Os ′civis′ alemães: um exército de mãos à obra | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 09.11.2008
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Alemanha

Os 'civis' alemães: um exército de mãos à obra

Desde o fim da Segunda Guerra, jovens alemães podem se negar a empunhar armas. Como alternativa ao serviço militar, eles prestam o serviço civil – que os leva a asilos, orfanatos, centros sociais… ou até mesmo ao Brasil.

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O 'civil' Frederik Vogel, 19 anos, bate papo com a moradora Anneliese Weymar, de 85, no lar de idosos Johanniter-Stift

O alemão Manuel Neumann, de 24 anos, estuda Ciências Regionais da América Latina na Universidade de Colônia. A escolha profissional não era um sonho de adolescente. Até os 19, 20 anos, a única certeza de Manuel era que iria para a universidade – estudar o quê, ainda não tinha idéia.

Só depois de passar um ano no Brasil é que seu caminho acadêmico começou a se tornar claro. E isso graças a uma experiência proporcionada pelo serviço civil: entre 2003 e 2004, ele passou um ano cuidando de crianças e adolescentes em Capão Bonito, cidade de 46 mil habitantes no interior de São Paulo.

Neumann se tornou um dos mais de 2,5 milhões de alemães que já trilharam o caminho alternativo ao serviço militar. Desde que o serviço civil foi implementado, em 1961, a cada ano mais de 80 mil jovens de entre 18 e 23 anos canalizam suas energias não em marchas militares ou continências, mas sim para prestar serviços comunitários e trabalhar em projetos sociais ou de desenvolvimento. No caso de Manuel, a escolha óbvia foi procurar um projeto que o levasse para fora da Alemanha.

Zivildienst in Deutschland

Manuel Neumann diante da Universidade de Colônia: depois do serviço civil no Brasil, estudos da América Latina

"Eu quis ir para o exterior porque achei que seria uma boa chance para conhecer uma outra língua, uma outra cultura", disse ele a DW-WORLD, respondendo às perguntas sempre em português. "Mas também foi uma grande oportunidade de me conhecer mais, porque foi um ano vivendo numa situação extrema, no exterior, inicialmente sem falar a língua, e trabalhando num projeto social numa quase favela."

Após a guerra, o direito a dizer não

Os primeiros Zivis – como são apelidados os prestadores de serviço civil, Zivildienstleistender – entraram em ação em 10 de abril de 1961. Eles foram os primeiros a usufruir de um novo direito na Alemanha pós-guerra.

Em 1949, um artigo da Lei Fundamental da República Federal da Alemanha determinou: "Ninguém pode ser obrigado ao serviço militar armado contra a sua consciência". Em 1956, a legislação foi complementada, estipulando-se que quem se negasse ao uso das armas seria obrigado a prestar um serviço alternativo: o serviço civil.

"Depois da guerra, a questão do serviço militar armado era muito delicada. O passado não era nada bom, e o Holocausto não podia ser esquecido", contextualiza Helga Rösgen, presidente do Departamento Federal de Serviço Civil (BAZ, na sigla alemã), fundado em 1973.

"Os pais e mães da nova Constituição alemã foram muito sábios ao permitir que os homens recusassem o serviço militar armado, mas ao estabelecer, ao mesmo tempo, um serviço social como obrigação alternativa."

Recusar o serviço militar passou a ser um direito constitucional, mas os primeiros a fazer uso desta prerrogativa ainda tiveram que enfrentar o preconceito de boa parte da sociedade. "No início, os 'civis' eram um pouco vistos como se estivessem querendo se livrar do serviço militar, que ainda era prestado pela grande maioria dos homens", conta Rösgen.

"Hoje, eles são uma parte tão natural da sociedade que já foram até chamados de 'anjos sociais'. Eles contam com um grande reconhecimento da população", orgulha-se ela.

Número cresce desde 2006

No início de outubro, mais de 71 mil "civis" estavam em ação na Alemanha. Até o fim do ano, cerca de 88 mil jovens terão prestado o serviço, dando continuidade a um crescimento que tem sido constante desde 2006, quando o número foi de 83 mil. A expectativa para 2009 é de 90 mil.

Zivildienst in Deutschland

No Johanniter-Stift, 'civil' Patrik Kürten ajuda idosos na hora do almoço

O serviço civil dura nove meses (no passado, ainda podia chegar a 20). Os jovens podem trabalhar em diversos setores e escolhem a entidade onde gostariam de prestar serviço a partir de uma rede de instituições cadastradas no BAZ.

Segundo Rösgen, 60% das vagas são no setor social. Trabalha-se, por exemplo, cuidando de pessoas idosas ou com deficiências físicas ou mentais; em organizações para crianças ou jovens carentes; em centros de ajuda a aidéticos ou viciados em drogas; ou em instituições para sem-teto e desempregados.

"Para os 'civis', o serviço é uma experiência de amadurecimento. Eles adquirem competências na área social, se tornam mais comunicativos… Para muitos, é a primeira vez que têm contato com uma rotina de doenças ou deficiências, onde vêem que nem tudo na vida é cor-de-rosa", diz Rösgen.

