contrário: em nenhum outro país de língua espanhola Woody Allen e Sigmund Freud são tão cultuados quanto na Argentina. Um indício de uma assimilação às avessas, ou seja, a do país à tradição judaica de seus habitantes. Amém.

Ariel Magnus,  especialmente para a Deutsche Welle

O escritor e tradutor Ariel Magnus nasceu em 1975 em Buenos Aires, descendente de uma família judaico-alemã, que emigrou durante o regime nazista para a América do Sul depois de algumas estações no percurso da fuga. Sua avó sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz. Ariel Magnus frequentou a escola alemã Pestalozzi em Buenos Aires. Entre 1999 e 2005, estudou em Heidelberg e Berlim. É colaborador de diversos jornais, entre eles do diário berlinense die tageszeitung(taz). Já publicou seis romances, alguns deles traduzidos para o alemão. Pelo mais conhecido deles, Um chinês de bicicleta, ele recebeu em 2007 o prêmio literário internacional La otra Orilla. Seu mais recente livro, La abuela, narra a história de sua avó.

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