Organização internacional certifica o manejo ambiental responsável | Novidades da ciência para melhorar a qualidade de vida | DW | 01.03.2010
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Ciência e Saúde

Organização internacional certifica o manejo ambiental responsável

Desde 1993, a ONG FSC certifica florestas e produtos resultados do manejo florestal adequado. O diretor da organização fala à DW sobre as florestas no Brasil e no mundo.

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Manejo responsável ajuda a preservação de florestas

De acordo com a ONU, o mundo perde 200 quilômetros quadrados de florestas por dia. A maior parte do desmatamento mundial ocorre no Brasil e na Indonésia, segundo o Relatório de Monitoramento Global de 2008, realizado pelo Banco Mundial. Muitas das florestas são desmatadas ilegalmente, oferecendo riscos à fauna e à flora locais e aos trabalhadores envolvidos nas operações.

Para combater a insensatez no trabalho florestal em todo o mundo, a organização não governamental FSC (Conselho de Manejo Florestal, na sigla em inglês) foi fundada em 1993 na cidade alemã de Bonn para promover o manejo florestal responsável. A certificação FSC atinge mais de 80 países e ganha cada vez mais espaço no mercado. Atualmente, são responsáveis por cerca de 7 a 8 % da produção global de produtos derivados da madeireira.

O diretor-executivo da organização é o brasileiro André Giacini de Freitas. Formado em engenharia florestal pela Universidade de São Paulo (USP), Giacini acumulou uma vasta experiência em instituições ambientais internacionais, dentre elas a União Internacional de Organizações de Pesquisa Florestal (Iufro), na Áustria, e a Federação de Trabalhadores Florestais, no Panamá. No Brasil, fez parte da ONG Imaflora, da FSC Brasil e trabalhou para um banco holandês, no qual desenvolveu políticas internas para certificação dos investimentos do banco a fazendeiros.

Em entrevista à Deutsche Welle, ele falou sobre o trabalho da FSC no mundo e fez suas avaliações sobre o Brasil, onde há 4,8 milhões de hectares certificados.

Deutsche Welle: Quando a FSC foi criada e qual é o seu propósito?

André Giacini de Freitas

André Giacini de Freitas, da FSC

André Giacini de Freitas: Começou no inicio dos anos 90. Depois do reconhecimento de que somente as iniciativas governamentais para controlar a gestão das florestas não eram suficientes. Surgiu do interesse de organizações ambientais de setores progressivos da indústria e de movimentos sociais, para terem um sistema voluntário que reconhecesse as operações ou práticas de manejo florestais bem feitas. Isso é o que chamamos de manejo florestal responsável.

Quais são as características do manejo florestal responsável?

O manejo florestal minimiza os impactos ambientais e cuida das vias hídricas, da conservação do solo, das áreas de remanentes florestais, das áreas de proteção de florestas e de espécies ameaçadas. O manejo florestal tem uma série de medidas de proteção ambiental. A operação tem que prover para seus trabalhadores acampamento e moradia, alimentação, água, equipe de saúde e segurança do trabalho. Também vemos como funciona a relação com as comunidades locais e se há oportunidades de emprego, respeitando os direitos de uma comunidade tradicional. Há uma série de regras que legislam a parte social. Isso principalmente em relação às comunidades vizinhas e aos trabalhadores da mesma empresa florestal.

Como a FSC inicia a detecção de terras a serem certificadas?

Geralmente, são as comunidades ou as operações florestais que se interessam na certificação e buscam nosso sistema. Verificamos as práticas que elas têm e, se elas estiverem de acordo com nossos padrões, elas podem ser certificadas. Temos um modelo muito participativo de desenvolvimento de padrões. Trazemos a parte ambiental, social e a econômica, colocamos tudo na mesa e ai é preciso ver o que significa na prática a definição de manejo florestal responsável. Isso está definido nos nossos princípios e critérios, que são dez. Eles envolvem respeito às leis e à posse de terras, respeito aos povos indígenas, impacto ambiental, questões de monitoração e florestas de alto valor de conservação. Para alguém se certificar, ele tem que respeitar esses princípios e critérios. Podem ser comunidades, empresas, grandes e pequenos produtores, há uma grande variedade.

Há algum caso que tenha chamado especialmente a atenção, no qual a certificação ajudou a reverter algum problema?

Temos muitos casos no sistema e é muito interessante porque nosso objetivo é mudar práticas ambientais no mundo. Então, sempre temos a vivência de que estamos mudando as coisas. Um caso que me vem à cabeça agora é o que ocorreu na Guatemala, na Reserva da Biosfera Maia, onde há comunidades que estão certificadas e isso faz com que elas protejam melhor a floresta. E, ao final, as áreas certificadas FSC estão mais bem protegidas do que as áreas que estão sob a proteção do governo. Isso em relação a incêndios florestais, roubos de madeira, dentre outros.

