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Cultura

Os intelectuais europeus ainda têm relevância política?

O intelectual ativista de esquerda entrou em extinção. Aderir aos conservadores já não é mais tabu. Mas será que engajamento político ainda é essencial para a definição de identidade do intelectual europeu?

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Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir de partida para Praga

A recente notícia de que os escritores alemães Siegfried Lenz e Martin Walser e o cabaretista Dieter Hildebrandt eram filiados ao partido nazista quando jovens abalou menos a opinião pública alemã do que a confissão que Günter Grass fez no ano passado sobre seu envolvimento com a Waffen-SS, unidade de elite do Exército de Hitler.

Mais do que o eventual comprometimento dessas figuras públicas com o regime nazista, o que realmente tomou a atenção da imprensa alemã foi a suspeita de que o partido nazista promovia filiações em massa, sem o conhecimento dos membros registrados. Os artistas na mira da opinião pública alegaram não ter conhecimento de sua filiação, e a justificativa foi aceita sem muito debate.

Pode ser que o escândalo desencadeado por Günter Grass já tenha rendido discussão suficiente e oferecido todos os argumentos para absolver as restantes figuras públicas. O assunto esgotou. Fato é que o argumento cabal para a absolvição desses artistas é sua credibilidade pessoal e o engajamento político que os tornou personalidades públicas influentes durante as últimas décadas.

Desobrigados de engajamento

O que mais chama a atenção nessa breve polêmica alemã é o apelo a valores que começam a perder a importância. É que a exigência de que o artista ou intelectual esteja do lado político "certo", que para a intelligentsia do pós-guerra sempre foi a esquerda, já deixou de ser formulada há um certo tempo. Ativismo político "correto" como garantia irrestrita de credibilidade pública: algo de que os intelectuais foram desobrigados?

Martin Walser, por exemplo, custou a reconquistar seu prestígio de literato após tê-lo colocado em risco há quase dez anos, ao reclamar da pretensa "instrumentalização do Holocausto" em um discurso proferido em 1998, em Frankfurt, por ocasião da entrega do Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão. Será que tal "deslize" ainda provocaria a mesma onda de indignação hoje?

O fato de o engajamento político ser um critério de qualidade que passou a se restringir aos intelectuais da velha guarda vem sendo aceito na Alemanha em silêncio, sem grandes debates. Na França, contudo, o desaparecimento do intelectual de esquerda tem sido registrado como uma ruptura traumática na identidade cultural coletiva. A adesão de intelectuais de esquerda, como o filósofo André Glucksmann, ao reduto do conservador Sarkozy durante as eleições presidenciais francesas causou espécie, mesmo que não tenha gerado a controvérsia esperada.

O fenômeno é descrito, em parte, como uma "virada de casaca" dos intelectuais originariamente de esquerda, fartos de pertencerem a um agrupamento político cada vez mais irrelevante. E a melhor forma de ser ouvido por quem está no poder e aumentar assim sua influência social seria aderir aos novos conservadores.

A França silencia

"A adesão ao Sr. Sarkozy simboliza a possibilidade de os intelectuais e filósofos se tornarem reacionários clássicos 'sem hesitação nem murmúrio', como diz o regimento militar", comentou o filósofo franco-marroquino Alain Badiou, em entrevista recente ao Le Monde.

E ele prossegue: "Essa adesão inclui a ligação corrompida com os ricos e os detentores de poder, a xenofobia antipopular e a adoração da política americana. Antigamente, quando um intelectual era de direita, ele tinha complexos. (...) O pós-guerra constituiu o personagem estereotipado do intelectual de esquerda. O que estamos assistindo agora – pelo menos é a isso que aspiro – é a morte do intelectual de esquerda, que entrou em declínio junto com a esquerda como um todo, antes de renascer das cinzas como uma fênix! Esse renascimento só poderá ocorrer numa clara divisão: ou um tipo novo de radicalismo político ou a adesão reacionária. Sem meio-termo."

A previsão de Badiou, filósofo que nunca se desligou de um horizonte socialista e marxista, não deixa de ter traços utópicos. Afinal, nada indica o surgimento de um novo radicalismo político entre os intelectuais europeus. A Europa como bastião de resistência à ascensão do neoconservadorismo americano: esta é uma (auto-)imagem em processo de diluição.

"Não permitamos nos entregar juntos à burrice"

A cumplicidade entre intelectuais norte-americanos e europeus parece ter morrido junto com Susan Sontag, considerada embaixadora intelectual entre os lados do Atlântico. Ao reagir com críticas aos políticos e aos órgãos de mídia norte-americanos após os atentados de 11 de setembro de 2001, Sontag se colocou na mira da opinião pública em seu país. Simbólico também o fato de ela se encontrar, naquela data, na American Academy de Berlim.

"Fiquemos de luto juntos. Mas não permitamos nos entregar juntos à burrice. Um pouco de consciência histórica poderia nos ajudar a compreender o que ocorreu e o que está por vir. 'Nosso país é forte' – é o que não param de nos dizer. Isso não necessariamente me consola. Quem duvidaria de que a América é forte? Mas força não é tudo que a América tem que mostrar agora." Essa declaração de Sontag gerou críticas ferozes nos EUA, inclusive por parte da intelectualidade.

A Europa, onde as reações ao 11 de Setembro foram mais diversificadas e emocionalmente mais distanciadas, se colocou a partir de então na posição de relativizar o radicalismo neoconservador ocidental e de compensar o silêncio – pelo menos inicial – de grande parte da intelectualidade norte-americana. Mas essa diferença também passou a se diluir nos últimos anos.

Calados ou ofuscados?

O silêncio dos intelectuais europeus domina o continente. Mas será que eles realmente se calam ou que seu chamado é ofuscado por outros discursos e pela onipresença da mídia diluidora de diferenças?

Esta última alternativa foi a explicação para a perplexidade muda com que os intelectuais italianos reagiram à era Berlusconi. Muitos observadores achavam que não era um silêncio voluntário, mas sim uma conseqüência da censura de vozes críticas na mídia televisiva controlada pelo próprio Berlusconi. Os radicais apelos de Umberto Eco, por exemplo, nunca foram televisionados.

Em um livro ironicamente intitulado Absent Minds. Intellectuals in Britain, Stefan Collini, professor de Literatura Inglesa em Cambridge, lançou – no ano passado – um perfil diferenciado do intelectual britânico do século 20. Desmentindo a suspeita de que o Reino Unido não teria intelectuais de peso, dado o pragmatismo do pensamento insulano, Collini disseca as formas de veiculação das opiniões da intelligentsia entre os redutos científicos e os meios de comunicação de massa.

Recentes discussões da sociologia alemã sobre o papel dos intelectuais parecem apontar para o desaparecimento de uma postura intelectual definitiva, como a que imperava nas décadas de 1960 e 70. A fragmentação do discurso intelectual, manifesto apenas nas brechas de um grande consenso entre política e mídia, dificulta cada vez mais sua apreensão. Ou será que o pensar complexo se torna cada vez menos comunicável numa era de informações rápidas?

"O consenso da retórica piedosa e deturpadora da realidade por parte de todos os políticos e comentadores da mídia nos últimos dias é indigno da democracia." Esta declaração, com que Susan Sontag horrorizou a opinião pública norte-americana em 2001, parece manter em certa medida a validade – e ter se estendido para além da América. Resta saber se realmente não existe nenhum meio-termo entre um novo radicalismo político e a adesão ao conservadorismo, como formulou Badiou. Ou quem sabe ainda não seja possível vislumbrar o efeito futuro de um discurso intelectual disperso e fragmentado.

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