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Cultura

Os 75 anos de um ícone musical

Stockhausen é um papa da música de vanguarda, “cult” para os Beatles, Kraftwerk e Björk. Uma personalidade polêmica com invejável senso de marketing, entre os extremos da primeira comunhão e do 11 de setembro.

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Stockhausen influencia gerações de músicos

Enquanto Richard Wagner mandou construir uma casa só para a apresentação de suas óperas – dentre as quais uma tetralogia com 16 horas de duração –, ele aspira a ter sete teatros – cada um com uma cor, formato e aroma característico – para sua heptalogia Licht, dedicada aos dias da semana, que dura mais de 30 horas.

Arnold Schoenberg elaborou a técnica dodecafônica, em que todo o aspecto melódico e harmônico de uma peça está predeterminado. Na década de 1950, o movimento serialista ampliou essa concepção, incluindo a organização prévia dos ritmos, timbres, densidades e dinâmica. Ele inventou a superformel, uma espécie de matriz genética da obra, que conteria em si não apenas o material, como todo seu desenvolvimento posterior.

Ele próprio foi pioneiro da quadrofonia na música eletrônica, chegando a propor soluções técnicas para a obtenção de efeitos em quatro canais. Quarenta anos mais tarde ele se superará em Oktophonie, onde os sons se movem nas três dimensões do espaço.

Aparentemente não importa o que os maiores compositores (inclusive ele) jamais hajam produzido: ele sempre superará a todos, fará tudo ainda maior, melhor, mais radical.

Da província à música eletrônica

Ele é Karlheinz Stockhausen, nascido em 22 de agosto de 1928 em Mödrath, nas proximidades de Colônia. Após formar-se em Piano e Pedagogia Musical, estudou em Paris com Darius Milhaud (1892-1974) e o legendário pai da vanguarda musical européia, Olivier Messiaen (1908-1992). A partir da década de 50, trabalhou no Estúdio de Música Eletrônica da Rádio WDR, cujo diretor, Herbert Eimert, o introduziu nos Cursos de Verão de Darmstadt. Aqui, o jovem compositor tomou contato e adotou os rigores do serialismo.

A produção de música por meios eletrônicos – na época, humildes díodos, válvulas e transistores herdados da técnica de rádio – também o fascinou. Por um lado, ela permitia explorar campos vedados à execução instrumental e vocal, dos ruídos e extremos de intensidade até os sons para além da audição humana. Por outro, a técnica conferia controle absoluto sobre todos os parâmetros sonoros.

Enquanto a variante francesa, a musique concrète, tinha uma abordagem mais lúdica e sensorial, na música eletrônica alemã dessa época o compositor era convidado a assumir o papel de demiurgo: primeiro criar seus próprios átomos sonoros, para depois organizá-los num microcosmos musical. De 1962 a 1990, Stockhausen assumiu a direção do estúdio da WDR, conferindo-lhe, através de seu nome, projeção internacional

Do cerebral ao esotérico

Dessa fase datam algumas das obras mais significativas de Stockhausen, como os puramente eletrônicos Studie I e II; Kontakte (talvez a primeira combinação bem sucedida de sons eletrônicos com instrumentos ao vivo); e Gesang der Jünglinge. Este “Canto dos adolescentes” encerra três elementos centrais de seu universo pessoal: experimentos com a linguagem (ele também estudou Fonética e Teoria da Comunicação), o louvor a Deus (é extremamente religioso), e a alusão aos mortos nas câmaras de gás dos nazistas (sua infância de órfão foi marcada pela Segunda Guerra Mundial).

O contato com a filosofia oriental – coincidindo com o auge do movimento hippie – determinará uma guinada estilística em direção mais contemplativa, minimalista e intuitiva. É a época de Stimmung para seis vozes, Mantra para dois pianos e Aus den sieben Tagen, para qualquer combinação instrumental ou vocal. Em Hymnen, estreada em 1967, ele se propõe dissolver todos os hinos nacionais, fundindo-os num único hino universal. “Made by Stockhausen”, óbvio.

Do familiar ao comercial

Na cidadezinha de Kürten, de volta a sua região de nascença, o músico montou na década de 70 um pequeno império, que divide com a clarinetista Suzanne Stephens e a flautista Kathinka Pasveer. Com as duas virtuoses mantém tanto os Cursos Stockhausen de interpretação e composição, como o Stockhausen Verlag, dedicado a suas partituras e escritos. Karlheinz é ainda o patriarca de uma dinastia musical, que inclui o tecladista Simon, o trompetista Markus, a pianista Majella e a flautista Christel.

Desde 1977 o compositor renano concentra praticamente toda a sua genialidade numa única criação: a ópera em sete partes Licht, cujos protagonistas são o anjo Miguel, Lúcifer e Eva. Numa esperta jogada de marketing, a obra está dividida em cenas que podem ser executadas isoladamente e são publicadas em diversas versões por sua própria editora.

Entre as mais espetaculares, está o Hubschrauber-Quartett, de Mittwoch (Quarta-feira). O título da peça estreada em 1995 é programa: o quarteto de cordas deve interpretá-la a bordo de um helicóptero, e seu som chega à terra por alto-falantes. A última parte do ciclo, Sonntag (Domingo) ainda aguarda a estréia na íntegra.

Do cult ao politicamente incorreto e de vota ao cult

Em 2001 Karlheinz recebeu notoriedade indesejada, ao classificar publicamente os atentados de 11 de setembro como “uma obra gigantesca”. O deslize acarretou-lhe concertos cancelados, a retirada da cidadania honorária de Kürten e cruel assédio da imprensa. Em entrevista recente ao jornal popular Express, de Colônia, o sensível artista classificou este como o momento mais terrível de sua vida. Enquanto o mais belo foi sua primeira comunhão.

Die Beatles

The Beatles

Quer adorado como gênio, quer criticado como mercenário, oportunista e pigmeu intelectual, o artista de 75 anos é, sem dúvida, uma personagem cult, um dos poucos ícones vivos autênticos. De guru new age a “Papa Techno”, ele tem sido estudado, escutado – ou pelo menos citado – não só por músicos eruditos, como por gente como a cantora Björk e os grupos Kraftwerk e Smashing Pumpkins. Até John Lennon sonhava realizar um show a seu lado. Porém quis o destino que os Beatles se separassem antes de alcançar a incomparável honra.

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