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Brasil

Os diferentes motivos para a baixa adesão aos protestos

Falta de perspectiva de desfecho para crise, início atribulado do processo de impeachment e "fator Cunha" teriam afastado manifestantes. Mas avanço dos procedimentos na Câmara pode dar força ao movimento anti-Dilma.

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Cidades como Brasília também registraram manifestações menores que as anteriores

Manifestantes que pedem a saída da presidente Dilma Rousseff

voltaram às ruas

de algumas principais cidades brasileiras no domingo (13/12). A expectativa antes das manifestações era grande, já que se tratava da primeira convocação após o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), dar início ao processo de impeachment contra a presidente, mas a adesão conseguiu ser menor do que nos três grandes protestos que ocorreram em março, abril e agosto, quando a possibilidade de impeachment ainda estava distante.

Na Avenida Paulista, em São Paulo, o principal termômetro das manifestações, 40 mil pessoas compareceram para protestar, segundo o instituto Datafolha. É um número bem inferior ao pico de 210 mil em março, e abaixo de abril (100 mil) e agosto (135 mil). Outras cidades, como Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba, também registraram manifestações menores que as anteriores.

Segundo Kim Kataguiri, um dos líderes do Movimento Brasil Livre (MBL) – um dos principais grupos por trás das manifestações –, os números não representam um esvaziamento dos protestos. “Ficamos surpresos que tanta gente tenha resolvido comparecer. Convocamos os protestos deste domingo com poucas semanas de antecedência. A organização foi menor, mas mesmo assim milhares de pessoas apareceram”, afirma.

Após a divulgação dos primeiros números, o Planalto evitou comemorar a baixa adesão. O ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Edinho Silva, comentou apenas que as “manifestações são normais em um regime democrático”.

Outros membros do PT apontaram que o esvaziamento ocorreu por causa da falta de credibilidade de Cunha para conduzir o processo de impeachment. O senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que liderou o movimento dos caras-pintadas contra o então presidente Fernando Collor, em 1992, considerou as manifestações “fracas”.

“Depois do pedido de abertura do impeachment, seria o momento de crescimento para as manifestações, mas muita gente que não gosta da Dilma está achando que é um movimento que surge de um gesto de chantagem do Eduardo Cunha. As pessoas perceberam que a oposição não está pensando no Brasil”, disse o senador.

Alívio temporário para o Planalto

Especialistas ouvidos pela DW apontam que o entusiasmo com as manifestações deste domingo foi evidentemente menor do que nas anteriores, mas discordam sobre os motivos do esvaziamento.

O cientista político Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), aponta que o fator Cunha foi a principal explicação para a baixa adesão. “A rejeição a ele é ainda maior do que a de Dilma. O fato de ele ser o principal articulador do processo teve impacto negativo na adesão. As pessoas também estão começando a pensar sobre o papel da oposição e do vice-presidente Michel Temer. Elas estão pensando se estão sendo usadas na busca deles pelo poder”, afirma.

Brasilien Proteste

Na Avenida Paulista, o principal termômetro das manifestações, 40 mil pessoas compareceram

Já os cientistas Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e Ricardo Ismael, da PUC-Rio, apontam que o desânimo e o esvaziamento foram provocados tanto pela falta de perspectiva de um desfecho rápido para a crise quanto pelo início atribulado do processo de impeachment. Ainda assim, eles afirmam que isso não significa que o governo deve se sentir automaticamente aliviado.

“É claro que os números são menores, e o desânimo de muitas pessoas era nítido. Ainda existe um descompasso entre as principais forças que combinadas podem levar a saída de um presidente: as ruas, a Justiça e a classe política. Em março, eram as ruas que pediam a saída, enquanto os políticos e a Justiça estavam longe de concluir pela derrubada do governo. Agora, as ruas estão mais esvaziadas, enquanto o processo de saída está analisado pela Justiça, e os políticos estão se organizando e falando abertamente a favor do impeachment. Ainda assim, as ruas podem voltar a se combinar e pressionar ainda mais as outras duas forças. As manifestações podem estar pausadas, mas Dilma continua fragilizada”, afirma Rodrigo Prando, da Mackenzie.

Já Ricardo Ismael, da PUC-Rio, afirma ainda que mesmo com uma baixa nos números, os manifestantes ainda exibem capacidade de sustentar o movimento.

“A comparação entre números é um pouco enganosa. Esses grupos conseguiram sustentar um movimento que nasceu em março e que em dezembro ainda é capaz de colocar milhares de pessoas nas ruas – e tudo isso sem o mesmo nível de apoio e organização de movimentos sociais tradicionais ligados ao governo. Isso é uma façanha. Os organizadores só contam com redes sociais para convocar os manifestantes”, afirma.

Ainda segundo Ismael, as manifestações têm mais possibilidade de ganhar força conforme o processo contra Dilma Rousseff avançar.

“Antes, os manifestantes já conseguiam convocar milhares quando o processo de impeachment era só uma especulação. Agora, com um ‘calendário de impeachment' finalmente se desenhado, as manifestações têm mais potencial. É possível dizer que eles não esperavam que o processo contra Dilma fosse ainda aberto neste ano. Isso pode explicar a adesão menor. Nenhuma manifestação chega ao ápice enquanto o processo está longe de ser completado", opina.

O professor Oliveira, da UFPR, discorda. “As ruas falharam com os promotores do impeachment. Dificilmente elas vão desempenhar um papel determinante”, afirma.

Novos protestos

Os movimentos contra o governo já decidiram a data do próximo protesto: 13 de março de 2016, logo após o fim do recesso parlamentar. “Avaliamos os protestos deste domingo como um ‘aquecimento' para a próxima grande manifestação que estamos convocando”, afirma Kim Kataguiri.

O calendário fixado pelos manifestantes está em compasso com os planos da oposição, que se organiza para que o processo todo de impeachment só comece a ser analisado a partir do fim de fevereiro, com o objetivo de deixar o governo “sangrar” ainda mais até lá e apostando que o quadro econômico se deteriore.

Já o governo Dilma Rousseff trabalha para que o Congresso cancele o recesso e convoque sessões extraordinárias para analisar medidas de ajuste fiscal e o processo de impeachment entre janeiro e fevereiro.

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