Para especialistas, falta de perspectiva motiva violência em Londres | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 10.08.2011
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Mundo

Para especialistas, falta de perspectiva motiva violência em Londres

Insatisfação com as severas medidas de austeridade implementadas pelo governo britânico e o alto nível de desemprego gerariam frustração principalmente entre os jovens britânicos, acreditam observadores.

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Jovens londrinos e policiais: relação tumultuada

A dimensão e a intensidade da recente onda de violência em Londres, Manchester, Birmingham, e a velocidade com que os tumultos se espalharam pela capital e arredores, chocou as autoridades e a população.

Comportamentos antissociais e ações criminosas entre jovens britânicos, no entanto, não são novidade. No ano passado, 19 jovens foram mortos em Londres em crimes relacionados a gangues. Um relatório do governo concluiu que os ataques e o vandalismo praticados por essas gangues são uma "influência maligna na vida de milhões".

Diante dos últimos registros de violência, legisladores e analistas têm buscado a causa de tamanha barbárie, na tentativa de explicar a violência para uma população horrorizada e para um mundo perplexo.

Para as autoridades, os últimos distúrbios e saques aparentam ser puramente oportunistas. Grupos de adolescentes parecem estimulados pela excitação do grupo. "Essas pessoas não têm nada para protestar. Não há sentimento de injustiça ou qualquer razão que as leve a isso. Estes tumultos são pura e simplesmente atos de comportamento criminoso, os de pior dimensão que eu já tenha visto", afirmou o chefe-auxiliar de polícia Garry Shewan.

Flash-Galerie Unruhen in Großbritannien London Häuser brennen

Vândalos atearam fogo em casas na Inglaterra

Onda de violência

Os distúrbios começaram no último sábado (6/8) em Tottenham, ao norte de Londres, após um protesto inicialmente pacífico pela morte de Mark Duggan, de 29 anos, baleado pela polícia na semana passada. O incidente está sendo investigado por uma comissão independente para reclamações contra a polícia. A manifestação funcionou como catalisador da violência. A confusão espalhou-se rapidamente para outras partes da capital, e também para outras cidades inglesas.

Paul Bagguley, professor da Universidade de Leeds e especializado em sociologia do protesto, movimentos sociais, etnias e racismo, acredita que tenha havido uma deterioração geral da relação entre os jovens dos centros das cidades e os responsáveis pela aplicação da lei, o que teria começado antes mesmo das detenções e da morte da semana passada.

"Há uma sensação de tensão crescente em Londres neste verão [europeu]. Quando olhamos para as mudanças da tática policial nos últimos anos, o aumento do uso do stop-and-search (liberdade da polícia para abordagem com perguntas ou revistas) contra pessoas negras no Reino Unido – particularmente em Londres – nos últimos cinco anos, situações como as de agora ficam cada vez menos surpreendentes", disse Bagguley à Deutsche Welle.

O especialista acredita que também colaboram para este cenário a redução de até 15% no orçamento da polícia, dentro do programa de austeridade do governo britânico, e cortes similares em programas sociais. Estes últimos poderiam levar ao mercado de trabalho jovens como os que instalaram o terror nas ruas londrinas nos últimos dias.

"A longo prazo, acredito que os políticos britânicos precisam repensar alguns aspectos de sua estratégia de cortes. Jovens trabalhadores frequentemente atuam como melhores mediadores em conflitos como este do que a própria polícia", avalia o professor.

Juventude desanimada

London Proteste und Ausschreitungen August 2011

Protestos deixaram rastro de destruição em cidades britânicas

Apesar de os tumultuadores no Reino Unido aparentemente não terem nada contra o que protestar, muitos deles enfrentam atualmente dificuldades semelhantes às de outros jovens em várias outras partes da Europa.

Para o sociólogo Simon Teune, do Centro de Ciências para Pesquisas Sociais em Berlim, os distúrbios violentos em Londres, assim como recentes protestos de jovens em Madri, Lisboa e em Atenas, mostram acima de tudo o sentimento destas pessoas de que foram enganadas com relação a seu futuro. E ligado a isso está ainda a percepção de que a democracia representativa não os representa.

Para Teune, o desemprego entre os que têm menos de 30 anos é um dos fatores que aumenta a insatisfação. Ele lembra que na Espanha cerca de 40% dos jovens estão fora do mercado de trabalho. E os que estão empregados recebem salários muito baixos.

Na recessão de 2008/09, o desemprego no Reino Unido cresceu com maior intensidade entre quem tinha 16 e 24 anos de idade. Segundo dados de maio deste ano da Agência Nacional de Estatísticas do Reino Unido, 19,7% dos que procuram emprego nesta faixa etária estão desempregados. Estes 644 mil rapazes e moças respondem por quase um quinto dos desempregados britânicos.

"A lacuna entre os jovens britânicos mais ricos e os mais pobres está criando uma 'subclasse jovem', que tragicamente sente que não tem futuro", declarou em maio Martina Milburn, diretora-executiva do Prince's Trust, organização ligada ao príncipe Charles que ajuda jovens desempregados. "Não podemos simplesmente ignorar esta brecha", alerta ela.

De acordo com uma pesquisa da organização realizada entre 2.300 jovens, os mais pobres tinham três vezes mais chance de passar o resto das suas vidas em um emprego sem perspectiva, ou mesmo viver com salário-desemprego, do que os mais abastados.

Sem surpresas

Também o sociólogo Michael Hartmann afirma não estar surpreso com os acontecimentos em Londres. "Se não acontecesse agora, ocorreria daqui a alguns seis meses. O atual governo de David Cameron adotou as medidas de austeridade mais duras do que as implantadas em qualquer outro país desenvolvido nos últimos meses. Justamente no segmento mais pobre da população muitos serviços públicos serão suprimidos", afirma Hartmann.

"A falta de perspectivas que já existia em algumas partes de Londres está ainda maior. E quando os jovens veem que não têm mais qualquer chance, qualquer faísca basta para acender o barril de pólvora", avalia.

O embaixador britânico na Alemanha, Peter Torry, admite que as medidas de austeridade implementadas recentemente pelo governo do Reino Unido foram bastante duras, mas ele acredita que o comportamento criminoso dos manifestantes é oportunista. "Temos que enfrentar isso," disse Torry nesta quarta-feira (10/08). "Mas não há explicação para o que estamos vendo, isto é pura criminalidade", destacou.

Autor: Marc Hallam (ms)
Revisão: Roselaine Wandscheer

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