Pais se uniram para superar a dor, diz pai de aluna morta em massacre na Alemanha | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 08.04.2011
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Brasil

Pais se uniram para superar a dor, diz pai de aluna morta em massacre na Alemanha

Em entrevista à Deutsche Welle, pai de aluna assassinada em Winnenden conta que superou a dor criando uma fundação de auxílio a vítimas e que luta por maior controle do posse de armas.

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Hardy Schober criou fundação para superar o luto

Há dois anos, Hardy Schober perdeu a filha, Jana, de 15 anos, em um episódio que ficou conhecido como o Massacre de Winnenden. Na cidade do sul da Alemanha, um jovem de 17 anos invadiu uma escola de ensino médio e com uma pistola semiautomática provocou um banho de sangue, matando 15 pessoas antes de se suicidar.

A tragédia fez Schober, de 51 anos, dar um novo rumo à vida. Ele se demitiu do cargo de diretor comercial de um banco e criou a Fundação Contra a Violência em Escolas, da qual é presidente. Seu objetivo é ajudar os sobreviventes, evitar outros massacres, promovendo atividades educativas, reuniões e manifestações a favor de uma legislação de porte de armas mais rígida.

"Minha filha me conferiu uma missão e sou fiel a ela", disse em entrevista à Deutsche Welle, ao mesmo tempo em que mandou um recado às famílias das vítimas do massacre na Escola Municipal Tasso da Silveira e disse como superou a dor da perda da filha.

DW-World: O que o senhor diria às famílias que sofreram agora, no Brasil, a mesma experiência do senhor há dois anos?

Hardy Schober: Diria que eu tenho muito pesar por eles. E que, nos próximos meses e anos, eles enfrentarão um período muito difícil, mas que não podem, nem devem esmorecer. Eles devem, como nós, se engajar e denunciar onde há problemas e se unir para analisar o que houve.

Que tipo de dificuldades o senhor enfrentou nos últimos dois anos, enquanto pai de uma das vítimas de um massacre como este? Que dificuldades as famílias no Rio de Janeiro possivelmente virão a ter?

No começo, você se depara com muitos políticos que se mostram muito solidários. Mas depois você vê que o dia-a-dia retorna rapidamente e tudo volta a ser como era antes para eles, e você acaba sendo esquecido. Mas também recebemos muita solidariedade de pessoas que a gente nem conhecia, que nos fazem bem e que nos ajudam a superar o luto. Mas há aqueles que abusam do luto alheio para tirar proveito próprio, e a isso devemos ficar sempre atentos.

Políticos, por exemplo?

Exatamente. Mas também pessoas próximas. É preciso saber identificar as pessoas que realmente te querem bem.

Como foi a experiência dos primeiros dias após a tragédia?

A gente cai em um buraco. Imagine que você tem um filho que você protege sempre e em toda situação. Mas na escola você não pode proteger e, de repente, acontece uma coisa como esta. Você leva duas a três semanas para se dar conta do que aconteceu.

Depois, você tem que pensar que a morte da filha não deve ser em vão. Você tem que definir uma nova meta, porque senão você perde o sentido da vida. Foi assim que consegui superar a tristeza de ter perdido minha filha.

Como foram as semanas seguintes ao massacre para o senhor e sua família?

As semanas seguintes foram, naturalmente, terríveis. E logo decidimos fazer algo para mudar a situação. Hoje lutamos pela mudança da lei de porte de armas. Não deve ser permitido que um rapaz tenha acesso a armas, podendo matar, assim, tantas pessoas.

Como foi a assistência psicológica na época?

A assistência foi boa, mas o que nos ajudou bastante foi que nós, familiares das vítimas, nos unimos e nos ajudamos mutuamente. Como vítimas da tragédia, nos fez bem sentarmos juntos para nos auxiliarmos a vencer a dor. O que mais nos ajudou foi a reciprocidade. Nós, pais, nos encontramos regularmente e nos encorajamos mutuamente para poder superar esse luto mais facilmente.

O acontecido ainda pesa muito sobre as famílias?

Sim, claro. Alguns pais hoje não conseguem mais trabalhar normalmente, têm ainda problemas psicológicos, alguns casais de pais tiveram problemas de relacionamento e se separaram. Alguns dos irmãos dos estudantes assassinados, por exemplo, ainda se encontram regularmente. E também minha filha de 14 anos, que perdeu a irmã mais velha, se encontra com uma menina que perdeu a irmã mais nova. Assim elas trocam experiências e se ajudam.

Como é possível ajudar a essas famílias?

Com muita compreensão, isso é importante. Mas muitas pessoas se isolam, querem ficar sós com sua dor. Temos que compreender essas pessoas. Mas eu diria que o melhor que temos a fazer é ficar ativo, fazer algo. Eu sempre disse que minha filha me conferiu uma missão: a de mudar algo na Alemanha. E eu devo isso à minha filha e serei fiel a ela. Eu ficaria contente se essas pessoas no Brasil pudessem seguir esse mesmo caminho.

Quais os objetivos políticos da Fundação Contra Violência em Escolas?

Promovemos uma discussão em vários aspectos. Temos dois objetivos políticos. Um é a mudança da lei de porte de armas, para dificultar que pessoas tenham acesso fácil a armas, e o outro diz respeito à violência midiática. Há muitos jogos de computador que simulam e incitam situações como estas. Os jovens conseguem ter acesso a esses jogos sem limitação de idade.

Quais as principais atividades de sua entidade?

Fazemos trabalhos de prevenção nas escolas. Estamos levando às escolas, por exemplo, uma peça de teatro desenvolvida por pedagogos para auxiliar na prevenção de violência nos colégios.

Os alunos que sobreviveram ainda recebem alguma assistência?

Os sobreviventes do massacre são acompanhados nas escolas, mas agora foram um pouco deixados de lado. Nós acompanhamos esses adolescentes, promovemos reuniões a cada dois meses. Há problemas banais como, por exemplo, alguns desses meninos que viveram o massacre não conseguem um seguro de saúde, porque vivenciaram um incidente traumático e alguns planos de saúde criam dificuldades para aceitá-los, porque eles significam um grande fator de risco.

Autor: Marcio Damasceno
Revisão: Roselaine Wandscheer

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