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Mundo

Papa leva mensagem de misericórdia a uma Cuba em transição

Durante visita do pontífice, clima em Havana é de expectativa. Abordagem religiosa "pé no chão" pode ser inspiração de que país precisa em tempos de transformação política e social, escreve o repórter da DW John Berwick.

O Vaticano desempenhou um papel-chave ao promover as conversas entre Havana e Washington que resultaram no reatamento das relações entre os dois países, depois de mais de 50 anos. Agora, a caminho dos Estados Unidos, o papa Francisco chega a Cuba "como um missionário da misericórdia", em suas próprias palavras.

Misericórdia em relação a quem? Aos cubanos comuns, que sofreram durante mais de meio século com o embargo americano? (Ainda há racionamento de alimentos em Cuba.) Ou em relação aos mais miseráveis entre os pobres de Havana, que vivem em blocos de apartamentos semiarruinados, com gelosias de madeira pendendo das janelas escuras como dentes soltos? Isso, sem falar da opressora pobreza da população rural.

Misericórdia de quem? De Deus? Dos americanos? Do comitê central do Partido Comunista cubano?

Entre catolicismo e santeria

O úmido clima cubano e a vegetação luxuriante dão à ilha um ar de paraíso inexplorado. Mas só à primeira vista. Basta se afastar alguns quarteirões da "Habana Vieja" – recentemente renovada, com seus simpáticos barzinhos e música ao vivo, os prédios pintados com todas as cores do arco-íris e onde se dança flamenco nas noites de sábados – e logo se esbarra na pobreza brutal e cinzenta.

É difícil saber que papel a religião vai representar na transformação de Cuba – se é que vai. De todos os países latino-americanos, este é o que tem a menor população católica. Os revolucionários marxistas se devotaram ao trabalho de extirpar a religião da sociedade, aparentemente com bastante sucesso. Eles foram auxiliados por dois fatores.

Em primeiro lugar, antes e durante a revolução o clero cubano tomou o partido dos ricos e poderosos, por isso era natural que a população em geral se voltasse contra a Igreja. Em segundo, os cubanos tinham uma "religião natural" a que podiam recorrer, se perdessem a fé no catolicismo: a santeria – a mitologia e rituais ioruba que os escravos haviam trazido consigo da África.

"A santeria é muito menos exigente do que a Igreja Católica, ela não é tão hipócrita", explica Lurdes, uma esbelta setuagenária cubana, que passa seis meses do ano em Havana e os outros seis na Espanha.

"Nasci numa família católica e fui educada pelas freiras. Mas eu via como as irmãs favoreciam as meninas das famílias ricas, e isso me fez ficar contra os católicos." Ainda jovem, Lurdes se "converteu" à santeria. Mais tarde retornou para a fé católica. "Agora, sou mais ou menos as duas coisas", diz com ar matreiro. Uma solução, ao que parece, tipicamente cubana.

Kuba Havanna Papst Franziskus Menschen

Dezenas de milhares de cubanos aclamam o papa na capital cubana

Proteção contra o tsunami capitalista

O papa Francisco, com sua abordagem religiosa "pé no chão", sua empatia com as franquezas da condição humana e, acima de tudo, seu comprometimento radical para com os pobres e marginalizados da sociedade, pode ser exatamente a inspiração de que Cuba precisa num período de transição política e social.

O Vaticano já conquistou considerável respeito ao mediar a aproximação cubano-americana. Agora Francisco está usando esse capital para dizer aos cubanos: "Mostrem misericórdia uns para com os outros."

Cuba tem que tatear seu caminho para a frente sem ódio nem acusações de culpa em relação ao passado. Contudo, mais importante ainda é ela encontrar meios de carregar os membros mais fracos e mais vulneráveis da sociedade, quando o tsunami capitalista atingir o país.

"Gosto desse papa", diz Lurdes, pensativa. E, ao que parece, não é só por ambos partilharem o repúdio à hipocrisia, mas também porque a mensagem de misericórdia de Francisco é exatamente aquilo de que Cuba precisa nesta época crítica.

Não há de nada pitoresco na vida do cubano mediano – a não ser para um turista que contemple os motivos fotográficos. No entanto, abraçar o capitalismo nu e cru, em toda a sua rudeza e egoísmo, provavelmente tampouco é a solução. Cubanos como Lurdes percebem isso, e estão à busca de respostas.

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