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Países do Brics cobram reforma por mais direitos no FMI

29 de março de 2012

Maior participação no Fundo é condição para aumentar contribuição financeira. Durante cúpula na Índia, líderes emergentes apoiam criação de banco próprio do bloco e defendem negociação em moedas locais.

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Foto: Reuters

As cinco maiores economias emergentes do mundo – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – ratificaram nesta quinta-feira (29/03) seus planos de criar um banco de desenvolvimento próprio e assinaram pactos para impulsionar acordos comerciais no intuito de aumentar sua influência na economia mundial.

Ainda durante a 4ª Cúpula do Brics, em Nova Délhi, nesta quinta-feira (29/3) os cinco países acusaram as nações industrializadas pela atual crise econômica. E cobraram mais direitos no Fundo Monetário Internacional (FMI) para, aí então, repassarem maiores contribuições financeiras para o resgate das economias afetadas.

"Estamos preocupados com os lentos passos para a reforma de gestão e de cotas no FMI. O dinâmico processo de reforma é necessário para garantir a legitimidade e a efetividade do Fundo", afirmaram os cinco países em uma declaração conjunta.

"Ressaltamos que os esforços em andamento para aumentar a capacidade de empréstimo do FMI só serão bem sucedidos se houver a confiança de que todos os membros da instituição estão verdadeiramente comprometidos com a fiel implementação da reforma de 2010".

Na semana passada, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, havia afirmado que a instituição pretende implementar a reforma de cotas, que dará maiores direitos de voto a países sub-representados.

Uma das preocupações dos países do Brics é a política financeira implementada especialmente pelos Estados Unidos, pela União Europeia e pelo Japão, por isso pediram que estas nações evitem excesso de liquidez no mercado, políticas financeiras responsáveis e reformas estruturais. A presidente brasileira, Dilma Rousseff, criticou duramente as enormes quantias de dinheiro repassadas pelos bancos centrais nacionais dos países ricos, na tentativa de superar a crise.

Criação de um banco comum

Os cinco emergentes discutiram ainda a criação de um banco de desenvolvimento próprio do bloco, seguindo os modelos do Banco Mundial e do Banco Asiático de Desenvolvimento. O primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, justificou a iniciativa ressaltando que, nas últimas seis décadas, as instituições globais "falharam" em apoiar o desenvolvimento de economias emergentes e em desenvolvimento.

O novo banco deverá ser uma alternativa a instituições de crédito internacionais, como o Banco Mundial, e vai garantir recursos para projetos de infraestrutura e comércio. Sua criação será avaliada pelos ministros das Finanças dos países e levada para a próxima cúpula, na África do Sul, no ano que vem.

Além disso, os países do Brics querem ainda fortalecer o comércio entre si e ampliar as negociações em moeda nacional, a fim de reduzir os riscos com as oscilações do dólar. Nesta quinta-feira, foram assinados dois pactos neste sentido, que facilitarão facilidades de crédito em moeda local e permitirão que bancos estendam linhas de crédito para outros.

Singh afirma que também serão temas prioritários entre os países a redução de barreiras para concessão de visto, o trabalho em conjunto em questões como energia renovável e o fornecimento de comida, água e energia para suas populações.

Para o presidente russo, Dimitri Medvedev, essas iniciativas estão entre os passos que "transformarão o Brics no futuro em uma organização forte e poderosa".

Somados, os cinco países têm 45% da população mundial, um quarto das terras globais e um quarto do PIB do planeta. O volume, em dólares, das trocas comerciais entre os cinco emergentes deve passar os 230 bilhões de 2011 para 500 bilhões em 2015.

Direito do Irã

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul alertaram ainda sobre os riscos de um aumento dos conflitos com o Irã, que teriam "consequências catastróficas". E defenderam o direito de o país fazer pesquisas nucleares para fins pacíficos.

Eles pedem ainda o uso de meios diplomáticos e políticos entre líderes ocidentais e Teerã, a fim de se encontrar uma saída para a questão, incluindo mais diálogos entre a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e o governo iraniano, respeitando resoluções do Conselho de Segurança.

"O Irã desempenha um papel crucial para o desenvolvimento pacífico e a prosperidade em uma região de grande importância política e econômica, e queremos que desempenhe seu papel como um membro responsável da comunidade global", afirma o Brics.

A presidente Dilma Rousseff ressaltou que o Brasil "não concorda com esses protestos retóricos de elevação do nível da discussão". "Acho extremamente perigosas as medidas de bloqueio de compras do Irã, apesar de não termos relações comerciais com o Irã, mas outros países têm e precisam dessas compras”, disse a presidente.

Ainda em sua declaração conjunta, os países expressaram preocupação com a situação na Síria e pediram um fim imediato da violência e da violação dos direitos humanos naquele país.

Protestos

A cúpula dos Brics aconteceu sob protestos dos tibetanos, contrários ao presidente chinês Hu Jintao e à "contínua repressão" no Tibet. Na quarta-feira, um ativista tibetano de 27 anos morreu após atar fogo no próprio corpo. Ele deixou uma carta pedindo a atenção dos demais países à questão na China. Pequim acusa o líder espiritual Dalai Lama de incitar os manifestantes.

Os policiais armaram várias barricadas em toda a cidade, e alguns carregam cobertores encharcados de água, para evitar um novo incidente. Dezenas de manifestantes foram presos por autoridades indianas nos últimos dias, em especial nas proximidades do hotel em que o presidente chinês está hospedado e da embaixada da China.

MSB/dapd/ap/rtr/dpa/ebc
Revisão: Roselaine Wandscheer