De fato – para Frederik Vogel, de 19 anos, foi um choque ter que lidar, pela primeira vez, com idosos que já não querem mais viver. Mas ele teve que aprender a não se deixar abalar por isso e tentar animá-los – afinal, esta é uma de suas funções como "civil" no Johanniter-Stift, um lar de idosos com cerca de 140 moradores em Colônia.

"Já houve casos de pessoas aqui virarem para mim e dizerem que querem morrer, que preferiam se jogar de uma ponte. Para uma pessoa na minha idade, é difícil conviver com pessoas assim. Mas é preciso sempre injetar ânimo nelas", diz ele.

Tiro e queda contra a timidez

Mau humor não existe na rotina de Frederik – ou pelo menos não pode transparecer. Ao começar o expediente na segunda-feira, sua primeira função é recrutar velhinhos para a ginástica musical. Ele sai batendo de porta em porta e distribuindo "bons dias" enérgicos, perguntando, "e então, vamos para a ginástica??" como quem pergunta se criança quer doce. Os que concordam em se agregar, ele escolta até a salinha arrumada para a aula, ora empurrando-os na cadeira de rodas, ora acompanhando-os no andador.

Zivildienst in Deutschland

Bingo! Frederik anuncia os números para uma mesa de participantes empenhados

Ele mesmo se surpreende com a mudança que percebeu em si desde que começou o serviço civil, há dois meses. "Na escola, eu era muito tímido, ficava mais na minha, meio quieto. Mas aqui se desaprende isso totalmente. Foi muito rápido sair da timidez", diz Frederik.

Rápido, e necessário. Além de recrutador para aulas de ginástica, ele comanda rodadas de bingo, ajuda em aulas de canto, promove sessões de "treinamento da memória" para os idosos (que consistem numa exibição de umas 15 fotos por vez para que eles depois anotem o que viram) e, nos intervalos, conversa, dá palavras de incentivo e oferece o ouvido para moradores como a senhora Anneliese Weymar, de 85 anos. "Nós nos damos muito bem", orgulha-se ela.

Chance para período no exterior

Além do setor social, o serviço civil também pode ser cumprido na área ambiental – atuando-se em projetos de proteção às águas e à natureza, por exemplo. Há também funções que não fazem parte da lista padrão do BAZ, mas que podem equivaler a um serviço civil.

É o caso, por exemplo, de serviços nas áreas de emergência e defesa civil; de trabalho voluntário em instituições como a Cruz Vermelha; ou da participação em projetos sociais no exterior, como fez o estudante Manuel Neumann.

No projeto social em que trabalhou em Capão Bonito, Manuel cuidava de crianças na creche, pela manhã; e acompanhava os adolescentes que iam para lá depois da escola de tarde, coordenando atividades como trabalho na horta.

"Este ano me trouxe muitas experiências boas, mas também vivi muitas situações difíceis, e acho que no fim essas foram as mais importantes, porque foi com elas que aprendi mais", diz ele. "No bairro pobre onde eu trabalhava, vi coisas que nunca teria visto aqui na Europa, e conheci o cotidiano de pessoas totalmente diferentes de mim, e realmente carentes."

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Frederik leva idosos para a sala de ginástica musical

Manuel ganhava cerca de 170 euros por mês da instituição para a qual trabalhava, que também patrocinava a sua moradia na casa de uma família. Segundo ele, dava para viver e ainda economizar um pouco para viagens: no tempo livre, ele conseguiu conhecer Brasília, Salvador, Belém, Belo Horizonte…

E ainda fez um tour de bicicleta com um grupo de ciclistas até o litoral paulista. Nas costas de sua camiseta, o apelido com que foi cunhado rapidamente em Capão Bonito: Alemão.

Antes do serviço civil, recusa oficial ao Exército

Quando o serviço é prestado na Alemanha, os jovens ganham um salário padrão de 9,41euros para cada dia do mês (com o passar dos meses, a diária sobe até 10,95 euros), mais ajuda para cobrir gastos com alimentação, transporte e até roupas (no caso de cargos que exigem novas roupas, ou destroem as antigas).

Vale ressaltar, porém, que os jovens na idade de recrutamento – entre 18 e 23 anos – não podem optar, de cara, entre o serviço militar ou civil. O primeiro continua sendo a "regra", e aqueles que preferirem a alternativa precisam passar por um procedimento formal para serem reconhecidos como Kriegsdienstverweigerer – alguém que se recusa a prestar o serviço militar armado.

No requerimento, ele deve escrever uma carta detalhada expondo as razões que o levam a não querer empunhar armas de fogo. Se o requerimento é considerado convincente pelo BAZ, o jovem é automaticamente encaminhado ao serviço civil.

Neste ano, entre janeiro e junho, 245 mil jovens se apresentaram ao Exército para o exame físico que dá início ao processo de convocação. Deles, 80.600 apresentaram o requerimento para recusar o serviço armado.

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