1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Brasil

Padilha: "Ame ou odeie 'Tropa de Elite', o que importa é o debate"

Em entrevista à DW-WORLD, no Festival de Cinema de Berlim, José Padilha critica "a hipocrisia da classe média brasileira", discute as "noções de esquerda e direita" e afirma que "a emoção, no cinema, não aliena a razão".

default

'Tropa de Elite' nas telas em Berlim

DW-WORLD.DE: Ao montar o Tropa de Elite , você optou pela narração em off , em primeira pessoa, para o personagem do Capitão Nascimento. Esse é um recurso que induz, pelo menos a princípio, uma identificação do espectador com o personagem. Você se surpreendeu com a transformação dele em herói por parte dos espectadores ou previu isso durante a montagem?

José Padilha: A pergunta tem uma premissa da qual discordo. O Capitão Nascimento não se transformou em herói. Fui a mais de cinco universidades falar do filme no Brasil, a mais de dez sessões do meu filme. Nas universidades, filmei os debates, que tinham dois, três mil estudantes. Eu perguntava: quem acha que o Capitão Nascimento é um herói? E nenhuma mão era levantada.

Acho que isso simplesmente não é fato. Vi em alguns jornais as pessoas dizerem que a população brasileira transformou o Nascimento num herói, logo, os brasileiros seriam a favor da violência. Isso é uma mentira. A população brasileira não é a favor da violência. É uma deturpação da realidade do Brasil.

A narração em primeira pessoa é comum no cinema de vários países. É verdade que ela cria uma relação entre o espectador e o personagem que está narrando. Em outras palavras, o filme está sendo visto pela ótica daquele personagem. Em O Poderoso Chefão, por exemplo, as pessoas se identificam com o Michael Corleone, que é o personagem principal. Os Bons Companheiros é narrado por um mafioso, Apocalipse Now por um assassino. E as pessoas se identificam com aquele assassino e com aquele mafioso e vêem a realidade através do olhar deles.

Não vejo problema em fazer isso com um policial e entender o ponto de vista dele. Assim como não vejo problema nenhum na opção do Scorsese pela narração de um mafioso em Os Bons Companheiros. Você torce pelo mafioso o tempo inteiro e isso não significa que você ache que a máfia seja boa.

Acho esse argumento muito infantil. É como se as pessoas que estão vendo o filme não fossem capazes de distinguir ficção da realidade e a crítica fosse muito mais inteligente e entendesse isso muito melhor. Discordo e acho que a população é muito inteligente e sabe bem o que está vendo.

A representação da classe média no filme foi um ponto extremamente discutido no Brasil. Essa mesma classe média, que está acostumada a atribuir toda a culpa ao governo, esquecendo que explora a empregada doméstica dentro da própria casa. Você acha que Tropa de Elite pode ter iniciado uma reflexão nesse sentido, por cutucar nesse ponto?

A briga, a violência urbana no Brasil foi vista até hoje como se fosse uma guerra particular entre bandidos e traficantes, da qual a classe média estaria excluída. É óbvio que a classe média está dentro dessa guerra e que a guerra não é particular.

Tropa de elite | The Elite Squad | Tropa de elite Land: BRA/ARG 2007 Sektion: Wettbewerb Nur zur Verwendung zur Berichterstattung über diesen Film Berlinale 2008

Diretor lembra 'escolhas conscientes que alimentam o processo da violência'

Por exemplo, no Brasil, por algum motivo, a maconha é ilegal. Poderia não ser, mas é. Então, o usuário da maconha e da cocaína, quando compra drogas, está comprando de um grupo armado que domina uma comunidade carente. E ele sabe disso, isso está implícito na escolha dele. Ele está financiando as armas e as balas dos traficantes, sim. Ele está dentro do processo social que gera isso e está fazendo escolhas conscientes que alimentam esse processo. A classe média tem uma grande dose de hipocrisia no Brasil.

Onde você pode ver isso claramente? A lei brasileira hoje diz o seguinte: se você é um menino pobre, que vende maconha e cocaína numa favela, e você é preso por um policial, você comete um crime hediondo, segundo a lei brasileira. Você vai para a cadeia, é uma cadeia lotada, onde cabem quatro pessoas ficam trinta, você não consegue dormir. É uma tortura.

Agora, se você é um garotinho rico, que está comprando essa mesma droga, a lei diz que a polícia só pode te dar uma admoestação verbal e mandar você para casa. Essa é uma grande vitória da classe média. Isso foi comemorado no Brasil como uma grande vitória. Para mim, é uma grande derrota. É vitória da injustiça e da hipocrisia da classe média brasileira.

A classe média é culpada de várias maneiras, essa é uma. Claro que não estou falando de toda a classe média, mas uma grande parte se aproveita da corrupção dos policiais. Um cara de classe média consegue corromper um policial e não é nem levado para uma delegacia. Existe uma conivência entre a classe média e o estado de coisas no Brasil que gera a violência.

O cinema é feito pela classe média. A classe pobre não faz cinema. Acho que uma grande parte da polêmica que existiu no Brasil e das acusações ao filme resulta do fato de que quem está escrevendo representa essa classe média que está sendo criticada no filme. Optei por colocar a crítica na boca de um policial violento. E aí ficou pior ainda. Como é que eu, o grande jornalista, estou sentado aqui, fumando meu baseado para escrever um artigo sobre este filme, estou sendo atacado por um policial? As pessoas não gostam, tem gente que não consegue lidar com isso, então é melhor se livrar do filme do que realmente analisá-lo.

Clique para continuar lendo.

Leia mais