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Cultura

Para quebrar o silêncio

Celebrado por seus romances policiais e fervoroso ativista da questão africana, Henning Mankell apresenta no Festival de Literatura de Berlim seu novo livro sobre testamentos deixados por vítimas da Aids a seus filhos.

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Mankell: "Testemunhos dirão o que fizemos ou deixamos de fazer"

O autor sueco Henning Mankell é famoso por assombrar seus leitores com romances policiais – uma coleção de assassinatos atrozes, cometidos com uma frieza calculista e expostos à investigação minuciosa do comissário Wallander. Agora, a ficção de Mankell deu lugar a uma realidade ainda mais cruel: a situação dos contaminados pelo vírus da Aids na África.

Desde jovem, Mankell interessa-se pelo continente africano. Conforme ele próprio explicou nesta terça-feira (28/9), durante uma leitura no Festival Internacional de Literatura de Berlim, ele manteve desde cedo "um pé na neve fria de sua pátria e outro na areia quente do continente africano". Hoje, ele dirige um teatro em Maputo, capital de Moçambique.

Durante o festival, Mankell apresenta seu novo livro, Eu morro, mas a lembrança fica. Aos 56 anos, este não é o primeiro livro que o engajado escritor publica sobre a África. No começo de 2003, Mankell viajou por algumas semanas para Moçambique, onde encontrou-se com vítimas em estágios avançados da doença e seus familiares. Segundo estimativas africanas, a África terá cerca de dez milhões de crianças órfãs devido à Aids até o final desta década.

Literatura como dignidade

Buchcover - Henning Mankell: Der Chronist der Winde

Capa de 'O cronista dos ventos', sobre o garoto de rua Nelio

Central para o novo volume é a história da menina Aida e de sua mãe Christine, falecida recentemente. Mankell descreve o caso de crianças que, assim como Aida, perdem seus pais e não apenas são obrigadas a assumir a responsabilidade familiar, mas acabam roubadas da própria identidade, muitas vezes jovens demais para manter viva a lembrança dos pais.

É essa lacuna que vêm preencher os memory books, através dos quais os pais agonizantes deixam aos filhos verdadeiros testamentos: palavras, fotos, flores e até insetos colados em páginas que contarão às crianças quem eram seus pais. Para Mankell, esses pequenos livros são enormes testemunhos da dignidade desses doentes, de sua vontade de continuar presente na vida dos filhos e da consciência de tal impossibilidade.

"Eu percebi que, em 500 anos, quando arqueólogos fizerem escavações em busca de documentos de nossa época, eles encontrarão esses pequenos volumes. E eles poderão ser um dos mais importantes documentos de nosso tempo, pois contarão a história de uma das mais sérias e profundas pandemias já existentes", profetizou Mankell. "E eles dirão o que fizemos e o que deixamos de fazer."

Peter Piot, da Unaids, a organização das Nações Unidas para o combate à Aids, salientou que a doença está modificando substancialmente a sociedade africana. "Cultura é a transmissão de conhecimento. É o que não apenas determinará quem somos, mas também nos ensinará, por exemplo, como trabalhar a terra. Coisas que não se aprende na escola. Isso significa que elas terão que modificar seu programa."

Chance para agir diferente

Ulla Schmidt

Ministra Ulla Schmidt

A ministra alemã da Saúde, Ulla Schmidt, que assinou o epílogo da edição alemã, também esteve presente durante a apresentação do livro na Casa das Culturas do Mundo em Berlim. Ela caracterizou a tendência dos memory books como uma chance para que gerações seguintes aprendam a agir de forma diferente de seus pais em relação à doença. Segundo Schmidt, o livro de Mankell dá "um rosto à Aids".

A maioria dos participantes pareceu concordar que qualquer ajuda à África venha tarde, mas não tarde demais. Tanto Mankell quanto Schmidt alertaram para a necessidade de fornecer medicamentos para os estados afetados pela doença. "A Aids na África é um problema social, que nos afeta a todos", avisou Schmidt.

A ministra alertou também para a diminuição das medidas preventivas entre a população jovem européia, em especial no Leste Europeu. Muitos estariam, segundo ela, equivocados quanto à falsa impressão de que os novos medicamentos possam curar a doença. Seria preciso encarar o problema abertamente. "Senão a próxima catástrofe será, depois da África, a Europa", alarmou.

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