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Mundo

"Os crimes da ditadura militar não devem ser esquecidos"

Por ocasião da visita do presidente argentino, Néstor Kirchner, à Alemanha, o jurista Wolfgang Kaleck fala à DW-WORLD sobre a contribuição do novo governo em Buenos Aires para esclarecer os crimes da ditadura militar.

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Kirchner foi recebido por Schröder em Berlim

O presidente argentino, Néstor Kirchner, em visita à Alemanha, encontrou-se com o premiê Gerhard Schröder nesta quinta-feira (14/4) para abordar a crise em seu país e conseguir apoio para sua estratégica econômica. Na Alemanha, Kirchner tem prestígio não apenas por seus êxitos na administração da situação argentina, algo que rendeu um elogio explícito de Schröder. Através de sua posição mais progressista em relação ao passado político da Argentina e dos crimes da ditadura militar, Kirchner também conta com o respeito de ativistas de direitos humanos na Alemanha.

Em entrevista à DW-WORLD, o jurista Wolfgang Kaleck, da Coalizão pela Impunidade (Koalision gegen Straflosigkeit), uma organização empenhada em esclarecer casos de alemães desaparecidos durante a ditadura militar argentina, fala sobre os avanços do governo Kirchner na questão de direitos humanos e sobre as falhas alemãs na resistência à violência militar nas ditaduras latino-americanas.

DW-WORLD – Ao tomar posse há dois anos, o presidente argentino Néstor Kirchner se propôs a investigar o que ocorreu de fato durante a ditadura militar no país (1976-83). Como o senhor avalia a política de direitos humanos do governo Kirchner?

Wolfgang Kaleck – Em nossa luta contra a impunidade dos crimes da ditadura militar, avaliamos o papel do governo Kirchner de forma positiva. Foi dele que partiu a iniciativa de retomar os processos contra a ditadura militar, suspendendo as chamadas "leis de anistia". O problema continua sendo o fato de Kirchner ter pouca influência sobre a Justiça, marcada pelo conflito entre forças defensoras dos direitos humanos e outras conservadoras, ainda ligadas à ideologia da ditadura militar.

O senhor mantém contato com diferentes advogados na Argentina. Pode-se dizer que o lobby da ditadura militar ainda vigora em parte?

É importante dizer "em parte". Uma coisa que depõe contra o governo Kirchner é o fato de os militares ainda gozarem de muitos privilégios. Muitas vezes os advogados e os tribunais nem sequer sabem do paradeiro deles. O que se ouve é que eles levam uma vida bem boa.

Qual o balanço da Coalizão contra a Impunidade sobre seu próprio trabalho durante o governo Kirchner? E o que ainda há por fazer?

Para os nossos casos alemães, posso dizer que o governo Kirchner manteve sua palavra e encaminhou para a Justiça os pedidos de extradição do governo alemão referentes a integrantes ainda vivos da junta militar. Os governos anteriores sempre bloquearam estas tentativas. Este é um passo acertado e muito importante. O que ainda falta é garantir à Justiça os recursos necessários para lidar com um imenso complexo criminal. Afinal, trata-se de 30 mil desaparecidos.

Em que sentido o governo alemão poderia se empenhar mais?

Temos alguns conflitos, sobretudo com o Ministério do Exterior. Especialmente nos casos dos estudantes alemães Elisabeth Käsemann e Klaus Zielschank, acusamos as autoridades de não ter feito tudo o que podiam para salvá-los e de ter até adotado as próprias versões da ditadura militar. Acusamos o empresariado alemão de compactuar com os militares sul-americanos. Um exemplo é o caso dos sindicalistas desaparecidos da Mercedes Benz, uma empresa que acabou lucrando com a repressão do sindicato. Mas também denunciamos o governo de ter concedido uma medalha de mérito a um militar argentino.

Quem foi homenageado com uma medalha de mérito?

Trata-se de um antigo adido militar da Embaixada da Argentina em Bonn, Juan José Masi. Ele recebeu a Cruz de Mérito do governo alemão (Bundesverdienstkreuz). Após retornar ao seu país, ele fazia parte da censura da junta. O encarregado de direitos humanos do governo federal está averiguando se é possível anular a homenagem retroativamente.

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