Como você avalia o mercado de derivados de madeira?

Há uma demanda de produtos certificados, no caso do FSC, os produtos florestais, mas se falamos em produtos agrícolas, pode ser o Fair Trade, o orgânico, ou outro tipo de produto. Se um consumidor final pede ao seu fornecedor que venda produto certificado, isso vai, através da cadeia produtiva, chegar até a floresta. A ideia é que as operações certificadas sejam um mecanismo que traga algum tipo de benefício de mercado, pode ser um melhor preço, um acesso privilegiado ao mercado ou uma melhor condição de venda.

Qual é a participação da FSC no mundo e na América Latina?

Hoje em dia, estamos com 123 milhões de hectares certificados no mundo, o que representa 3,5 vezes o tamanho da Alemanha. Em termos de America Latina, há pouco mais de 11 milhões de hectares e os principais países são Brasil, Bolívia, Uruguai, Guatemala, México, Peru e Chile. São 240 operações certificadas.

E neste número estão englobadas comunidades e organizações?

Há tanto comunidades como organizações. Depende de cada país. Há países em que os componentes da comunidade são mais fortes, como a Guatemala, que tem muitas comunidades certificadas. Os países que possuem mais comunidades certificadas são México, Guatemala e Brasil.

No Brasil, podemos dizer que a agricultura, a extração de madeira e a pecuária são os principais motivadores do desmatamento?

O desmatamento tem muitas causas é um tema bastante complexo. Mas, um dos principais motivadores é a expansão da pecuária. Às vezes, há uma exploração florestal que abre estradas na área e permite um acesso mais fácil, é uma questão ecológica. Mas, se eu tivesse que isolar uma causa principal, eu diria que é a carne.

Depois há alguma relação com a expansão da soja e da produção de madeira e alguma relação com alguns pequenos produtores rurais que acabam tendo uma forma de cultivo que requer o desmatamento de pequenas áreas.

Qual é o destino desta madeira?

Isso depende de quem for o dono das áreas. Se a área for de pequenos produtores, muitas vezes, a madeira não é nem comercializada, ou é algo muito local. Em outros casos, há madeiras que entram no mercado e boa parte é vendida no Brasil. O mercado consumidor brasileiro para a madeira tropical é muito grande.

O Brasil levou à cúpula do clima de Copenhague a meta de diminuir em 80% o desmatamento em território nacional. Você acredita que esta seja uma meta viável?

Eu acho que é viável com a combinação certa de medidas governamentais e de medidas do setor privado. Não é fácil, mas eu acho que é viável.

Quem você avalia que sejam os maiores culpados pela produção da madeira ilegal no Brasil: o governo, os produtores ilegais ou os compradores?

Todo mundo tem culpa. Há o produtor que o faz de maneira ilegal, ou a serralheria que não exige os documentos. O governo brasileiro tem melhorado nos últimos anos o seu sistema de fiscalização. Há um novo sistema de controle de volume e rastreamento. Infelizmente, esse sistema ainda não está funcionando nos principais estados produtores de madeira, como Pará, Mato Grosso e Rondônia. Mas vai chegar lá. O governo brasileiro tem trabalhado bastante, tanto que houve uma queda nos últimos anos de área desmatada. Não é só trabalhar com a questão da madeira ilegal e sim com o desmatamento ilegal. Há resultados positivos por parte do governo nessa área. Acho que há também progressos por parte dos consumidores. Mas todo mundo tem sua parcela de culpa.

Qual é a presença da FSC na Amazônia atualmente?

É interessante. Na Amazônia nós temos uma presença menor do que gostaríamos de ter. Mas, isso é mais por uma questão estrutural, por uma dificuldade de fazer manejo florestal na Amazônia. Não se trata da dificuldade de ser certificado, é a dificuldade de fazer manejo. Porque a questão fundiária na Amazônia é tão complicada e complexa que é difícil você ter a segurança necessária para poder utilizar a terra para manejo. Agora, o governo está aprovando a lei de gestão de florestas públicas, na qual ele delimita as terras que podem ser destinadas para o uso de empresas, comunidades ou o que quer que seja. Mas, tem que ser um uso responsável, para manejo. As florestas vão continuar sendo florestas, mas vai haver áreas públicas que poderão ser destinadas a esse uso. Quando esse sistema começar a rodar em grande escala, a certificação FSC vai crescer muito na Amazônia. Hoje, devemos ter em torno de 2 a 2,5 milhões de hectares certificados na Amazônia. Mas podia ser muito mais

Entrevista: Deyvis Drusian

Revisão: Carlos Albuquerque

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